
Blog
Pesquisa reivindica reconhecimento do pagode como movimento de resistência cultural preta e periférica
Com melodias emotivas e ideais românticos, gênero musical surgiu em comunidades sendo protagonizado por jovens pobres e pretos que tinham na música uma expressão de seus sonhos e de sua subjetividade
Nova estética musical
De acordo com o músico e autor da pesquisa Igor Damião Graciano, o pagode paulistano surgiu nos anos 1980 influenciado sobretudo pelo grupo Fundo de Quintal (grupo de samba brasileiro formado no Rio de Janeiro na década de 1970), pelos bailes black e por artistas que contribuíram para uma nova estética musical. Segundo o músico, diferentemente do samba tradicional, o pagode ganhou destaque por sua ampla presença na grande mídia e pela incorporação de elementos de diversos estilos, como o pop dos anos 1990, soul, rhythm and blues (R&B) — estilos fundamentais da música negra norte-americana —, além do funk e da influência de nomes como Djavan, Tim Maia, Jorge Ben Jor, além da bossa nova.
Em entrevista ao Jornal da USP, Wilsinho (Wilson dos Santos Soares), ex-integrante do Grupo Malícia, diz que o pagode dos anos 90 era diverso, com canções que iam do romântico ao estilo mais animado e dançante. Segundo o músico, essa autenticidade marcou uma geração e construiu um legado duradouro. “Prova disso é que muitos grupos atuais continuam regravando sucessos daquela época. Músicas lançadas há três décadas ainda são executadas nas rádios, reforçando o impacto e a relevância daquele período para a história do gênero”, relata.
Wilsinho diz que fazer parte do movimento dos anos 1990 foi motivo de grande orgulho. Segundo ele, essa foi a verdadeira era de ouro do pagode, quando o gênero alcançou o topo das paradas de sucesso em todo o Brasil.
Movimento de resistência cultural
A pesquisa Movimento pagode noventa: o sonho, o romantismo e suas harmonias, apresentada no Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, sob orientação do professor Marcos Câmara de Castro, traz também um pouco da vivência de Graciano. Com formação musical desde a infância, filho de pagodeiro – de quem ganhou seu primeiro instrumento, um cavaquinho -, ele sentiu a ausência desse estilo ao longo de toda sua trajetória educacional.
O pesquisador defende que o pagode tenha reconhecimento e seja ensinado em conservatórios, escolas de música e universidade com o mesmo prestígio concedido à bossa nova, à música popular brasileira (MPB), ao rock a outros gêneros musicais. Durante sua formação, Graciano relatou ter enfrentado diversas microagressões relacionadas à sua trajetória como pagodeiro e ao seu capital cultural, embora, na época, não tivesse plena consciência da discriminação sofrida.
Em sua opinião, “as poucas pesquisas sobre o movimento nas universidades é reflexo do preconceito contra esse gênero musical e do apagamento histórico da cultura negra na sociedade brasileira”, diz.
Segundo o professor Castro, ao ser tratado como objeto de pesquisa, o pagode representa um avanço na perspectiva da musicologia no contexto do pensamento decolonial – uma abordagem crítica que examina a música em sua totalidade, como ela foi produzida, consumida e inserida pela sociedade. “Graciano mergulha no contextos dos ‘pretos periféricos’ que construíram o movimento que repercute até hoje”, diz. “Sua abordagem busca valorizar manifestações musicais brasileiras historicamente marginalizadas pelo cânone oficial, que reflete uma política de memória excludente e seletiva”, avalia.
Pagodeiros entrevistados
Grupos como Negritude Junior e Sensação fizeram parte do movimento de pagode paulistano dos anos 1990 – Foto: Divulgação
Análise de Interfone
Conflito no refrão
O pesquisador diz que no refrão surge um conflito: o narrador relata ter saído de casa durante a madrugada e estava agora diante do prédio da pessoa amada, localizado em um bairro distante, possivelmente em uma metrópole como São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte. No entanto, ele é impedido pelo porteiro de subir para vê-la. “A pessoa parece se desesperar ao perceber que o porteiro não o deixa entrar no condomínio por suspeitar que ele não está com boas intenções”, diz o pesquisador. Analisando o cenário, Graciano avalia que a cena está carregada de questões raciais e de violência urbana, que nos anos 1990 atingiam taxas alarmantes. “Provavelmente, o ‘eu’ da música era preto, e ele temia por sua vida se ficasse por muito tempo parado em frente ao prédio da amada”, diz.
Final feliz
Samba traz em sua história a marca do protagonismo feminino
Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, também conhecida como “mãe do samba”, chegou a reivindicar sua autoria no primeiro samba gravado no Brasil
‘É som de preto, de favelado’: a evolução do funk no Brasil
Pesquisador da USP que estuda o funk como expressão da diáspora africana quer propor uma nova teoria musical
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.























