
.
Texto: Ana Beatriz Tuma*
A atividade começa com a bolsista de treinamento técnico e integrante da equipe de desenvolvimento da plataforma colaborativa Arquigrafia Ana Carolina Ribeiro perguntando o que é uma caneta BIC para cada um dos participantes da sessão de codesign. Ela diz: “Para mim, isso daqui [a caneta] é um prendedor de cabelo”. Dentre as respostas do grupo, encontram-se: uma ferramenta de tatuagem temporária, um esmalte e um mastigador.
“A gente usa a caneta BIC o tempo inteiro para fazer um monte de coisas e ela só existe porque faz parte desse sistema maior e mais complexo e sofisticado que presume a existência dela”, explica Caio Vassão, pesquisador associado ao projeto temático Fapesp Experiência Arquigrafia 4.0 e autor do livro Metadesign: Ferramentas, Estratégias e Ética para a Complexidade.
A sessão de codesign é uma das atividades que estão sendo realizadas pela equipe da plataforma colaborativa que extrapolam o design ao utilizar o metadesign na arquitetura e urbanismo. A referida plataforma, hoje, faz parte do projeto temático Fapesp Experiência Arquigrafia 4.0 da Faculdade de Arquitetura e de Urbanismo e de Design (FAU) da USP.
Design x metadesign
No ponto de vista de Caio Vassão, há duas diferenças entre o design e o metadesign. “Uma é você não pensar mais o objeto isolado, mas pensá-lo dentro de um sistema maior. E a tarefa desse projetista, desse designer [a tradução de design é projeto], seria não projetar a peça isolada, mas projetar um sistema: o sistema construtivo, o sistema de peças de mobiliário etc.” Portanto, o designer está preocupado com o objeto e o metadesigner com o sistema que o circunda.
De acordo com ele, a segunda diferença é que, ao projetar esse sistema, o metadesigner é capaz de fazer muitas variações diferentes do objeto ao pensá-lo de maneira mais dinâmica.
“Não é tanto pensar o projeto de um objeto, mas o projeto de processos: qual o processo produtivo que vai me gerar o objeto? Qual é o processo de design? Como é que eu organizo as pessoas, equipes e tecnologias para viabilizar um projeto? Como é que eu organizo esse ambiente onde o projeto vai acontecer? Então é o projeto do próprio projeto. É o design do próprio design. Por isso, a palavra metadesign, que tem um significado de um processo reflexivo”, elucida o pesquisador.

.
Dessa maneira, o designer utiliza métodos pré-concebidos para realizar os seus projetos. Já o metadesigner concebe os próprios métodos. “Ou seja, antes de eu fazer a cadeira, eu vou desenhar um método pelo qual eu vou fazê-la. Parece que é uma complexificação desnecessária, mas você percebe que, ao adotar esse ponto de vista, você tem um alcance muito maior”, afirma Vassão.
E para quem o metadesign pode ser útil? Segundo ele, qualquer área que envolva a realização de projeto, como a Engenharia Civil, o Desenho Industrial e a Arquitetura e Urbanismo, que permitem entender qual é o sistema que está sendo projetado.
A experiência do Arquigrafia
A equipe de desenvolvimento da plataforma colaborativa, conforme explica Ana Carolina Ribeiro, tem adotado o metadesign em suas atividades já que este tem o intuito de gerenciar processos complexos. “Processos que têm muita gente envolvida, muita coisa envolvida, muitos artefatos. A gente pode pensar em artefatos como sites, plataformas, comunicações. Então, tem muita coisa envolvida. Por isso, o Arquigrafia é um processo complexo.”
Por entender que o metadesign se preocupa também com os processos e não só com os artefatos finais, Ribeiro conta que a equipe “tem pensado em como a gente precisa de alguns artefatos e de alguns momentos estruturantes desse processo”. Nesse sentido, uma das atividades que têm sido feitas é tentar criar comunidades de comunicação entre os pesquisadores, pontes para que as pessoas também se sintam na autonomia de colaborar e de compreender o que está acontecendo no projeto.
Além disso, ela diz que também têm sido realizados eventos que utilizam o metadesign, os quais são momentos pontuais de diálogo em que são chamados diferentes públicos, internos e/ou externos ao Arquigrafia. Tais eventos são um hackathon, uma charrette e sessões de codesign.

