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Projeto propõe arquitetura hospitalar com foco em humanização dos espaços para crianças com câncer
Referência no tratamento do câncer infantojuvenil, o Graacc é tema do trabalho final de graduação Arquitetura que Cuida, que detalha a construção de um edifício anexo ao hospital
Foto: Cedida pela pesquisadora
O Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc) é referência no tratamento do câncer infantojuvenil, com números expressivos de atendimento. O hospital atende crianças e adolescentes vindos de todo o Brasil e também de outros países da América Latina, oferecendo tratamento altamente especializado e gratuito para seus pacientes – cerca de 80% dos pacientes são do Sistema Único de Saúde (SUS). Além da excelência clínica, o Graacc também se destaca pelo compromisso com a humanização do cuidado, buscando oferecer não apenas tratamento médico de qualidade, mas também suporte integral aos pacientes e às suas famílias.
Foi pensando nos números exponenciais de atendimento e procedimentos de alta complexidade, como aplicações de quimioterapia e cirurgias, e na demanda crescente de pacientes e necessidade de expansão do hospital do Graacc que Luiza Carneiro de Oliveira, aluna da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, desenvolveu seu trabalho final de graduação Arquitetura que Cuida: um Projeto Baseado em Evidências. A pesquisa foi orientada pela professora Sheila Walbe Ornstein, com coorientação da pesquisadora Ana Judite Galbiatti Limongi França, e prevê um novo prédio anexo para o Hospital do Graacc capaz de ampliar a capacidade de atendimento e, ao mesmo tempo, qualificar a experiência de pacientes oncológicos pediátricos e de seus familiares.
Segundo a orientadora, a banca examinadora elogiou o projeto por conta da forma detalhada que o novo edifício é apresentado, aliando conhecimento técnico e científico e sensibilidade em relação aos seus usuários, sobretudo às crianças e seus cuidadores. “Luiza evidenciou que no campo da saúde, especialmente no caso de tratamentos de longo prazo e envolvendo crianças, é preciso que o arquiteto tenha um olhar muito apurado frente a complexidade e a interdisciplinaridade do problema, sem esquecer a necessidade de humanização dos espaços”, afirma a professora. Além disso, destaca que os desenhos e projetos apresentados, incluindo os 3D, estão graficamente muito bem representados.
Projeto baseado em evidências
Sheila Walbe Ornstein - Foto: ResearchGate
O interesse de Luiza pela arquitetura hospitalar começou quando desenvolveu uma pesquisa de iniciação científica em parceria com o Hospital Universitário da USP. “O trabalho se fundamentou nos princípios do Projeto Baseado em Evidências – PBE (Evidence-Based Design – EBD) e teve como objetivo propor uma reforma para a farmácia do hospital, investigando como o ambiente construído pode contribuir para melhorar o funcionamento dos espaços de saúde e a experiência de seus usuários”, afirma. Dando continuidade à temática da arquitetura hospitalar, Luiza escolheu o Graacc para o seu trabalho final de graduação (TFG), segundo ela, pela admiração que tem pela seriedade e comprometimento da instituição.
Projeto foi realizado a partir da necessidade de expansão do edifício hospitalar e propõe novo bloco - Foto: Cedida pela pesquisadora
No início de 2025, como Luiza conta, surgiu a oportunidade de participar de uma visita ao hospital do Graacc, onde pôde conhecer melhor o edifício e o funcionamento das diferentes áreas de atendimento. “Durante essa visita, foi mencionada a necessidade de expansão do edifício hospitalar e o interesse da instituição em desenvolver um novo projeto para ampliar sua capacidade de atendimento. Esse contexto acabou despertando meu interesse em desenvolver o meu TFG a partir desse desafio real, investigando de que forma a arquitetura poderia contribuir para qualificar os espaços de cuidado e apoiar o trabalho realizado pelo hospital”, explica.
Ela destaca que um aspecto importante do trabalho é seu caráter científico e que o desenvolvimento do seu TFG foi pré-aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Luiza informa que o projeto foi desenvolvido a partir de uma extensa pesquisa sobre arquitetura hospitalar e experiência do paciente, incluindo revisão sistemática da literatura, análise de normas técnicas, estudo de hospitais de referência internacionais e visitas técnicas ao próprio Graacc, além de contemplar entrevistas com profissionais atuantes no hospital.
A proposta segue os princípios do projeto baseado em evidência, abordagem que utiliza pesquisas científicas para orientar decisões de projeto em ambientes de saúde. “Dessa forma, o trabalho busca demonstrar como a arquitetura pode contribuir de maneira concreta para o cuidado, especialmente em contextos sensíveis como o tratamento oncológico pediátrico”, afirma.
Luiza Carneiro de Oliveira - Foto: LinkedIn
O projeto de expansão
Diante do diagnóstico realizado ao longo da pesquisa e da análise da ocupação atual do complexo hospitalar do Graacc, o local mais adequado para a implantação do novo anexo, como aponta Luiza no trabalho, é a porção do terreno correspondente ao Bloco Borges Lagoa. Com uma área útil de 3.253,62 m², o terreno é uma oportunidade estratégica para a expansão do hospital. Segundo ela, não há vizinhos laterais, permitindo maior liberdade para o controle de insolação, ventilação natural, integração de áreas verdes e implantação volumétrica.
