

“O local, o regional e o global estão conectados em escala a relações simbióticas e de apoio mútuo.” Daniel Christian Wahl
Em um mundo marcado por policrises – das mudanças climáticas às revoluções tecnológicas, dos desafios da saúde mental aos impactos sociais do pós-pandemia –, repensar o cuidado se torna uma urgência.
Um aspecto que evidencia essa urgência está relacionado à saúde mental; conforme os dados do Ministério da Previdência Social, no Brasil houve o aumento de 68% nos afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2024 em relação ao ano anterior. Isso reforça a importância da inclusão do burnout na lista de doenças ocupacionais pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a adoção de medidas preventivas de cuidado com a saúde mental no ambiente de trabalho.
A pesquisa Cidades Afetivas, do local para o global: aplicação e elaboração de métricas para mensuração de indicadores de Cidades Afetivas na Prefeitura do Campus USP da Capital (PUSP-C), conduzida pela pesquisadora colaboradora Vivian Ap. Blaso Souza Soares César, com a supervisão do professor Pedro Roberto Jacobi no Instituto de Estudos Avançados da USP, a partir de um olhar regenerativo para a Universidade, articula afetividade, convivialidade e sustentabilidade com abordagem sistêmica e propõe uma perspectiva integrativa ao considerar o campus como um organismo vivo onde são tecidas redes de afeto e convivências.
A questão norteadora da pesquisa está centrada em: Como construir territórios capazes de sustentar a vida e possibilitar a regeneração a partir da afetividade?
O ponto de partida da pesquisa foi a compreensão das dinâmicas constituídas no território local – Campus USP Capital – em diálogo com a tríade conceitual do Cidades Afetivas; Bem-Viver, Convivialismo e Vida em Comum. A tríade conceitual direciona a construção de territórios mais humanizados, inclusivos e sustentáveis e generosos e está em diálogo com teorias contemporâneas como o Design Regenerativo, de Daniel Christian Wahl, e a Economia Donut, de Kate Raworth.
O cuidado como eixo estruturante da cidade
A noção de Cidades Afetivas surge como uma resposta à fragmentação urbana e à perda de laços comunitários. Mais do que uma proposta conceitual, trata-se de um compromisso com a construção de espaços onde o bem-viver, a convivialidade e a vida em comum sejam valores estruturantes. A partir da revisão de literatura em relação a métricas e indicadores existentes ligados à sustentabilidade, a pesquisa identificou quatro dimensões fundamentais para a promoção da afetividade no território:
• Relações de Afetividade e Convivialidade para fomentar laços sociais, acolhimento e pertencimento.
• Saúde e Bem-Estar para promover qualidade de vida e equilíbrio entre corpo, mente e ambiente.
• Engajamento e Sustentabilidade para incentivar a participação cidadã e práticas regenerativas.
• Dimensão Cultural e Ambiental para resgatar identidades territoriais e fortalecer a conexão entre os indivíduos e a natureza.
A metodologia contou com a condução de grupos focais com professores, pesquisadores e funcionários da USP, além de um levantamento com estudantes de graduação da geração Z através de formulário GoogleForms para validação do conjunto de crenças e valores percebidos pelos grupos.
Principais achados da pesquisa: desafios e caminhos possíveis
O estudo destacou aspectos que impactam a afetividade no campus USP, como a falta de espaços para encontros informais, o distanciamento entre administração e comunidade acadêmica e o predomínio de relações individualizadas, que se tornaram um obstáculo à construção de vínculos. Os professores, pesquisadores e funcionários mencionaram a necessidade de criar cafés e ambientes acolhedores que favoreçam interações espontâneas. Já no levantamento com os alunos, 52,3% dos respondentes afirmaram que raramente ou nunca utilizam os espaços culturais do campus, enquanto 71,6% relataram não frequentar equipamentos esportivos.
