
A imigração alemã no Brasil – iniciada no dia 25 de julho de 1824, quando os primeiros colonos germânicos se estabeleceram no Sul do País e fundaram a comunidade de São Leopoldo – é marcada pelo protagonismo de mulheres. Sob condições difíceis, elas contribuíram para a consolidação das colônias não só fazendo o trabalho doméstico e educando os filhos, mas também lavrando a terra, cuidando dos animais e produzindo alimentos. Mais do que isso, ao longo dos últimos 200 anos mulheres de língua alemã no Brasil se destacaram nas artes, na ciência e na educação.

Essa história está registrada no livro Esperança e Saudade – História das Mulheres Imigrantes de Língua Alemã no Brasil, que será lançado nesta quinta-feira, dia 13, às 16 horas, no Centro de Difusão Internacional da USP, na Cidade Universitária, em São Paulo. Com 316 páginas, em edição bilíngue (português-alemão), o livro traz 11 artigos de autoras e autores ligados a diferentes instituições, entre elas a USP, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e a Universidade de Denver, nos Estados Unidos. A obra é publicada pelo Instituto Martius-Staden, de São Paulo, com organização de Daniela Rothfuss, gestora cultural daquele instituto. “Este livro ilumina a história das imigrantes alemãs no Brasil, que, por tanto tempo, ficou injustamente na sombra”, escreve a embaixadora da República Federal da Alemanha no Brasil, Bettina Cadenbach, no prefácio do livro, que é ilustrado também com fotos da época da colonização. “Ele é uma homenagem às corajosas e resolutas mulheres que, há 200 anos, adentraram o Novo Mundo para ajudar na construção de uma jovem nação na qual tiveram que conquistar seu lugar.”
A importância das mulheres se verifica já na decisão de uma família de deixar sua terra natal e partir para um outro país. No início do século 19, nas regiões europeias de língua alemã, os agentes brasileiros de emigração e sua propaganda de convencimento enfrentavam como principal obstáculo as mulheres, como informa o artigo O Protagonismo das Mulheres na Colônia Alemã de São Leopoldo, escrito pelas professoras Marlise Regina Meyrer, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul, e Rosane Marcia Neumann, da UFRGS, o primeiro dos 11 ensaios publicados em Esperança e Saudade. “Segundo os agenciadores, havia a necessidade de ‘convencer a mulher a emigrar’, pois essa decisão dependia em primeira instância dela, uma vez que a mulher, mais apegada à família e à Heimat (pátria), sentia saudade de tudo e de todos”, escrevem as autoras. Sem a presença da mulher, a probabilidade de fracasso do projeto de emigração era elevada, resultando no retorno do emigrante ao seu local de origem. “Por essa razão, e/imigrantes solteiros não eram bem-vindos nas colônias, visto que o homem sozinho não sobrevive muito tempo na floresta, entregando-se rapidamente à bebida e ao desânimo, descuidando do trabalho.”

As dificuldades que poderiam levar ao fracasso dos colonos foram descritas no livro Die Frau des Auswanderers (“A Mulher do Emigrante”), escrito por Emilie Heinrichs, que emigrou para o Sul do Brasil com o marido em 1901 – tema de outro artigo publicado em Esperança e Saudade, assinado pela professora Karen Macknow Lisboa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Publicado na Alemanha em 1921, o livro é uma narrativa autobiográfica da autora. “É um livro de apelo, de conscientização das desvantagens da emigração para a ‘colônia’, sob o prisma feminino”, escreve Karen.
Ao elaborar essa narrativa, Emilie Heinrichs revela o árduo trabalho que constituía o cotidiano dos colonos. “Emilie relata com muitos detalhes como vivem precariamente em seu primeiro abrigo, como enfrentam as intempéries e as ameaças de insetos e animais, como improvisam cama, mesa, armários, cozinha e como vão, por meio de extrema labuta, dominando a selvageria da natureza”, destaca Karen no artigo. “Sua rotina se dividia entre as costumeiras tarefas do lar – sobretudo o preparo das refeições – e a ajuda no trabalho na roça de milho, batata e feijão, bem como na horta, no pequeno pomar, no beneficiamento das colheitas e, mais tarde, no manuseio dos animais. Às vicissitudes climáticas (calor, chuvas torrenciais, tormentas, frio) e à constante ameaça do mundo natural (insetos, pragas) somava-se o trabalho físico cotidiano.” Emilie e o marido voltaram para a Alemanha quatro anos depois de chegarem ao Brasil, após ele sofrer uma febre tifoide e ficar dois meses de cama, sem poder trabalhar.

