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Violência e sociologia são temas da nova edição de Estudos Avançados
Revista é uma publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP
Foto publicada na nova edição da revista Estudos Avançados – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Dois dossiês compõem a nova edição da revista Estudos Avançados – publicação quadrimestral do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP –, que acaba de ser lançada. Um deles, intitulado Violência, Dor e Sofrimento, traz 11 artigos que abordam diferentes modalidades de violência. O outro dossiê é Sociologia, que reúne três artigos ligados a essa área do conhecimento. A revista estará disponível em breve na plataforma Scielo Brazil.
Um dos artigos publicados no dossiê Violência, Dor e Sofrimento é A Centralidade da Prisão nas Relações entre Crimes Violentos ao Patrimônio e o PCC, do pesquisador Leonardo José Ostronoff, do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP. No artigo, Ostronoff busca compreender qual a relação do PCC com os crimes com emprego de violência contra o patrimônio. O autor trabalha com a hipótese de que tais crimes não seriam realizados por ordens do PCC, mas sim por criminosos autônomos do ramo patrimonial aliados dessa organização – justamente por ela controlar as redes de relações entre os agentes criminais por meio das prisões. Inspirado no filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), Ostronoff demonstra que, para além do objetivo punitivo das elites de demonstrar às classes populares as consequências de ilegalidades, as prisões, ao confinarem no mesmo espaço os criminosos, tornam-se um instrumento para o recrutamento de um “exército de delinquentes”.
A escritora Conceição Evaristo – Fotomontagem: Jornal da USP com Imagens de Pexels e Marcos Santos/USP Imagens
Em Conceição Evaristo e os Arredores de Insubmissas Lágrimas de Mulheres – outro artigo publicado mesmo dossiê, a doutora em Psicologia pela USP Ianá de Souza Pereira destaca outra face da violência, relacionada com a experiência histórica da mulher negra na sociedade. No artigo, Ianá analisa os contos presentes no livro Insubmissas Lágrimas de Mulheres, de Conceição Evaristo, que se afastam de estereótipos propagados pela literatura, majoritariamente branca e masculina. Expressão das relações de dominação no universo ficcional de Evaristo, as histórias são compostas com o recurso da insubordinação, numa contranarrativa ao poder estabelecido pelo capitalismo patriarcal, que “engole” vivências subjetivas e ancestrais da mulher negra, segundo a autora. Todas as protagonistas trazem nomes próprios (Isaltina Campo Belo, Shirley Paixão e Regina Anastácia, entre outras), como uma reafirmação do “realismo corrosivo” da obra de Evaristo, que, segundo Ianá, “funda outro mundo e politiza o cotidiano”, para questionar a posição de explorada sempre entregue à mulher negra.
“Ouço muito. Da voz outra, faço a minha, as histórias também. E no quase gozo da escuta, seco os olhos. Não os meus, mas de quem conta.”
Conceição Evaristo (prefácio de Insubmissas Lágrimas de Mulheres)
Outros artigos publicados em Violência, Dor e Sofrimento são Narcoterrorismo e Narcoestado: Genealogias, Usos Políticos e Riscos Analíticos Frente às Facções no Brasil, Polícias em Conflito: “Pluralismo Policial” e os Vetos a Reformas na Segurança Pública e No Gueto e na Favela: Duas Canções, Dois Retratos da Violência.
O dossiê traz ainda os artigos Um Intérprete da Experiência Contemporânea: Paul Ricœur e a Compreensão do Sofrimento, A Invisibilidade Social como Desrespeito na Teoria do Reconhecimento de Axel Honneth, A Culpa nos Hibakusha: um Estudo da Memória de Keiko Ogura Cristiane e A “Mortigrafia” de Lampião e Maria Bonita: Considerações sobre a Musealização do Trágico, entre outros.
O sociólogo e professor da USP Florestan Fernandes (1920-1995), autor de A Revolução Burguesa no Brasil – Foto: Memória Sindical
Os 50 anos de A Revolução Burguesa no Brasil
Um dos artigos publicados em Sociologia – o segundo dossiê da nova edição de Estudos Avançados – lembra os 50 anos de publicação de uma das principais obras do sociólogo e professor da USP Florestan Fernandes (1920-1995). Em A Revolução Burguesa no Brasil: 50 Anos de um Clássico Difícil, os professores André Botelho e Antônio Brasil Jr. – ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – destacam os princípios marxistas que guiaram Florestan ao escrever A Revolução Burguesa no Brasil, livro publicado em 1975 pela Editora Zahar, do Rio de Janeiro.
De acordo com os autores do artigo, não é o tipo de marxismo praticado ou almejado por Florestan que explica possíveis limites de A Revolução Burguesa no Brasil, mas isso ajuda a entender a recepção da obra entre determinados círculos acadêmicos e políticos da sociedade. Contra os teóricos do “capitalismo originário” brasileiro, a “revolução burguesa no Brasil” era um processo impositivo que, ao contrário do que pretenderiam os teóricos da “hegemonia oligárquico-imperialista”, já se realizara sob a forma especificamente contrarrevolucionária, segundo os autores.
O dossiê Sociologia inclui ainda os artigos Por Uma Sociologia Provocadora (de Respostas), de Maria Aparecida de Moraes Silva, e O que Fazer com os Clássicos da Sociologia? Diagnóstico e Prognóstico, de Carlos Eduardo Sell.
A extrema direita na França
Além dos dois dossiês, a nova edição de Estudos Avançados publica ainda a seção Resenhas, com quatro textos. Um desses textos aborda o livro Des Électeurs Ordinaires: Enquête sur la Normalisation de l’Extrême Droite (Eleitores Ordinários: Investigação sobre a Normalizaçao da Extrema Direita), do sociólogo francês Félicien Faury, publicado na França em 2024 e ainda sem edição em português. O texto é assinado pelo professor Fabio Mascaro Querido, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Em sua resenha do livro de Faury, Querido afirma que o sociólogo francês busca explicar a ascensão da extrema direita na França através de uma uma análise sociológica “das experiências dos eleitores, dos contextos nos quais eles vivem, a fim de identificar as lógicas que fundamentam o poder de atração que pode exercer sobre eles um partido como o RN” (Reagrupamento Nacional, ex-Frente Nacional).
“Para tanto, o sociólogo francês se propõe a explorar ‘as condições sociais do voto RN’, o que implica considerar ‘os fenômenos políticos como fenômenos igualmente sociais, produzidos e entretidos por configurações específicas das quais os cidadãos são ao mesmo tempo os atores e as testemunhas'”, escreve Querido. “Compreender o processo de ‘normalização’ do RN significa, assim, compreender como a orientação eleitoral do partido foi progressivamente ganhando legitimidade em camadas expressivas da sociedade francesa.”
A seção Resenhas é completada com os artigos Permanecer Bárbaro de Louisa Yousfi: Insurgências contra a Domesticação Civilizatória, de Morgane Reina, Propósito e Valor dos Acervos Fotográficos ao Redor do Mundo – Hoje e no Futuro, de Sergio Burgi, e Razão, Técnica e (Des)Informação: os Vetores das Crises Contemporâneas, de Tatiana Dourado.
Estudos Avançados, número 116, publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, 304 páginas
A revista estará disponível em breve na plataforma Scielo Brazil
* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro
** Estagiária sob supervisão de Simone Gomes
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