Livro revela as raízes da formação do pensamento político dos brasileiros

Publicado pela Editora da USP, Mercado de Opinião Política traz análises sobre as diferentes "vozes de influência" que marcam as disputas ideológicas no Brasil nas últimas décadas

 Publicado: 25/03/2026 às 16:15     Atualizado: 26/03/2026 às 16:21

Texto: Nina Nassar*
Arte: Gustavo Radaelli**

Capa do livro Mercado de Opinião Política – Imagem: Reprodução/Edusp

No livro Mercado de Opinião Política, publicado pela Editora da USP (Edusp), a professora Allana Meirelles Vieira investiga as raízes da formação do pensamento e entendimento político dos brasileiros, num extenso estudo empírico e teórico. A obra será lançada nesta sexta-feira, dia 27, às 18h30, na Livraria da Travessa, em São Paulo, com entrada grátis.

A partir das disputas ideológicas surgidas no Brasil no século 21 – marcadas pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff, em 2016, e pela ascensão da extrema direita –, Allana aborda o jogo de forças entre movimentos que buscam ocupar o espaço de produção de ideias, agendas e soluções para as questões políticas, econômicas, sociais e culturais do País. “O mercado de opinião brasileiro se estrutura em diferentes hierarquias e polos, que se constituem pela distribuição desigual dos recursos materiais e simbólicos”, afirma Allana, que é doutora em Sociologia pela USP e pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), de Paris, na França, e professora da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), em entrevista ao Jornal da USP“Cada um desses polos constrói sua legitimidade a partir de trunfos distintos e concorrem entre si na definição dos critérios mais relevantes na escolha de quem pode e deve falar sobre determinado assunto”, acrescenta a professora, que no seu livro se baseia principalmente nas ideias do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2022).

Os tipos que constituem o “mercado de opinião”

Para entender o que chama de “mercado de opinião política”, Allana diz que é preciso compreender os polos em que se distribuem os cinco “tipos primários” de vozes de influência em atividade no Brasil nas últimas décadas, que são: acadêmicos/experts, jornalistas mainstream, jornalistas blogueiros, polemistas e militantes.

Os quatro primeiros desses tipos são agentes cuja autoridade para opinar sobre o mundo vem dos diplomas, da atividade profissional, do prestígio entre os pares. Os acadêmicos/experts não costumam ser personagens de maior visibilidade, mas operam nos bastidores da política e do mercado financeiro – por exemplo, na formação de consensos entre tomadores de decisão. Eles e os jornalistas têm suas legitimidades ancoradas nas obras que produziram e, “mesmo que não tenham grande poder de mobilização das audiências a curto prazo, conseguem pautar o debate de forma mais duradoura”, segundo Allana. 

Já os polemistas e os militantes – os primeiros mais comumente associados à direita do espectro político e os segundos, à esquerda – tendem a se sustentar a partir das reações de seus públicos, da venda de livros e do crescimento de seguidores em redes sociais, dependendo de certa performance ou narrativa sobre si, continua a professora.  

Esses tipos que exercem influência sobre a opinião política do público não existem em sua pureza completa, explica Allana ao Jornal da USP. Dentro desses polos, os indivíduos se aproximam e se afastam de suas características. Há figuras que podem fluir entre esses polos ou ficar entre fronteiras. “É mais fácil e comum um jornalista mainstream se tornar um jornalista blogueiro ou um polemista, por exemplo, do que um polemista se tornar um acadêmico”, diz Allana Meirelles. 

As figuras de fronteira produzem tensionamentos dentro das lógicas do próprio polo, considerando que os personagens estudados no livro já são de certa forma híbridos, pois a pesquisa abrange aqueles que se comunicam abertamente na mídia. Ou seja, essas figuras, por compartilharem as lutas do “mercado de opinião”, trazem para seus campos específicos os efeitos de tal atuação. Allana completa: “É interessante analisar como as alianças se estabelecem entre esses polos. Tais alianças podem operar como uma divisão do trabalho de legitimação da direita, como ocorreu, por exemplo, na eleição de Jair Bolsonaro, em 2018”. 