Literatura, ciência e educação
Ao longo dos séculos 19 e 20, os grupos de colonos instalados no Sul do Brasil a partir de 1824 se transformaram numa comunidade que deu importantes contribuições para as artes, as ciências e a educação do País – parte delas, por iniciativa de mulheres. Tome-se como exemplo a literatura. Em Esperança e Saudade, a professora Celeste Ribeiro de Sousa, do Programa de Pós-Graduação em Língua e Literatura Alemã da FFLCH, assina um artigo em que dá informações sobre 12 escritoras de língua alemã, emigrantes ou viajantes, que escreveram obras sobre suas experiências no Brasil. Entre essas escritoras está Gertrud Gross-Hering (1879-1968), que compôs romances, narrativas curtas, poemas e peças de teatro. Neles, Gertrud discutiu o hibridismo “alemão-brasileiro” e fez a defesa da emancipação da mulher. “Aqui vêm à flor do texto a submissão feminina a normas educacionais arcaicas e o enfrentamento do patriarcalismo e do machismo, muitas vezes associado ao alcoolismo e ao jogo”, nota Celeste.
Foi também uma mulher de origem alemã, Emilie Snethlage (1868-1929), que contribuiu para a expansão da zoologia no Brasil no início do século 20, como informa o artigo assinado pela professora Sabine Reiter, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), publicado em Esperança e Saudade. Nascida na Prússia e doutora em Filosofia Natural – como a biologia era chamada na época – pela Universidade de Freiburg, Emilie chegou ao Brasil em 1905 para trabalhar no hoje chamado Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém (PA). Como assistente de zoologia, já em 1905 ela fez as primeiras viagens de pesquisa de campo, que a levaram a Santo Antonio do Prata, no interior do Pará, e à Ilha de Marajó. Realizou outras viagens para explorar o curso inferior do rio Tapajós e do rio Tocantins. “Nos anos seguintes, ela continuou com pesquisas de campo no Norte do Brasil, sempre com foco na complementação de coleções ornitológicas, expandindo suas pesquisas para outras áreas”, escreve Sabine. “Como ela se interessava por grandes rios como barreiras zoogeográficas, conseguiu mapear áreas até então não exploradas para a Sociedade de Geografia de Berlim.”


Em 1914, Emilie publicou a sua obra mais importante, o Catálogo das Aves Amazônicas, um volume com 530 páginas que registra e dá detalhes sobre as espécies de aves conhecidas na região amazônica até aquele ano. Mas a sua atividade não se restringiu a descrever as aves da Amazônia. Em 1909, ela fez observações etnográficas entre os índios Xipaya e Kuruaya, que viviam no sudoeste do Pará, e coletou listas de palavras das línguas dessas duas etnias tupis. Esse trabalho permitiu determinar com mais precisão as relações de parentesco entre essas línguas dentro da família linguística tupi. Em expedições aos rios Iriri e Caruá, no Pará, em 1914, Emilie recolheu cerca de 200 peças dos Xipaya e Kuruaya, entre joias, objetos rituais e instrumentos musicais, que foram levados para o Museu de Etnologia de Berlim, na Alemanha. “Essa coleção foi praticamente esquecida ao longo dos anos e só foi reconhecida há cerca de uma década como talvez a única coleção de etnografias desses dois grupos do início do século 20”, destaca Sabine. Em 1914, Emilie assumiu a direção do então chamado Museu Paraense de História Natural e Ethnografia – o atual Museu Paraense Emílio Goeldi -, tornando-se a primeira mulher a ser diretora de uma instituição de pesquisa no Brasil.
Outra alemã que deixou marcas em sua passagem pelo Brasil foi a educadora Ina von Binzer (1856-1929), tema de artigo também publicado em Esperança e Saudade. Assinado pelas professoras Gisela Tolaine Massetto de Aquino e Kerol Cristina Brombal Briotto, do Colégio Visconde de Porto Seguro, o artigo traz as impressões sobre o Brasil de Ina von Binzer, que viveu no País entre 1881 e 1883, contratada por famílias ricas para educar os filhos.
Nesse período, ela escreveu 40 cartas para a amiga Grete, na Alemanha. Através delas, fica-se sabendo que Ina, primeiro, foi contratada para trabalhar como educadora dos filhos dos Ramieiro, um família de fazendeiros do interior do Rio de Janeiro. “Ao longo de suas 40 cartas, Ina von Binzer relatou à amiga Grete os hábitos e comportamentos dos brasileiros, os quais, apesar de assistir calada, considerava inapropriados e tão diferentes dos germânicos”, escrevem as autoras do artigo. “Em seus relatos, há claro antagonismo entre o povo brasileiro, ‘negligente e indisciplinado’, e a majestosa natureza das paisagens tropicais do País.”
Em janeiro de 1882, Ina von Binzer deixou o Rio de Janeiro e se instalou em São Paulo, onde também trabalhou como professora. Numa carta a Grete datada de 20 de março daquele ano, ela se mostra animada por estar na capital paulista, “cidade saudável, sem malária, com ares universitários devido à presença da Faculdade de Direito e significativa comunidade alemã”, como descrevem Gisela e Kerol. Ainda assim, não deixou de registrar a desigualdade social que via ao redor de si. “Mesmo diante da decadência do sistema escravista, Ina von Binzer relatou que, em 1882, o Brasil contava com cerca de 1 milhão de escravizados, número comprovado pelo Censo de 1872, e apontou problemas de natureza econômica relativos à ocupação dos postos de trabalho após a libertação e a integração social, já que, sem qualquer tipo de especialização e sendo analfabetos, os ex-escravizados não conseguiriam trabalhar e estariam sujeitos à marginalização.” Em 1887, já de volta à Alemanha, Ina publicou suas cartas na forma de livro, sob o título Leid und Freud einer Erzieherin in Brasilien (“Sofrimento e alegria de uma educadora no Brasil”). Nesse livro – lançado no Brasil em 1956 com o título Os Meus Romanos: Alegrias e Tristezas de Uma Educadora Alemã no Brasil -, ela oferece uma visão sobre a sociedade brasileira nos últimos anos do Império, a partir dos lares da elite.

O livro Esperança e Saudade – História das Mulheres Imigrantes de Língua Alemã no Brasil, organizado por Daniela Rothfuss e publicado pelo Instituto Martius-Staden, será lançado nesta quinta-feira, dia 13, às 16 horas, no Centro Intercultural Internacional da USP, localizado no Centro de Difusão Internacional (CDI) da USP (Avenida Professor Lúcio Martins Rodrigues, 310, na Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. O livro será distribuído gratuitamente.
























