
Quase todo ano na disciplina que eu ministro, História da América Contemporânea, discuto com os alunos a famosa pintura de 1871, American Progress, de John Gast. Esta é uma perfeita representação da doutrina de Destino Manifesto nos Estados Unidos do século 19, da inevitabilidade da expansão europeia com todos os seus valores econômicos, sociais e culturais “superiores”, dominando as terras indígenas e seus valores “inferiores” no oeste do país.
O quadro oferece uma ótima oportunidade para explorar a representação artística da economia política e da ideologia do país em crescimento e que logo depois seria o maior poder econômico e político do mundo.
Como muitos historiadores dos Estados Unidos, fiquei somente um pouco surpreendido, quando, no dia 23 de julho de 2025, o Departamento de Segurança Interna publicou na rede social X essa mesma pintura com a seguinte legenda: “Um patrimônio para se orgulhar, uma pátria que vale a pena defender”. O retrato da conquista brutal que envolveu o genocídio dos povos indígenas não era mais uma oportunidade para explorar criticamente a história de exploração e opressão, mas uma marca de orgulho nacional.
Fiquei só um pouco surpreendido, porque, mesmo antes da posse do presidente Trump em janeiro de 2025, tem havido uma verdadeira guerra contra a historiografia crítica no país. A Teoria Crítica da Raça, desenvolvida nos últimos 30 anos por estudiosos negros para analisar a história e a atualidade do racismo estrutural, já tinha sofrido ataques por governos estaduais, resultando em mudanças nos curriculos de universidades e escolas públicas e em uma censura aberta de livros e artigos sobre o assunto.
Sob o novo governo Trump, essa guerra contra estudos críticos em todas as áreas de conhecimento humano se acelerou.
A administração de Trump tem apagado a história negra, latina e indígena de muitos sites oficiais do governo federal bem como de museus e parques nacionais. Nos sites oficiais das Forças Armadas, por exemplo, matérias exaltando a contribuição de soldados negros, latinos e indigenas foram excluídas. Estátuas de proeminentes escravistas que foram removidas de parques e prédios públicos foram remontadas e pelo menos nove bases militares com nomes de “heróis” da Confederação pró-escravista na Guerra Civil que haviam sido alterados nas últimas décadas receberam de volta seus nomes originais.
Até instituições com certo nível de autonomia e independência têm praticado uma autocensura, a exemplo do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, que removeu exibições e matérias no seu site oficial que ligavam o racismo que resultou no Holocausto ao sistema histórico de discriminação racial nos Estados Unidos.
Essas ações vão além de atos simbólicos. Universidades públicas e privadas sofreram cortes massivos de orçamento do governo federal por ensinarem história crítica e dezenas de professores universitários no país foram demitidos nos últimos meses por fazerem críticas ao genocídio em curso na Palestina ou por criticarem políticas do governo Trump. Universidades no país inteiro estão abolindo não só cursos, mas departamentos inteiros dedicados aos estudos críticos nas áreas de história, sociologia e relações raciais.
É bastante evidente que estamos assistindo ao que o historiador francês Pierre Vidal-Naquet classificou, em relação ao negacionismo do Holocausto, de “assassinato da mémoria”. É nosso dever resistir a esses ataques e defender a expressão livre e democrática nas universidades e na sociedade como um todo.
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