.
“O último [evento] que a gente está fazendo são as sessões de codesign, que aí, de fato, é uma sessão de trabalho. A gente, nos outros [eventos], se debruçou em questões maiores. Mas agora, nessas sessões de codesign, a gente está se debruçando na questão mais específica da plataforma em si, das interfaces, de como ela está organizada, de como ela atende ou não as pessoas que estão envolvidas no projeto”, ela pontua.
Para Kevin Altea, ex-bolsista de iniciação científica (IC) do Arquigrafia e um dos organizadores do hackathon e da charrette, ambos os eventos foram processos muito fortes de metadesign. “É interessante pensar essas metodologias aplicadas ao Arquigrafia porque elas conseguem fazer um conjunto muito plural de participantes, sejam eles de formações acadêmicas diferentes, sejam de graus de formação diferentes também, com experiências profissionais e acadêmicas diferentes, convergirem em uma solução ou em algumas soluções, em uma proposição. Então é literalmente sair de algo complexo e muito difuso e chegar em uma convergência de ideias através de uma metodologia.”
No Arquigrafia o metadesign é visto como se compusesse camadas por Gustavo Machado, designer e ex-bolsista de IC do Arquigrafia. Em uma primeira camada, encontram-se os eventos como a charrette e o hackathon, uma vez que são oportunidades dos usuários ou representantes deles de estarem juntos em dinâmicas de projeto que irão guiar como a plataforma será.
Já em uma segunda camada, está a própria natureza do Arquigrafia, no qual o conteúdo que está disponível, como as fotos e os metadados delas, é produzido pelos usuários. “Acaba tendo aí um desenvolvimento autônomo do que compõe, em termos de conteúdo, essa plataforma que a gente vai construindo.” Isso porque, no ponto de vista dele, o metadesign é fazer um projeto de um projeto que dê espaço para outras pessoas o comentarem, assim como a possibilidade de ir tirando o poder dele da mão da equipe original.
“E, por fim, ainda nessa toada de tirar um pouco o poder, digamos assim, do projeto da mão unicamente da equipe, a gente tem, talvez em um futuro próximo ou distante, a possibilidade de outros grupos de pesquisa se inspirarem no Arquigrafia ou pegarem parte do código dele ou da forma como a plataforma funciona e construírem suas próprias ‘grafias’, outras plataformas semelhantes ao Arquigrafia só que de outros temas”, ele finaliza.
Aprendizados, desafios e perspectivas
Na opinião de Artur Rozestraten, coordenador do Arquigrafia e professor da FAU, o metadesign vem se somar às várias outras experiências e frentes nas quais a equipe tem atuado e tem tentado construir conhecimento. “Me parece que há uma grande contribuição na medida em que o metadesign reforça, dentro da equipe do Arquigrafia, o sentido de atenção aos procedimentos metodológicos, aos nossos fazeres e as conexões entre fazeres e conceituação teórica, como o campo experimental se relaciona com esse campo de produção de reflexões de caráter mais universal e abstrato.”

.
Quais são os aprendizados e os desafios de inserir o metadesign no Arquigrafia? Segundo Ana Carolina Ribeiro, “a gente tem cada vez mais compreendido como engajar as pessoas, como organizar esses eventos, o que faz sentido ou não, como a gente deixa eles mais acessíveis ou não, quais artefatos comunicacionais fazem sentido para as pessoas e quais não fazem”.
Ainda de acordo com ela, “esses têm sido os maiores aprendizados justamente porque eles se conectam com os nossos maiores desafios, que são relacionados ao engajamento porque, hoje em dia, o que falta é tempo para quase todo mundo, a gente disputa por atenção e por tempo das pessoas com ‘n’ outras coisas”.
Sobre as perspectivas do metadesign no desenvolvimento da plataforma colaborativa, Ribeiro afirma que, por esse método se propor iterativo, isso quer dizer que ele é um processo cíclico. “A gente tem esse movimento dentro do Arquigrafia: propõe uma ação, reflete como ela foi e pensa na próxima.” Portanto, neste momento, a equipe se concentra nas sessões de codesign para após a avaliação delas propor a próxima etapa de trabalho.
Para acompanhar as atividades promovidas pela equipe do Arquigrafia, acesse o Instagram neste link.
.
* Bolsista JC-IV junto ao Projeto Temático Fapesp Experiência Arquigrafia 4.0 e pesquisadora colaboradora da FAU























