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Contação de histórias é fundamental na infância, mas hábito está ameaçado pelas novas tecnologias
Crianças têm substituído conflitos por aparelhos tecnológicos, de acordo com doutoranda Ísis Madi
Em meio a um mundo que preza pela produtividade, a contação de histórias representa um espaço para respiro – Foto: pikisuperstar/Freepik
A contação de histórias é um hábito fundamental para os seres humanos. O ato é responsável por criar memórias coletivas e instigar a imaginação e criatividade de cada indivíduo. Além disso, o hábito é universal e ultrapassa os limites do tempo, existindo a milhões de anos, seja através de pinturas rupestres ou pela leitura de obras como as Fábulas de Esopo.
Na infância, a contação de histórias é ainda mais importante, responsável por estimular a formação de senso crítico e criação de memórias nas crianças. Entretanto, a entrada de novas tecnologias precocemente na população jovem mundial tem impactado essa dinâmica, causando consequências significativas na sociedade.
Ameaça à imaginação infantil
Ísis Madi, doutoranda na Faculdade de Educação da USP, comenta que o principal efeito das novas tecnologias nas crianças é a redução da capacidade de criação de ideias. “Todo conflito, hoje, é substituído por uma tela. É como se fosse uma chupeta. As crianças não têm um tempo dedicado a se ouvir, a refletir, existe uma falta de resiliência para lidar com o tédio. As crianças estão com dificuldade de lidar com essas questões”.
Em meio a um mundo que preza pela produtividade, a contação de histórias representa um espaço para respiro. Outro fator de impacto na temática é o compartilhamento de imagens prontas. A pesquisadora defende que personagens e espaços criados em produções audiovisuais e pela internet impedem o estímulo à criação de imagens e desenvolvimento dessa habilidade.
Ísis Madi – Foto: Reprodução/Instagram
A unidade de cada história
O hábito de contar histórias é intrinsecamente humano e faz parte da formação intelectual de todas as pessoas. Sabrina da Paixão, professora da Faculdade de Educação da USP, afirma que a narração é uma característica que define os indivíduos enquanto seres humanos. “Toda vez que a gente começa a falar de contação de histórias, a gente vai remontar às cavernas, às fogueiras, a um modo como a gente se desenvolve enquanto ser humano. É essencial que nós desenvolvamos isso enquanto comunidade, a gente desenvolva essa formação estritamente nossa”.
Cada história contada é diferente para cada indivíduo, considerando peculiaridades como vivência, histórico e a fonte da contação. Para Ísis, a história contém uma intenção distinta cada vez que é compartilhada, criando um valor simbólico diferente em cada ouvinte. Para as crianças, essa relação é fundamental, visto que permite a experimentação de diferentes sentimentos, formas de vivência e experiências.
O hábito não só fomenta o senso crítico infantil, mas cria lembranças para a vida dos jovens. “Quando a gente para, enquanto adulto, para repensar as histórias que nos formam, às vezes a gente não lembra a história com muita precisão, mas a gente lembra de quem a conta. A gente consegue pegar um fragmento de algo que nos marcou, como a voz de um avô, o cheiro daquele lugar ou a professora que contou a história”, afirma Sabrina.
Sabrina da Paixão – Foto: Reprodução/Linkedin
O papel das bibliotecas
Para minimizar os impactos causados pela tecnologia e manter ativo o caráter humano e universal da narração de histórias, algumas medidas podem ser tomadas. De acordo com a professora, uma atitude fundamental é a manutenção e expansão das bibliotecas escolares e outros espaços de leitura no País.
“Precisamos reforçar o hábito de contação de histórias e leitura nos espaços escolares. Como as bibliotecas são usadas? Ela só é usada de modo a ir buscar uma informação para responder alguma coisa para uma avaliação e acabou? Temos que alterar isso”, ressalta Sabrina.
*Sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo
**Estagiário sob orientação de Simone Gomes
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