Em 2025, mais de 11 mil estudantes ingressam na USP, em uma ampla variedade de cursos de graduação. A chegada a um novo ambiente acadêmico pode ser desafiadora em muitos aspectos, especialmente para aqueles que pertencem a grupos historicamente marginalizados e, como Pierre Bourdieu nos lembra, não possuem os capitais culturais e simbólicos frequentemente exigidos no espaço universitário.
Embora a Universidade ainda não tenha alcançado um cenário ideal, é importante reconhecer que, nos últimos anos, a implementação de políticas de ação afirmativa tem contribuído para aumentar o número de estudantes oriundos de escolas públicas, em sua maioria, pessoas pretas, pardas e indígenas. Essa mudança tem feito com que o corpo discente da USP se torne mais diverso, refletindo de maneira mais fiel a composição sociorracial do Brasil.
É significativo que a USP, atendendo a reivindicações históricas de movimentos sociais internos e externos à Universidade, esteja paulatinamente reelaborando políticas de acesso e permanência. Nesse contexto, é louvável que a campanha de recepção às(aos) novas(os) ingressantes de 2025 tenha como tema central o pertencimento, expresso no lema “Sou USP”.
Desenvolvida por estudantes da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), a campanha permite compreender que, na Universidade, o ensino, a pesquisa e a extensão se realizam de modo entrecruzado, e convida as/os estudantes a sentirem-se pertencentes ao espaço que conquistaram. Em uma das peças, pode-se ler: “Onde estudo, o acolhimento faz parte da nossa essência”, acompanhada da imagem de uma mão negra se unindo a uma mão branca, simbolizando um gesto de aliança.
Ainda no mesmo cartaz, temos a seguinte inscrição: “Você já notou como a inclusão é uma prioridade na USP? Essa abordagem fortalece o pertencimento e o acolhimento, criando um espaço onde todos os estudantes podem se sentir parte integrante da comunidade USP”. No entanto, muitos estudantes ainda relatam dificuldades em permanecer na Universidade por não se reconhecerem como pertencentes à instituição.
Assim, fazer com que uma comunidade acadêmica seja acolhedora de modo que os diferentes sujeitos se sintam pertencentes, exige que a instituição se sensibilize e transforme a sua dinâmica cultural. Esse processo envolve o reconhecimento e a valorização dos espaços que representam diferentes formas de estar e pertencer à universidade, como os coletivos artísticos e culturais, esportivos, científicos e de formação política.
Um exemplo de espaço que cumpre esse papel é o Núcleo de Extensão e Cultura em Artes Afro-Brasileiras (NECAAB) da USP. Vinculado à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), o NECAAB está localizado na Travessa do Labirinto, no bloco 28, e, ao longo dos seus 28 anos de existência, se consolidou como um espaço de referência na difusão do patrimônio cultural afro-brasileiro na Universidade, oferecendo aulas de capoeira, percussão e danças afro-brasileiras, além de proporcionar vivências com mestras e mestres dos saberes afro-brasileiros do Recôncavo Baiano, contanto com a atuação decisiva de Luiz Antonio Nascimento Cardoso, mais conhecido como Mestre Pinguim.
Além do NECAAB, a USP também conta com a Casa de Culturas Indígenas, localizada no Instituto de Psicologia, que faz referência a uma Casa de Reza Mbyá Guarani, ou Opy, como é chamada na língua originária. A Casa é um ponto de referência na realização de vivências e atividades culturais com as culturas e conhecimentos indígenas, sendo também um local de acolhimento para estudantes indígenas, tanto da USP quanto de outras instituições. Construída em 2017, a Casa é fruto de um longo processo de amadurecimento dos trabalhos da Rede de Atenção à Pessoa Indígena, criada em 2012, e que hoje é institucionalmente vinculada ao IP-USP, sendo coordenada pelo professor Danilo Silva Guimarães.
Esses espaços nos lembram que existem diferentes formas de pertencer à Universidade, e que a valorização de diferentes dinâmicas e expressões culturais enriquece o ambiente acadêmico, proporcionando uma formação mais completa e plural.
Se, por um lado, garantir que todas as pessoas se sintam efetivamente integrantes da comunidade acadêmica ainda é um desafio a ser superado — o que exige o reconhecimento de que um espaço plural e culturalmente diverso é essencial para a missão universitária —, por outro, é preciso reconhecer que muitas possibilidades já existem na USP, cabendo à comunidade universitária fortalecê-las para ampliar as múltiplas formas de “ser USP”.
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