
Desde sua posse, o presidente norte-americano Donald Trump tem assinado novas leis e feito afirmações que causaram grandes impactos em aliados e no cenário geopolítico geral. Em uma de suas primeiras falas sobre a América Latina, o presidente norte-americano afirmou não precisar do Brasil, criticou o Brics, defendeu o peso da economia norte-americana sobre a dos países latino-americanos e reforçou críticas quanto às pretensões do bloco de substituir o dólar no comércio internacional. A declaração levou o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Mauro Vieira, a desmentir a ideia de criar uma moeda exclusiva para comercialização e reforçou a proposta de liquidação de contas de comércio exterior nas moedas de cada um dos países.
Para Paulo Borba Casella, docente de Direito Internacional na Faculdade de Direito (FD) da USP e pesquisador do grupo de estudos sobre o Brics da USP, o Gbrics, a atitude de Trump é imprevisível e afeta todos os países ao seu redor. “Essas ameaças de tarifas não atingem só o país cujas exportações sejam tarifadas, mas também o mercado interno americano. Isso vai causar inflação, aumento de preços no mercado interno, desabastecimento.”
Além disso, o professor dispensa a ideia de uma moeda única para o Mercosul, uma ideia que levaria mais tempo e é inviável atualmente, mas Casella reforça que a unidade de conta em transações é, sim, necessária. “Operações de compra e venda internacional, sejam escrituradas numa moeda nacional e liquidadas numa outra moeda nacional, não adianta o Trump ameaçar, porque isso já acontece”, explica o professor.

Curto-circuito
Por trás de motivações econômicas, estadistas perguntam-se sobre as motivações de Trump em suas declarações e crescente isolamento e, para o pesquisador, além da simpatia populacional, ele adverte sobre as profundas consequências que tais ações poderão ter de um ponto de vista temporário. “Isso, muito rapidamente, pode dar um curto-circuito, na medida em que repercute negativamente no mercado interno, aumentando os preços dos produtos tarifados, aumentando a inflação, que chegou a 9% ao ano e no fim do governo Biden estava entre 3,8 e 4,1 ao ano, e isso pode subir outra vez. Então tem esse risco.”
Sobre o Brasil e sua respectiva posição no Brics, o pesquisador afirma que as declarações de Trump podem ter grande impacto, com a ameaça de medidas retaliatórias norte-americanas, mas que, para ele, é necessário para o governo brasileiro manter-se tranquilo, institucional e diplomático. “Insistir no fato de que é uma relação que tem 200 anos, desde o momento em que o reconhecimento da independência do Brasil foi feito em 1824, houve várias flutuações de política, mas o governo atual tem enfatizado que se trata de uma relação objetivamente relevante, e que tem que ser cultivada além das conjunturas pessoais e dos eventuais ocupantes do cargo de presidente de um e do outro lado”, explica.
Entretanto, apesar das tensões, Casella avalia que as “declarações intensas” do norte-americano deverão continuar, mas que as nações vizinhas não possuem inclinações a ceder. “Tanto a Dinamarca quanto os groenlandeses deixaram claro que eles não têm nenhuma vontade de serem transformados em americanos, provavelmente de segunda classe, como Porto Rico e outras possessões territoriais dos Estados Unidos. (…) E os Estados Unidos tentaram assumir o controle do Canadá na Guerra de 1812, e quase desmancharam os Estados Unidos por conta dessa guerra; e eles devolveram o Canal do Panamá para o Panamá, porque achavam que funcionaria melhor assim”, finaliza o professor.
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