Outro ponto relevante para ela é o potencial de reorganização dos fluxos de acesso ao hospital: “A localização do terreno permite a redefinição do acesso principal de pacientes e visitantes, que poderá ser realocado para a Rua Borges Lagoa (atualmente o acesso é feito pela Rua Pedro de Toledo), promovendo maior eficiência e segurança nos deslocamentos.
Luiza informa que o novo edifício foi concebido para concentrar grande parte das áreas assistenciais do hospital, incluindo setores de internação, centro cirúrgico, quimioterapia, hemoterapia, centro de reabilitação, ambulatório e pronto atendimento, além de espaços de apoio aos pacientes e familiares. Além disso, diz que o projeto buscou estabelecer uma forte articulação com os edifícios já existentes do complexo hospitalar, procurando integrá-los ao novo anexo de forma a otimizar o funcionamento geral do hospital.
Projeto de expansão propõe a construção de um novo bloco - Fotos: Cedidas pela pesquisadora
Reorganização de fluxos
“A proposta parte do entendimento de que o Graacc possui uma história construída ao longo do tempo, e por isso procura respeitar e valorizar os espaços já consolidados, reorganizando fluxos e conexões entre os blocos para tornar os percursos mais claros e eficientes para pacientes, acompanhantes e equipes de saúde”, declara.
O projeto propõe também uma reorganização dos acessos ao hospital com o objetivo de minimizar conflitos e sobreposições entre usuários com diferentes perfis, como pacientes, acompanhantes, ambulâncias, colaboradores e serviços logísticos. A nova configuração busca tornar os fluxos mais claros e eficientes, facilitando a orientação dentro do complexo hospitalar e melhorando o funcionamento das atividades assistenciais e a eficiência operacional do hospital.
Áreas de acesso e corredor - Fotos: Cedidas pela pesquisadora
A proposta estabelece um acesso principal voltado aos pacientes ambulatoriais e internados, conduzindo diretamente à recepção do novo anexo. O pronto atendimento passa a contar com uma entrada própria, permitindo que os fluxos de emergência tenham um encaminhamento mais rápido e independente das demais áreas do hospital. Já os fluxos logísticos e de abastecimento passam a ocorrer por um acesso específico, separado dos percursos de pacientes e visitantes, enquanto colaboradores contam com uma entrada exclusiva.
Há também previsão de um estacionamento no subsolo do novo anexo, ocupando os quatro pavimentos subterrâneos do edifício. Essa solução, segundo Luiza, permite concentrar as vagas abaixo do nível do solo e liberar os pavimentos superiores para as áreas assistenciais do hospital. O estacionamento foi dimensionado para atender ao fluxo diário de pacientes, visitantes e também da equipe do hospital.
Bem-estar aos pacientes
O projeto incorpora diferentes espaços voltados ao bem-estar e ao lazer das crianças, adolescentes e também de seus acompanhantes, entendendo, segundo Luiza, que, em um hospital pediátrico, esses ambientes são parte importante do processo de cuidado.
No térreo do novo anexo, a área de recepção se conecta diretamente a uma brinquedoteca, a um playground externo com brinquedos acessíveis e a áreas verdes, criando um ambiente mais acolhedor logo na chegada ao hospital. O projeto também prevê uma adoleteca, pensada especificamente para adolescentes em tratamento, com sala de música, jogos e áreas de convivência, oferecendo atividades mais adequadas a essa faixa etária e incentivando momentos de socialização.
Também foi previsto um Espaço da Família, destinado aos acompanhantes. Muitos pacientes atendidos pelo hospital vêm de outras cidades e estados e permanecem longos períodos em São Paulo durante o tratamento. Esse ambiente busca oferecer um local de descanso e convivência para familiares, reconhecendo o papel fundamental que eles desempenham no processo de cuidado.
Brinquedoteca e cobertura - Fotos: Cedidas pela pesquisadora
Na cobertura do edifício, o projeto inclui jardins, espaços projetados para promover recuperação emocional e redução do estresse por meio do contato com a natureza. “Esses jardins oferecem áreas de permanência ao ar livre, além de incluir atividades de jardinagem terapêutica, nas quais pacientes podem participar do cultivo de plantas”, informa Luiza.
O projeto final também foi apresentado para um dos membros da área de Desenvolvimento Institucional do Graacc e compartilhado com as arquitetas da equipe de infraestrutura do hospital, que foram essenciais durante o processo, acompanhando grande parte do desenvolvimento do trabalho. Ao mesmo tempo que o próprio hospital manifesta a necessidade de expandir sua infraestrutura e mesmo sendo um projeto acadêmico, que não está vinculado diretamente a um plano de implantação, Luiza espera que o trabalho possa contribuir para o debate sobre futuras ampliações e sobre o papel da arquitetura na qualificação dos espaços de cuidado.
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