O individualismo e isolamento são aspectos apontados como resultantes do modelo acadêmico atual que incentiva a competitividade, a especialização e desempenho, dificultando a colaboração entre diferentes áreas do conhecimento. O grupo de pesquisadores destaca a fragmentação dos departamentos como um fator de distanciamento, enquanto professores destacam a crescente impessoalidade no ensino universitário. Já entre os estudantes, 33% classificaram sua socialização com colegas como baixa, revelando um distanciamento que se reflete no cotidiano do campus.
Outro aspecto que está ligado à percepção dos entrevistados no que impacta na afetividade é a falta de confiança na administração universitária. Os funcionários relataram um distanciamento da gestão da USP, apontando a ausência de iniciativas claras para incentivar um ambiente mais colaborativo. Na visão dos alunos respondentes do questionário, 52,3% disseram confiar apenas moderadamente na administração do campus.
Estes resultados evidenciam um cenário de isolamento crescente, desde o pós-pandemia, intensificado pelos processos de digitalização, além do enfraquecimento das relações interpessoais e carência de espaços de convivência, o que reforça a necessidade urgente de repensar uma governança mais afetiva para o campus a partir de uma lógica interdisciplinar e colaborativa.
Após estes resultados também foi elaborado um conjunto de indicadores individuais e institucionais que poderão ser aplicados como ferramenta de governança afetiva no campus para ampliar e monitorar estes aspectos posteriormente.
Rumo a um modelo regenerativo de universidade e cidade
Os resultados da pesquisa não se limitam ao contexto universitário – eles trazem reflexões essenciais para as cidades contemporâneas. A experiência da Economia Donut em Amsterdã, que adotou modelo Donut como diretriz para o desenvolvimento urbano, demonstra que é possível conciliar bem-estar social e limites ecológicos, garantindo um equilíbrio que não compromete a qualidade de vida.
Esse exemplo evidencia que universidades como a USP podem assumir um papel estratégico de protagonista na cocriação de novos paradigmas urbanos, atuando como espaços de experimentação e aprimoramento de práticas regenerativas que integrem ciência, sociedade e políticas públicas.
O desafio, entretanto, exige uma mudança de cultura e percepção. Como propõe Daniel Wahl, no livro Design de culturas regenerativas, “Somos todos designers! Todos cocriamos o mundo que vivemos através de nossas relações e de nossos comportamentos como membros de uma comunidade”. E essa transformação implica reconhecer que não há sustentabilidade sem afetividade, pertencimento e conexão com o território.
O desenvolvimento de cidades regenerativas não pode se restringir à mensuração de indicadores técnicos e de eficiência – é necessário ampliar o olhar para a qualidade das relações, a profundidade dos vínculos e a capacidade de um território de promover encontros significativos e práticas de cuidado.
A pesquisa Cidades Afetivas… avança nessa direção ao propor métricas e indicadores para a mensuração da afetividade no território, compreendendo que não há regeneração sem relações saudáveis, sem redes de apoio e sem espaços que favoreçam a troca e o bem-viver. Como Wahl afirma em sua obra, “o futuro é um processo colaborativo e participativo” – e, nesse sentido, a USP pode se tornar um espaço-laboratório onde novas formas de convivência e sustentabilidade sejam experimentadas, ampliando sua influência para além dos muros da Universidade e servindo de referência para a construção de cidades mais afetivas, resilientes e regenerativas.
Como espaço de convivência, o Campus da USP deve servir ao bem-viver, à realização do desenvolvimento individual no interior do desenvolvimento coletivo, pautada por uma relação ecologizada entre homem e natureza, como apontado por Edgar Morin em A via para o futuro da humanidade.
Ao resgatar a potência do verbo cuidar, não apenas como ação individual, mas como princípio estruturante do planejamento territorial, abre-se um caminho para a reinvenção do futuro.
O desafio, agora, é traduzir esse conhecimento em ação e transformar a Universidade em um laboratório vivo de experimentação, onde novas formas de habitar e construir coletivamente sejam testadas, aprimoradas e compartilhadas – um espaço de referência para o mundo que queremos cocriar.
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