A professora Allana Meirelles Vieira, autora do livro – Foto: Arquivo pessoal

O impeachment e os esforços de legitimação da direita

Como Allana escreve no livro, na década passada, com a ascensão de uma “direita orgulhosa” – numa reação à imagem atribuída aos políticos de direita com a conquista das eleições diretas, nos anos 80 –, acentuou-se no Brasil uma polarização escancarada. “Nos anos 2000, com a chegada de um partido reconhecido como de esquerda à Presidência da República, com as crises e os escândalos políticos, a régua de identificação começou a se modificar”, destaca Allana. “E, em geral, é em relação ao partido e aos políticos que estão no poder que os colunistas vão se autoidentificar. Assim, foi possível observar no mercado de opinião os tensionamentos graduais para a legitimação do autorreconhecimento enquanto alguém de ‘direita’.” 

A partir do impeachment de Dilma Rousseff, surge uma disputa pelo novo lugar e novas figuras de representação da direita. Ocorre até uma antítese: o empenho dos polemistas mais midiáticos da direita em defesa da “liberdade democrática”, que inclui a liberdade de defender o retorno de um governo antidemocrático. 

Allana acrescenta que, apesar da recente maior visibilidade, esse tensionamento não se restringe aos últimos 20 anos nem às disputas discursivas. “Essas lutas pelas formas legítimas de classificação de si e do outro se relacionam com os investimentos (econômicos e ideológicos) por parte de setores midiáticos, editoriais e políticos – como jornais, revistas, canais de rádio, editoras, think tanks – na formação, na fidelização e até na radicalização de um público mais conservador ou liberal.”

Ao longo da história, o “mercado de opinião” no Brasil passa por drásticas transformações, especialmente devido ao surgimento de novas formas de comunicação midiática e à aparente “democratização da informação”. No livro, Allana dá como exemplo disso a mudança da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP da Rua Maria Antonia, na região central de São Paulo, para a Cidade Universitária, na zona oeste da capital. Segundo ela, essa mudança representou, geográfica e simbolicamente, um afastamento dos acadêmicos em relação à cidade de São Paulo e uma certa restrição gradual de seu público para um nicho mais teórico e intelectualizado. “Com isso, a imprensa brasileira, que demonstra uma dependência profunda da elite econômica e política, acaba, em parte, substituindo os acadêmicos pelos experts, no que diz respeito à influência direta nos tomadores de decisão e nos poderes políticos.”

Impeachment da presidente Dilma Roussef, em 2016 – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A imprensa e os debates públicos

No livro, Allana constata a substituição da imprensa romântica, literária e intelectual por um novo jornalismo, mais técnico, especializado e profissional. Com esse movimento de industrialização do jornalismo, acontece uma virada da atenção de grandes veículos e de revistas culturais para produtos da indústria cultural, e não necessariamente para a produção literária “mais legítima”. Colunistas-polemistas, então, ganham espaço na imprensa, não apenas pela habilidade de se comunicar com o público, mas também pelo combate ao politicamente correto como estratégia dos jornais para as disputas pelo monopólio da cultura. 

Grande parte dessa escolha vem de estratégias de performance diante do texto e do audiovisual: tanto as produções dos polemistas quanto as dos militantes contam com uma linguagem acessível, que agrada o gosto médio. Já os acadêmicos e experts optam por demonstrar rigor de análise e erudição, enquanto os jornalistas se destacam por reportagens e investigações reveladoras. Cada grupo pode utilizar essas escolhas para fidelizar um público existente ou, então, para criar um público próprio. 

Allana destaca que nem sempre a tendência a debates tendenciosos e provocações violentas é resultado de uma deliberação ou de uma intenção explícita, mas está ancorada em “crenças reais e profundas, distinções ligadas às diferenças de classe social de produtores e públicos, dinâmicas da arquitetura das mídias e modos de prática profissional enraizados”, como diz ao Jornal da USP. Ela explica que todos esses programas e seus agentes, em alguma medida, reivindicam o lugar de importância de tais debates midiáticos para a democracia, como se fossem a expressão do ideal de “esfera pública” ou de “intelectual público”. “A questão é que as desigualdades sociais, assim como as distinções do próprio mercado de opinião, se expressam na estética, no conteúdo, na forma de mediação de tais programas. Há agentes que querem, podem e conseguem circular por essas lógicas distintas, produzindo eficácia simbólica para diferentes nichos de público, e outros não.” 

Mercado de Opinião Política, de Allana Meirelles Vieira, Editora da USP (Edusp), 288 páginas, R$ 60,00

O livro será lançado nesta sexta-feira, dia 27, às 18h30, na Livraria da Travessa (Rua dos Pinheiros, 513, Pinheiros, zona oeste de São Paulo, próximo à estação Fradique Coutinho do metrô). Entrada grátis

* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro

** Estagiário sob supervisão de Simone Gomes


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