
Blog
O que a universidade tem a aprender com povos indígenas e quilombolas?
Professores defendem a interdisciplinaridade e o abandono do eurocentrismo como necessários para um currículo que valorize a diversidade de culturas nacionais e ancestrais
Para combater o silenciamento e a marginalização de epistemologias não ocidentais são necessárias mudanças estruturais – Foto: Beto Monteiro/Secom UnB/Wikimédia
Os saberes das comunidades indígenas e quilombolas carregam uma riqueza cultural e epistemológica capazes de transformar o ensino superior brasileiro. Apesar de sua relevância, continuam frequentemente marginalizados em currículos marcados pela hegemonia de saberes eurocêntricos. Hoje o desafio é abrir espaço para que esses povos se tornem protagonistas na universidade. Quem começa explicando é a professora Mille Fernandes, da Faculdade de Educação da USP.
A professora começa contextualizando o atual período histórico – a modernidade ocidental –, em que há a manutenção da Europa como centro das discussões e do conhecimento do mundo: “Acabou se criando marcadores de civilização, com ideias a partir da concepção de raça, de língua, costumes, religião, gênero, entre outros fatores que legitimam e ainda continuam legitimando outros povos como atrasados, como primitivos, como selvagens, como exóticos, como estranhos”. Assim, essa colonialidade se mantém viva a partir do controle do saber, do que pode ou não pode ser ensinado nas escolas, de como deve ser ensinado. Segundo Mille, o currículo oficial de ensino é um artefato sociocultural de poder.
Mille Fernandes - Foto: Lattes
Nesse sentido, para combater o silenciamento e a marginalização de epistemologias não ocidentais são necessárias mudanças estruturais. Para a professora, a transformação se dá por meio de mudanças pedagógicas e curriculares, e principalmente pelo diálogo, com a inclusão das comunidades originárias no contexto universitário. “Esses corpos não foram pensados como corpos possíveis de produção de conhecimento. Há ainda uma luta que o movimento negro, quilombola, os movimentos indígenas empreendem para que essas experiências, esses saberes consigam atravessar de fato e de forma positiva os espaços de saberes, a universidade, as escolas.”
Mille aponta também a necessidade desse processo no ensino básico e médio, com a inclusão de cosmopercepções indígenas e quilombolas nas licenciaturas – para a formação de professores preparados para a transmissão desse conhecimento – e diretamente nas realidades escolares: “Esses professores vão concluir suas formações e vão retornar para a educação pública. Dentro do contexto da escola, eles vão pegar uma diversidade muito grande: crianças negras, indígenas, de religiões de matriz africana, então é importante que essas discussões já façam parte da formação desses professores, dessas professoras que estão nos cursos de licenciatura”.
Para exemplificar aspectos importantes das culturas originárias e tradicionais a serem ensinados, ela traz a profunda conexão com o meio ambiente e a diferente forma como essas comunidades encaram a relação homem-natureza. Num contexto de avanço das discussões sobre educação e preservação ambiental, a professora aponta que essas populações conseguem viver o tempo inteiro essa ancestralidade, potência de vida e valorização do que é o meio ambiente: “Porque não é somente uma árvore, não é somente um rio, é um ancestral vivo”. Contudo, ela vai além e aponta a necessidade de inclusão dessas perspectivas não apenas nas ciências humanas, mas de maneira interdisciplinar. Assim, o debate sobre legislação educacional entra em pauta, com enfoque na Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. Para Mille, embora a lei preveja um foco nas ciências humanas, sua aplicação deve ser efetivada em todas as disciplinas do currículo escolar. “Isso pode ser feito por meio de exemplos históricos, estudos de caso ou análises de práticas científicas que têm raízes ou influências tanto africanas quanto afrodiaspóricas e indígenas. Há uma necessidade de uma revisão crítica de conteúdos”, afirma.
Eurocentrismo está enraizado
O professor Gilson Schwartz, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, lembra que o eurocentrismo está enraizado na própria concepção de universidade. Ele lembra que a própria USP surge a partir de uma missão francesa, o que leva à influência desse pensamento a estar ainda presente na Universidade: “A própria concepção de universidade, a palavra universidade, ela está muito próxima de universalidade. E todo o saber, o saber científico, a evolução da tecnologia e da técnica, de fato depende dessa ideia fundamental que é a universalidade”. Ele destaca que, apesar da importância desse horizonte universal, é preciso reconhecer que o conhecimento é sempre produzido dentro de relações de poder e contextos políticos: “Há no interior dos processos de busca, de verdade ou de construção de instituições universais, relações de poder, de dominação, que não são evidentemente inócuas ou neutras ou sem efeito. Ao contrário, têm muito efeito. Especialmente na área de humanidades, a produção teórica, mas também a realização de projetos educacionais e pedagogias que questionam a própria maneira de acessar o conhecimento, valorizando práticas de aprendizagem, práticas de transmissão das tradições que valorizam esse ancestral que nem sempre é universal”.
Para Schwartz, o desafio é integrar radicalmente a interdisciplinaridade, sem abrir mão da ciência: “Não é preciso abrir mão da ciência para reconhecer que existem inúmeras possibilidades de recortes e de abordagens. O reconhecimento da complexidade dos problemas praticamente torna inviável que você busque soluções, teorias, modelos que sejam fruto de uma única disciplina”. Ele acrescenta que a diversidade precisa vir acompanhada da valorização da prática e do extensionismo. Para o professor, é necessário entrar em contato com a realidade fora da universidade, além dos muros, e ali construir conhecimento científico.
Gilson Schwartz - Foto: Arquivo pessoal
Outro ponto crucial é compreender que “verdade” não é sinônimo de consenso absoluto: “É possível, sim, fazer ciência levando em consideração que nem todo mundo vai concordar com aquilo que a gente considera naquele momento histórico como verdadeiro. Muitos dos problemas que a gente quer resolver com ciência e tecnologia são também, antes de tudo, políticos ou estão no contexto de uma economia política, de uma geopolítica”. Schwartz exemplifica essa perspectiva com o Quilombo Inteligente, projeto realizado em parceria com o Instituto de Estudos Avançados da USP: “Nós não estamos descendo de helicóptero para depositar ali algum tipo de conhecimento de tecnologia. Nós estamos interagindo com realidades sociais e políticas, inclusive tradições de pensamento e religiosas que precisam ser respeitadas e participar de um diálogo”. Schwartz conclui com a reflexão: “O futuro é ancestral. Será que a boa tecnologia não é aquela que exige uma reflexão mais profunda sobre a identidade de todos nós, como indivíduos, como coletivos, como sociedade? Nem a tradição sobrevive sem alguma tecnologia. Nem a tecnologia tem valor sem referência a alguma identidade, alguma tradição, alguma ancestralidade”.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo
**Estagiário sob orientação de Moisés Dorado
Jornal da USP no Ar
Jornal da USP no Ar no ar veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 12h40, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular.
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.























