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Novo centro da USP reúne ciência e gestão pública mirando as cenas abertas de uso de drogas em São Paulo
O Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) Cenas Abertas de Uso de Drogas é uma parceria da USP, Fapesp, Prefeitura de São Paulo e Governo do Estado
A cerimônia de lançamento do CCD foi realizada no auditório István Jancsó e reuniu autoridades e dirigentes da Universidade – Foto: Marcos Santos/USP
A USP lançou nesta quinta-feira, dia 26 de março, o Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) Cenas Abertas de Uso de Drogas, em cerimônia realizada no auditório István Jancsó, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, no campus da USP, em São Paulo.
O CCD Cenas Abertas de Uso de Drogas é uma iniciativa que reúne pesquisadores e gestores públicos em torno de uma agenda comum: compreender, de forma sistemática e baseada em evidências, os efeitos das diferentes políticas implementadas na cidade ao longo dos últimos anos. Com financiamento de R$ 8,3 milhões e duração prevista de cinco anos, o projeto deverá estruturar bases de dados inéditas, realizar estudos longitudinais e promover comparações com experiências nacionais e internacionais. O CCD conta com a participação do Governo do Estado de São Paulo e da Prefeitura da capital e está instalado no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP.
As cenas abertas de uso de drogas são uma denominação para os espaços públicos ou onde o consumo e comércio ocorrem de forma visível, representando um impacto direto no cotidiano urbano, afetando a gestão da saúde, segurança, assistência social, habitação e planejamento urbano. Ao propor uma abordagem interdisciplinar, o centro busca superar análises fragmentadas e oferecer subsídios concretos para a formulação e o aprimoramento de políticas públicas. O CCD, que integra 36 pesquisadores da Universidade, nasce com a proposta de integrar produção científica e ação pública, qualificando políticas voltadas a esta área de estudo.
O coordenador do centro, Amâncio Jorge de Oliveira, que é pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária da USP, fez uma apresentação sobre o trabalho do CCD e explicou que a proposta é produzir um conhecimento que integre diferentes áreas e que avalie multidisciplinarmente os impactos de políticas já adotadas para a resolução do problema, aprofundando o entendimento sobre os efeitos de políticas já testadas e contribuindo para a formulação de estratégias mais eficazes.
“As definições de cenas abertas de uso de drogas são espaços públicos ou semi-públicos onde o consumo de substância psicoativa ocorre de forma visível. Trata-se de um fenômeno que se concentra frequentemente em contextos urbanos marginalizados. O escopo do CCD é precisamente entender o impacto de políticas públicas sobre esse fenômeno tão importante. O principal objetivo, portanto, é colocar, em perspectiva, o efeito da multiplicidade de políticas públicas sobre esse fenômeno a partir de um conjunto de metodologias. O framework analítico é entender as políticas públicas e seu efeito a respeito das cenas abertas, tanto no nível agregado quanto no nível individual”, explicitou.
Segundo Oliveira, “a grande virtude dessa pesquisa é o fato de ser interdisciplinar e a intersecção entre vários programas e políticas públicas e a hipótese do estudo é que o sucesso, o êxito no tratamento dessa temática é tanto maior quanto mais houver essa integração por conta dos efeitos integrativos, que ocorrem nas variáveis que incidem sobre o problema. Nós vamos fazer um estudo longitudinal, que retroage em cinco anos em relação ao tempo corrente, para entender a evolução das pesquisas. Vamos fazer um mapeamento bastante exaustivo, além de estudos comparativos internacionais sobre todas as políticas voltadas a essa temática nos cinco anteriores a essa pesquisa”.
Governo, universidade e sociedade
Financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), os Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) são um modelo de operação que prevê a participação direta do poder público nos projetos desde a sua concepção, reunindo pesquisadores de universidades e instituições de pesquisa paulistas, gestores de órgãos do governo estadual e de municípios, além de empresas e organizações não governamentais (ONGs), em projetos colaborativos orientados a problemas específicos, de interesse social ou econômico do Estado de São Paulo. Nesse formato, a produção de conhecimento é orientada para resultados práticos, com metas de impacto social e mecanismos de transferência para a gestão pública.



“Hoje estamos inaugurando mais um dos 83 centros de pesquisa aplicada chamados CCDs – os Centros de Ciência para o Desenvolvimento, no qual a Fapesp aplicou, até agora, R$ 570 milhões. Eles atuam em todas as áreas do conhecimento. Há uma concentração maior na saúde, acessibilidade e temas correlatos como este que estamos tratando, mas tratam de todas áreas do conhecimento e contemplam parcerias entre a comunidade acadêmica, a gestão do Estado, que é fundamental, e as empresas. O programa dos CCDs começou em 2019. Naquele ano, tivemos 10 propostas aprovadas; no edital seguinte, 18; no último, 34 [no qual o CCD Cenas Abertas foi uma das propostas selecionadas]; e, agora, estamos analisando um conjunto que passará de 40. Portanto, ele é crescente, porque a interação entre a comunidade acadêmica e a gestão do Estado engrenou. E, dessa forma é que a Fapesp atende à sua missão não só de fazer ciência básica, mas transformá-la em políticas públicas. Este programa do CCDs é o maior programa de ciência e políticas públicas do Brasil hoje”, considerou o presidente da Fapesp, Marcos Antonio Zago.
