
“Eu sou o resultado de todos os livros que li e dos que ainda lerei. Isso constitui a minha personalidade e a minha postura diante do mundo”, afirma o jornalista Marcello Rollemberg, editor de Cultura do Jornal da USP, o mais novo membro da Academia Fluminense de Letras, fundada em 1917 em Niterói (RJ), onde está instalada até hoje. Eleito em Assembleia Geral Extraordinária no dia 13 passado, Rollemberg vai ocupar a Cadeira 6 na Classe de Ciências Sociais, cujo patrono é o editor luso-brasileiro Francisco Alves (1848-1917). Tradutor, crítico literário e autor de 17 obras – entre poesias, prosas poéticas, biografias e ensaios jornalísticos –, o jornalista considera que a eleição consagra um importante ciclo em sua vida. “Estar na Academia Fluminense de Letras, em Niterói, me enche de orgulho”, diz ele. “Eu nasci e cresci nessa cidade, onde guardo as memórias do início da minha trajetória pessoal e profissional. Niterói é vivência, é algo meu.”

O professor universitário, editor e livreiro Aníbal Bragança era o membro ocupante da Cadeira 6 da Classe de Ciências Sociais até 2022, ano em que morreu. Amigo de longa data de Bragança, Rollemberg prestou sua candidatura à vaga na Academia como forma de homenagem ao profissional. “Estar nessa posição era um desejo para coroar minha vida literária, mas principalmente para ocupar a cadeira de um grande amigo que eu admirava pessoal e intelectualmente”, conta. Segundo o jornalista, o discurso que fará em sua cerimônia de posse – prevista para o final de maio deste ano – contará com tributos a Bragança e a Francisco Alves. Rollemberg também pretende enaltecer suas raízes niteroienses, que impulsionaram sua carreira.
Trajetória profissional
As jornadas literária e jornalística de Marcello Rollemberg se entrelaçam: ainda jovem, aos 20 anos, ele publicou seu primeiro livro, Ao Pé do Ouvido (1981), com poesias autorais. Enquanto traçava seus primeiros passos na literatura, também cursava Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), onde se formou em 1985. Sua segunda publicação, Coração Guerrilheiro (Scortecci, 1983), também é uma coletânea de poesias. Sobre o lançamento da obra, o jornalista comenta: “Ela foi lançada na Livraria Pasárgada, em Niterói, fundada pelo próprio Aníbal Bragança. Foi lá que nos conhecemos e formamos nossa amizade. Sempre digo que aprendi a ler no colégio, mas aprendi o que ler na Pasárgada”.
Em 1984, aos 23 anos, Rollemberg ingressou no jornal O Globo, o que alavancou sua carreira jornalística. Também foi repórter do Jornal do Brasil – onde conquistou o Prêmio Esso de Jornalismo por reportagem em equipe, em 1987 – e atuou como editor nas revistas Veja e Quatro Rodas e nos jornais Folha da Tarde e Folha de S.Paulo. Desde 1994, Rollemberg compõe a redação do Jornal da USP, onde atuou como diretor técnico de Divisão de Mídias Impressas e diretor de redação do Jornal da USP e da Revista USP. De volta ao meio acadêmico, fez mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Durante quase 20 anos, foi professor do curso de Comunicação Social do Centro Universitário Fieo (Unifieo), em Osasco (SP).

Ao lado da atividade jornalística, Rollemberg seguiu com sua produção literária. Em 1997, lançou Encontros Necessários (Ateliê Editorial, 1997), seu primeiro livro de prosa poética. Como tradutor, organizou uma biografia epistolar de Oscar Wilde em Sempre Seu, Oscar (Iluminuras, 2001), com cartas do escritor nunca antes publicadas no Brasil. A obra concorreu ao Prêmio Jabuti na categoria Melhor Tradução em 2002. O jornalista também é responsável pela tradução de nove crônicas jornalísticas do escritor inglês Charles Dickens, reunidas em Retratos Londrinos (Record, 2003). A obra foi finalista do Jabuti em 2004.
“Eu sempre quis contribuir, de alguma forma, para a cultura brasileira. Nos meus livros, tento agregar minhas experiências como jornalista e como escritor”
Marcello Rollemberg
Escritos autorais de Rollemberg também se encontram em seu livro Papel-Jornal: Artigos de Jornalismo Cultural (Ateliê Editorial, 2000), no qual propõe uma conversa com o público por meio de ensaios e artigos produzidos para diversos veículos jornalísticos. Como todo escritor tem suas referências e inspirações literárias, o jornalista destaca variados autores que servem de modelo para sua produção: “Desde Miguel de Cervantes, Júlio Cortázar, Charles Bukowski e os beatniks até Antonio Candido, Guimarães Rosa e Clarice Lispector, sempre gostei de livros que mexem comigo e me instigam a pensar e a escrever”.
Próxima produção
Rollemberg prepara mais um livro, previsto para ser lançado neste ano. Com o título Livros: Modos de Usar, a obra vai reunir textos jornalísticos e relatos de experiências da carreira profissional do jornalista, como entrevistas feitas com o crítico literário Antonio Candido (1918-2017) e um encontro com o escritor português José Saramago (1922-2010). “O livro é também uma homenagem a um autor francês de que eu gosto muito, George Perec, que escreveu A Vida Modo de Usar”, comenta. Para ele, lançar a obra após a eleição para a Academia Fluminense de Letras é um ato simbólico: “É uma feliz coincidência, já que o livro está pronto há tempos e o retomei agora. Nas dedicatórias, inclusive, mencionei Aníbal Bragança, antes mesmo de saber que ocuparia sua cadeira. É um ciclo que se fecha para poderem se abrir outros”.
* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro

























