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Músicas orquestral e indígena se encontram em novo álbum
Coral Amba Wera e Orquestra Almai lançam Yy Jojou - Encontro das Águas, que reúne oito composições originárias de cânticos do povo Guarani Mbya, de São Paulo
O álbum Yy Jojou – Encontro das Águas foi apresentado no dia 14 passado, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo – Foto: Anna Bogaciovas
Os cânticos indígenas do Coral Amba Wera se encontram com a sonoridade da Orquestra Almai – mantida pela Associação Livre de Música e Artes Integradas (Almai) de São Paulo – no álbum Yy Jojou – Encontro das Águas, que no dia 10 passado foi lançado nas plataformas digitais Spotify e YouTube. O projeto tem direção dos compositores Anselmo Mancini e José Calixto, ambos formados pela USP, responsáveis pela orquestração das obras.
O álbum reúne oito cânticos originários do povo Guarani Mbya cantados pelo coral Amba Wera – proveniente da Aldeia Tekoa Pyau, localizada no Território Indígena do Jaraguá, em São Paulo –, acompanhado pela Orquestra Almai. Mancini e Calixto “reimaginaram” as melodias indígenas para produzir as obras presentes no álbum. “Desde o início a nossa ideia era manter a autoria com o povo Guarani”, conta Mancini. “Nós não pegamos a música deles para a usarmos como inspiração. O que fizemos foi nos unirmos para criar algo diferente.”
O processo de criação do álbum difere do que foi feito com a música indígena por outros compositores brasileiros – entre eles, Heitor Villa-Lobos (1887-1959) ,, esclarece Mancini, que é doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, onde também se graduou em Composição Musical. Mancini ressalta que Villa-Lobos incorporava transcrições de cantos originais a composições de teor nacionalista – como acontece em Uirapuru – e acabava fazendo obras cuja autoria era integralmente sua. “Isso não é nenhuma crítica ao que Villa-Lobos fez, porque seu contexto histórico e social era outro e isso permitiu que compositores de tradição ocidental refletissem sobre a música nacional, mas hoje temos a obrigação de fazer diferente”, acrescenta Mancini.
Anselmo Mancini: processo de criação do álbum foi diferente do que Villa-Lobos fez com a música indígena – Foto: Anna Bogaciovas
O objetivo era encontrar uma forma de aproximar duas músicas tradicionais. “Gosto de dizer que as duas são tradições de música clássica, porque são milenares”, afirma Calixto, que é doutor em etnomusicologia – o estudo da música no seu contexto cultural e social – pela ECA. De um lado, uma cultura oral, cuja técnica do canto representa força ritualística e profundidade espiritual. De outro, uma cultura escrita que desenvolveu organização musical pautada em partituras – sistema de escrita musical que indica ritmo, notas e duração dos sons instrumentais.
Ao pensar em como descrever a união entre as duas tradições, Mancini e Calixto se depararam com uma frase do ativista, acadêmico e mestre quilombola Antônio Bispo dos Santos (1959-2023), o Nêgo Bispo – “Quando um rio encontra outro rio, ele não deixa de ser rio; ele passa a ser um rio maior”. Por isso, resolveram dar ao álbum o título Yy Jojou, que significa “encontro das águas”, em guarani.
O Coral Amba Wera, da Aldeia Tekoa Pyau, localizada no Território Indígena do Jaraguá, em São Paulo – Foto: Anna Bogaciovas
A produção do álbum é importante para as estratégias de visibilidade da cultura guarani desenvolvidas nos últimos anos pela aldeia Mbya, observa o indígena Maurício Biguai, diretor do Coral Amba Wera. “O objetivo do coral é fortalecer nossa cultura e não deixar esquecer nossa língua. Não vamos desistir disso”, diz Biguai. Ele destaca que Yy Jojou cumpre esse objetivo ao divulgar a música de sua aldeia, que é baseada em cânticos ritualísticos entoados durante rezas. “Seu significado é o fortalecimento do espírito”, informa. “É quase como dizer: ‘Vamos caminhar juntos’.”
José Calixto: “Gosto de dizer que são duas tradições de música clássica, porque são milenares” – Foto: Anna Bogaciovas
Adaptações para uma parceria bem-sucedida
O projeto não foi realizado sem dificuldades, porém. “Nos primeiros encontros, ambos os lados tiveram que aprender algo novo tecnicamente. Tiveram que se adaptar um ao outro”, conta Mancini. Nos ensaios, a orquestra fez algo não usual para seus instrumentistas: escutar. “Os músicos da orquestra chegaram, se posicionaram e ficaram esperando o comando do maestro. Nós então dissemos: ‘Gente, guarda o violino, o cello e tudo o mais, ninguém vai tocar. Vamos ouvir a música guarani’.”
Da parte do Coral Amba Wera também houve adaptações. “Foi muito difícil, um desafio muito grande para nós. A maior diferença foi cantar junto do violino”, relembra Biguai. Apesar dos obstáculos, ao final várias amizades se formaram entre os membros dos dois grupos, que até rendeu uma visita à aldeia dos Guarani Mbya e trocas de presentes por ambos os lados.
Michael Tupã, um dos integrantes do Coral Amba Wera – Foto: Anna Bogaciovas
Antes de essas relações começarem, houve outras etapas, que permitiram o início do projeto. A ideia surgiu há três anos, quando a Orquestra Sinfônica da USP (Osusp) procurou Calixto para intermediar uma parceria com o Coral Amba Wera, já que, em seu doutorado em Etnomusicologia, ele pesquisava a prática e o pensamento musical Guarani Mbya.
Em abril de 2023, a Osusp e o coral fizeram um concerto na Cidade Universitária, em São Paulo. Ao final do evento, Maurício Biguai confidenciou para Calixto o seu desejo de gravar um álbum do coral com uma orquestra – o que foi realizado agora, com a Orquestra Almai. “Para nós era um sonho”, lembra Biguai. “Nós queríamos gravar um disco para homenagear nosso pajé, Karai Poty, José Fernandes, que foi quem criou o coral. Uma das músicas leva seu nome, em homenagem a ele. Ele se foi há três anos.”
O álbum Yy Jojou – Encontro das Águas, com o Coral Amba Wera e a Orquestra Almai, está disponível gratuitamente nas plataformas digitais Spotify e YouTube.
No dia 19 de abril, às 17 horas, o coral e a orquestra apresentarão o álbum em concerto no Teatro Baccarelli (Estrada das Lágrimas, 2.317, Heliópolis, zona sul de São Paulo). Os ingressos custam R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia-entrada) e podem ser adquiridos no site do Instituto Baccarelli.
* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro
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