Não é coincidência, é método, conforme discutimos em artigo publicado no final de 2025, Violência contra jornalistas na América do Sul: Argentina e Brasil (2008 a 2024). Neste estudo, eu e as professoras Liziane Guazina (Universidade de Brasília) e Érica Batista (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, IDP, e Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais, INCT-DSI) nos debruçamos na literatura sobre o tema, bem como sobre relatórios de violência contra jornalistas na Argentina e no Brasil para entendermos como os números se comportavam ao longo dos anos. Há picos evidentes na pré-campanha de Milei à presidência, bem como no ano de eleição de Jair Bolsonaro no Brasil e anos subsequentes do seu mandato, quando alcançamos estatísticas nunca vistas. O bom resultado do Brasil no ranking da RSF neste ano deve-se em parte a não termos a maior autoridade política do país emitindo discursos estigmatizantes aos profissionais da imprensa o tempo todo, ensinando e incentivando a população a fazer o mesmo, com consequências às vezes imprevisíveis.
Observamos também que, embora a prática tenha sido sistematizada no primeiro mandato de Trump e seguida como cartilha por seus entusiastas políticos, a prática de estigmatização não está restrita a um espectro político. No governo de Nestor e Cristina Kirchner, identificados com a esquerda, jornalistas também foram ameaçados por apoiadores dos Kirchner em coberturas de protestos. O jornal Clarín, por exemplo, também foi alvo de discurso estigmatizante nessa época. O que difere da atuação de Milei é que este dirige as agressões a todos que praticam o jornalismo profissional, por mais liberais e não peronistas que os veículos e jornalistas possam ser.
Com uma tendência mundial de ser uma profissão ameaçada em vários sentidos, também pela precarização dos vínculos de trabalho formal e das condições para o exercício da profissão, como apontam as pesquisas do Centro de Pesquisa Comunicação & Trabalho (CPTC), liderado pela professora Roseli Fígaro, minha colega no Departamento de Comunicações e Artes da Escola de Comunicações e Artes (ECA), é preciso avançar na agenda acadêmica da segurança de jornalistas como campo de pesquisa. Essa segurança está sendo compreendida pela literatura recente como “segurança ocupacional”, que abrange as dimensões física, psicológica, digital e financeira (para detalhes, ver o artigo Conceptualizing Journalists’ Safety around the Globe).
A segurança psicológica é uma dimensão importante e de pouca discussão no cenário nacional. Não há disciplinas nos cursos de graduação em Jornalismo que preparem nossos futuros profissionais para lidarem com a carga de estresse que irão passar futuramente, o que, com sorte, não irá adoecê-los. Por isso, eu e Vitória Baldin, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM/ECA), iniciamos um mapeamento das pesquisas brasileiras sobre essa dimensão.
Vamos apresentar o resultado a partir do artigo Segurança de Jornalistas: saúde mental e trauma no contexto brasileiro, que será apresentado no 35º encontro anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós) em Natal, em junho. Iniciamos essa pesquisa entrevistando mulheres pioneiras nessa pesquisa. O resultado pode ser lido em um relatório publicado no final do ano passado: Liberdade de expressão em risco: como a saúde mental de jornalistas e comunicadores entra na equação?. Estes trabalhos, bem como o curso de pós-graduação Novos Paradigmas para Dimensões de Violência no Campo da Comunicação: Assédios e Ameaças aos Jornalistas e Comunicadores, a ser oferecido em formato condensado (quatro semanas), por mim e pela professora Elizabeth Saad, no segundo semestre deste ano, são frutos de um projeto que acabou em 2025, justamente financiado pelo país que é o primeiro no ranking há dez anos, a Noruega. Nestes últimos cinco anos, melhoramos nossos índices e a posição no ranking da RSF. O que nos aguarda nos próximos cinco anos?
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