Jovens LGBTQIAPN+ começam mais cedo nas drogas; estigma pode contribuir

Resultados de pesquisa sugerem influência de fatores sociais e estruturais para consumo mais frequente e precoce, especialmente em mulheres bissexuais

 Publicado: 30/04/2026 às 7:36

Texto: Redação*

Arte: Daniela Gonçalves**

Jovem sentado em um gramado, usando blusa de capuz que encobre o rosto, segurando uma seringa de injeção perto do braço

Experiências de preconceito, rejeição e isolamento social aumentam sofrimento psicológico, reduzem busca por redes de apoio e serviços de saúde mental, podendo levar ao uso de drogas como “forma de enfrentamento” entre jovens LGBTQIAPN+ – Foto: Wikimedia Commons

Jovens brasileiros integrantes da comunidade LGBTQIAPN+ apresentam maiores taxas de uso de substâncias psicoativas, bem como iniciam o consumo mais cedo de álcool, tabaco, cannabis e cocaína em comparação com cisgêneros heterossexuais, em especial nos casos de mulheres bissexuais. Um artigo científico publicado no periódico International Review of Psychiatry apresenta os resultados, parte do doutorado do psiquiatra e cientista Caio Petrus Monteiro Figueiredo na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

O pesquisador avaliou dados de 1.492 jovens, entre 9 e 21 anos, das cidades de São Paulo e Porto Alegre. O grupo faz parte da Brazilian High Risk Cohort (BHRC) – Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais – um dos mais importantes estudos do mundo sobre neurodesenvolvimento, que investiga as origens genéticas e ambientais dos transtornos. Também chamado Conexão Mentes do Futuro, o projeto faz parte do CISM, o Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental. O orientador do doutorado, que teve bolsa do CISM, é o também psiquiatra Arthur Caye, gerente de pesquisa do centro.

Os participantes responderam a questionários sobre orientação sexual, identidade de gênero e uso de quatro substâncias psicoativas – álcool, tabaco, cannabis e cocaína. As análises estatísticas compararam as respostas de jovens LGBTQIAPN+ e cisgêneros heterossexuais, considerando fatores como idade, sexo ao nascimento, cor de pele e classe socioeconômica. Do total de participantes, 247 se identificaram como LGBTQIAPN+.

Homem de óculos e bigode, usando blazer azul e camiseta branca, segura o certificado de um congresso científico ao lado do pôster que descreve a pesquisa apresentada no evento
Caio Petrus Monteiro Figueiredo – Foto: Arquivo pessoal
 

Além disso, também foram aplicados testes de regressão logística e análises de sobrevivência para estimar prevalência e idade de início do uso de substâncias. A regressão logística é uma técnica estatística que avalia relações entre uma e mais variáveis, servindo para estimar a probabilidade de um evento ocorrer. Já as análises de sobrevivência são um conjunto de métodos estatísticos que os cientistas usam em estudos epidemiológicos e clínicos para avaliar o tempo até o determinado acontecimento.

Consumo de drogas

O estudo apontou maiores taxas de consumo por jovens LGBTQIAPN+ para os quatro tipos de substâncias. Um total de 48% dos membros da comunidade usam tabaco – contra 37% dos cis-heterossexuais; 40% deles consomem cannabis – versus 27% entre os demais; e 7,4% cocaína, contra 3,6%. Apenas o consumo de álcool foi semelhante entre os grupos: 85,9% para o primeiro e 83,7% para o segundo. As análises também revelaram diferenças significativas em relação ao sexo de nascimento. Além de relatarem maior uso de tabaco, cannabis e cocaína, pessoas designadas como mulheres ao nascer iniciaram o consumo dessas substâncias mais cedo, em média, entre 10 e 15 anos de idade. Já as mulheres heterossexuais iniciaram com 13 a 17 anos.

O recorte relacionado à orientação sexual mostrou que as maiores taxas de uso foram entre as mulheres bissexuais. Do total delas, 77,9% usam álcool; 26,3% tabaco; 56% cannabis e 9,2% cocaína. Sobre a cor da pele, o estudo separou entre autodeclaração “branca” e “não branca” dada pelos pais dos participantes, mas não encontrou diferenças significativas – o mesmo aconteceu em relação ao status socioeconômico dos participantes.

Em resumo, a investigação científica aponta que jovens LGBTQIAPN+, em especial mulheres bissexuais, enfrentam risco ampliado de uso precoce e maior de substâncias. Para os pesquisadores envolvidos no estudo, os resultados sugerem a influência de fatores sociais e estruturais, como discriminação, estigma e exclusão social para o consumo mais frequente e precoce de substâncias psicoativas entre esses jovens.

“Experiências de preconceito, rejeição e isolamento social aumentam o sofrimento psicológico, reduzem a busca por redes de apoio e serviços de saúde mental e podem acabar levando ao uso de drogas como ‘forma de enfrentamento’ entre jovens LGBTQIAPN+”, aponta Caio Figueiredo. O doutorando atua como psiquiatra assistente no Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP, supervisionando residentes da Enfermaria de Comportamento Impulsivo (Ecim). Para o pesquisador, diante dos achados do estudo, é recomendável que haja a implementação de estratégias de prevenção focadas no gênero e na diversidade sexual dos jovens brasileiros. “Ações devem ser integradas a programas escolares e comunitários, além de intervenções digitais que alcancem adolescentes em contextos de vulnerabilidade.”

O psiquiatra espera que os dados coletados possam ajudar na construção de políticas públicas mais sensíveis e “que olhem com mais cuidado para realidades ainda tão estigmatizadas, principalmente entre populações marginalizadas e vulneráveis”. Ele conta que o tema da pesquisa reúne alguns dos seus principais interesses dentro da psiquiatria. “O que mais me alegra neste trabalho é conseguir ligar a pesquisa com o que vejo na prática, na enfermaria e no consultório”, comenta o pesquisador. O doutorando espera que sua pesquisa contribua para um olhar mais sensível e humanizado sobre a saúde da comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil, longe de estigmas. “Acredito na ciência que se traduz em transformação clínica e social”, defende.

artigo de Caio Petrus Monteiro Figueiredo, intitulado Patterns of substance use and initiation among LGBTQIAPN+ youth in Brazil: Evidence from a population-based cohort, com tradução para o português como Disparidades no uso de substâncias entre jovens brasileiros: Um estudo das influências de gênero e orientação sexual, foi publicado no último dia 17 de abril. Em junho do ano passado, o psiquiatra apresentou o estudo no Brain Congress 2025 e foi agraciado com o Prêmio Jovem Pesquisador, oferecido pela organização do evento. Além de Arthur Caye, outros pesquisadores do CISM aparecem entre os autores do paper: Pedro Mario Pan, coorientador do estudo; o coordenador do CISM Euripedes Constantino Miguel; o vice-coodenador Luis Augusto Rohde, e Giovanni Abrahão Salum, que também é pesquisador da BHRC.

O CISM é um dos Centros de Pesquisa Aplicada (CPAs) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), com sede na USP e parceria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), além da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e das particulares Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ) e Centro Universitário Max Planck (UniMAX).

*Da Assessoria de Imprensa e Comunicação do CISM. Adaptado para o Jornal da USP


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