Exposição no Centro MariAntonia revela os caminhos da arte urbana 

Na mostra Suporte Indomável, obras de 16 artistas de rua reproduzem a fluidez de uma expressão artística que não perde a sua essência contestadora e transgressora

 Publicado: 30/04/2026 às 15:14     Atualizado: 04/05/2026 às 12:23

Texto: Nina Nassar*

Arte: Simone Gomes

Obra de Thiago Iconek (à esquerda), ao lado da pintura e instalação de Nenesurreal – Foto: Nina Nassar

Movimento comunitário e político, a arte urbana permite que proletários sejam artistas e redesenhem a cidade como uma forma de difusão cultural. É o que revela a exposição Suporte Indomável, em cartaz até 26 de julho no Centro MariAntonia da USP. Com obras de 16 artistas produzidas em diferentes suportes e linguagens visuais, a mostra evidencia a fluidez e a flexibilidade da expressão artística urbana, que se transforma e se adapta sem deixar de comunicar sua essência. “Dentro do nosso orçamento, nós buscamos abranger o maior número de artistas possível, tanto no que se refere a gênero e a técnica como a localização na cidade de São Paulo”, afirma o artista de rua André Firmiano, curador da exposição, em parceria com a também artista de rua Soberana Ziza.

A exposição no Centro MariAntonia da USP reúne obras de 16 artistas de rua - Foto: Nina Nassar

O grafite, o stencil, o lambe-lambe e a pixação são as técnicas presentes na exposição, que reflete influências do concretismo e das vanguardas contemporâneas. A ideia, segundo Firmiano, é justamente mostrar um olhar mais contemporâneo sobre os artistas que vêm do grafite. Como o grafite tende a ser malvisto pelo mercado tradicional de arte – devido à sua conexão com experiências periféricas e à independência do ensino formal –, o curador conta que sempre procura ajudar a abrir caminhos para artistas que, como ele, também vieram da arte de rua. “O artista de grafite é colocado na segunda prateleira e, quando adentra o mercado de arte, tem que se reinventar, mas sem perder aquilo que tem como essência.”

O artista André Firmiano, um dos curadores da mostra - Foto: Nina Nassar

Descortinar a realidade para transformá-la

Quando se adentra a exposição, uma das primeiras obras a chamar a atenção é a instalação de Carolina Itza, artista de ascendência japonesa que iniciou seus projetos no Movimento Cultural das Periferias (MCP), um conjunto de coletivos de São Paulo. Em suas produções, a artista busca trazer signos que possam ser traduzidos em múltiplos sentidos, criando estímulos que levem o espectador ao questionamento e à reflexão. “O que me motiva é descortinar a realidade, para poder transformá-la”, diz Itza. “Gosto de pensar o lugar da experiência e da corporalidade feminina e em temas como a memória social e como os conhecimentos da diáspora se infiltram em contextos coloniais”, diz Itza. 

Segundo a artista, o seu processo de criação é influenciado pelo pensamento taoísta e por práticas corporais de ascendência asiática, como o doho e o caminho da escrita, o shodô. “Ao mesmo tempo em que vivo o respiro que a rua traz, busco transitar em outros espaços, aprofundar meu trabalho a partir de várias referências, desacelerar o tempo e estudar alguma técnica ou conceito, sem limitar o caminho que a obra pede para abrir”, acrescenta Itza, traduzindo a intenção central da exposição. 

Obras de Carolina Itza – Foto: Nina Nassar

No espaço ocupado por Michel Cena7, esse artista traz uma espiritualidade ancestral expressa em cores fantasiosas, com telas que carregam narrativas inteiras. Sobre seu processo criativo, ele diz: “Primeiro me vieram as personagens, esse mundo mais onírico, surrealista, talvez. Um surrealismo afro-brasileiro, afropindorâmico, surrealismo nacional”. Começou a pintar na rua, na adolescência, e desde então, mesmo em outros formatos, se dedica à composição desse universo que criou. Ele conta que sempre assistiu a muitos desenhos e imaginava criar uma mitologia brasileira. Através da arte, consegue achar uma forma de contar uma história à sua maneira.  

Detalhes da tela Destino, Fluição y Cura, de Cena7 – Fotos: Nina Nassar

Na obra assinada por Lau Guimarães, artista referência na produção de lambe-lambes em São Paulo, o texto crítico, em tom de denúncia da realidade feminina, assume o formato de poesia concreta, com inspirações modernistas. 

Thiago Iconek, outro artista presente na exposição, destaca a intenção da mostra de revelar como a street art pode ser flexível, adaptável. “São pessoas que pintam na rua e que trazem ideias e contextos para outros suportes, como escultura, pintura em madeira e pintura em lona”, cita. “Essa versatilidade da rua é muito interessante.” 

Outro exemplo quase vanguardista é a instalação de Mes3, que insere nas paredes da sala da exposição um pedaço de muro cinza, manchado de tinta. Entre outras interpretações possíveis, ele propõe uma inversão que simboliza justamente o direito do grafite de ocupar espaço e se fazer presente também em ambientes formais. 

Suportes Indomáveis inclui ainda uma obra no campo da moda, criada por Nobru CZ, idealizador da marca de roupas SP Paris, resultado de uma oficina de confecção de roupas com adolescentes em situação de detenção. Nessa obra, o artista relaciona a arte urbana com o pensamento do streetstyle contemporâneo. 

Negro M.I.A., artista conhecido por suas intervenções críticas metalinguísticas em outras obras, retorna aqui, também, com mensagens sobre fotografias que retratam a vida urbana paulista.

Já nas telas de Thiago Iconek, a ideia do grafite aparece colorida, com influência do hip-hop. O artista explica que, após o estudo das técnicas e da história da arte nas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), em São Paulo, começou a explorar o spray tradicional e migrou para a pintura de telas. “Eu trouxe uma perspectiva diferente, um estudo diferente, que é a desconstrução do que eu sempre fiz nas ruas. Eu faço a desconstrução de uma letra em peças, que leva um pouco para o abstrato, e insiro algumas imagens figurativas, porque essa pesquisa tem muita inspiração da música.” Iconek esclarece que as obras em exposição no Centro MariAntonia foram as primeiras que ele pintou quando começou a buscar essa estética – que ele intitula “fragments” – e que acabou deixando guardadas. “São os fragmentos que se desfazem e se deslocam.” 

Além de Itza, Cena7, Guimarães, Iconek, Mes3, Nobru CZ e Negro M.I.A, a exposição traz obras ainda de Bianca Foratori,  EsBomGaroto, Felipe Risada, Juliana Marachlian, Laís da Lama, Luiz 83, Nenesurreal, Robinho Santana e Simone Siss. 

 A exposição Suporte Indomável fica em cartaz até 26 de julho, de terça-feira a domingo, das 10 às 18 horas, no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, em São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis.   

* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro

Obra de Juliana Marachlian, artista de origem armênia – Foto: Nina Nassar


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