No caso do CCD Cenas Abertas, a parceria envolve o Gabinete do Vice-Governador, a Casa Civil e secretarias estaduais, além da administração municipal. Ao longo do projeto, os pesquisadores deverão analisar o impacto de diferentes iniciativas já implementadas, como programas municipais e políticas estaduais sobre drogas, buscando identificar o peso e a interação entre ações nas áreas de saúde, segurança e assistência social. A proposta inclui ainda o desenvolvimento de indicadores, painéis interativos e relatórios que possam orientar decisões governamentais.
O centro também pretende reconstruir a trajetória do fenômeno na cidade, acompanhando tanto dinâmicas coletivas quanto dados individuais, em uma abordagem que combina análise estatística e pesquisa qualitativa. A expectativa é que os resultados contribuam não apenas para o avanço do conhecimento acadêmico, mas para intervenções mais eficazes no território.
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O reitor da USP, Aluísio Augusto Cotrim Segurado, também destacou a importância do programa de CCDs para a Universidade. “Esta é uma grande iniciativa, com propósitos muito claros. Os centros focam desafios da sociedade contemporânea, são pautados em uma concepção interdisciplinar e têm como foco a interssetorialidade na solução, na tradução do conhecimento inovador para subsídio às políticas públicas em benefício da sociedade paulista e brasileira. Esta iniciativa conta necessariamente com a participação dos entes públicos, que criam a pauta de pesquisa da qual os nossos pesquisadores e as nossas pesquisadoras se ocuparão nesses centros. Eu quero dizer que a USP tem muito orgulho de ser protagonista nesta iniciativa e espero que, no próximo edital, possa ainda ampliar a sua atuação nessa estratégia tão importante de produção do conhecimento inovador que se traduz em benefícios concretos para a sociedade”, afirmou.
“Cumprimento o professor Amancio pela coragem em propor o CCD Cenas Abertas de Uso de Drogas. Todos nós que militamos na área, da saúde ou ou das ciências sociais, sabemos o quão desafiador é este sistema. Nós estamos tratando de uma questão que fala diretamente com as várias dimensões das vulnerabilidades. A vulnerabilidade em saúde, aquela que eu conheço muito bem, pelos reflexos que a cena aberta de drogas traz para a saúde individual, para a saúde coletiva, seja no âmbito da saúde física, seja da saúde mental. Mas também trata da dimensão da vulnerabilidade social, de forma muito aguda e, em particular, ao lidar com o público-alvo para quem se desenham políticas públicas e que é vítima de profundo estigma e discriminação. Então, esta ação de pesquisa inovadora, com potencial de transformação social, agrega de forma interdisciplinar pesquisadores e pesquisadoras das mais diferentes áreas e, certamente, jamais se descuidará da promoção, da proteção e dos direitos das pessoas envolvidas nas situações de vulnerabilidade já mencionadas”, considerou o reitor.
O secretário Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, Vahan Agopyan, que participou da cerimônia representando o vice-governador Felício Ramuth, ressaltou que “através do CCDs, estamos mostrando para os agentes do governo, os executivos do governo, a importância da ciência para a resolução dos problemas sociais. E isso é muito importante porque o governante tem que entender que as ações que ele toma tem que estar embasadas em soluções já estudadas e não apenas no impacto da emoção. É isso que nós estamos fazendo. Ciência, cientistas, inventores, pesquisadores trabalhando para melhorar a qualidade de vida da população paulista. Estamos, como Governo, cumprindo nossa tarefa, empregando o que há de melhor em nosso país para que essas soluções sejam as melhores possíveis”.
Também participaram da cerimônia a vice-reitora da USP, Liedi Légi Bariani Bernucci; a diretora do IEA, Roseli de Deus Lopes; a secretária Estadual de Desenvolvimento Social, Andrezza Rosalém; o secretário Estadual da Justiça e da Cidadania, Arthur Lima; o secretário-adjunto Municipal da Saúde, Maurício Serpa; e o presidente da União Santa Efigênia, Fábio Zorzo.
O evento de lançamento do CCD marcou a comemoração dos 15 anos do Centro de Estudos de Negociações Internacionais (Caeni), ligado ao IEA.
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