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Shen Ribeiro traz para a USP o som ancestral que encanta imperadores
Flautista é mestre no shakuhachi – a milenar flauta japonesa feita de bambu –, que estudou no Japão e tocou para a família imperial daquele país
Shen Ribeiro toca o shakuhachi: feito em bambu, instrumento entrou no Japão vindo da China entre os séculos 7 e 8 e se tornou objeto das práticas meditativas dos monges zen-budistas – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Entre os concretos e os jardins do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, passeiam sons ancestrais, vindos da Ásia longínqua. Sonoridades graves e profundas, que materializam a força do vento. Trata-se das melodias produzidas pelo shakuhachi, a flauta tradicional japonesa.
Quem levou o instrumento para lá foi Shen Kyomei Ribeiro. Ele faz Bacharelado em Flauta Transversal na ECA, mas tem uma longa e reconhecida trajetória artística, tanto na flauta como no shakuhachi. Discípulo do “Tesouro Nacional Vivo” do Japão – título oficialmente atribuído a seu professor naquele país, Goro Yamaguchi –, reconhecido como a “reverberação do som na pedra” e honrado com o convite para se apresentar diante do imperador do Japão e de sua família, Shen carrega uma biografia de dedicação e amor não só à música, mas à cultura japonesa.
Shen Ribeiro (shakuhachi) e Amilton Godoy (piano) interpretam Travessia, de Milton Nascimento e Fernando Brant
O início da história está nos bancos de uma Igreja Católica franciscana de Botucatu, cidade do interior paulista onde nasceu José Vicente Ribeiro, descendente de portugueses e italianos. Shen, o nome artístico, veio de um apelido da infância. Em Botucatu, o garoto se encantava com a tradição dos cantos comunitários das missas. “Era uma igreja muito musical e as pessoas cantavam muito”, recorda. “Aquilo me marcou bastante. Eu ia à igreja com os meus avós, às vezes ajudava de coroinha. Nunca fui puxador de canto, mas aquilo ficou.”
O primeiro contato formal com a música veio aos 15 anos, quando Shen entrou para o Conservatório do Colégio Santa Marcelina de Botucatu. Apesar de o colégio ser um internato só para meninas, o conservatório aceitava homens, e Shen estudou lá piano, flauta doce e canto coral. Mas naquela época ele não via perspectivas sérias de se profissionalizar na música. Por isso, suas habilidades em desenho, estimuladas pelo curso técnico da Escola Industrial de Botucatu – atual Etec Dr. Domingos Minicucci Filho –, o levaram para o curso de Arquitetura da Faculdade Braz Cubas, em Mogi das Cruzes (SP), em 1980.
Não demoraria muito, contudo, para a música voltar a cruzar seu caminho. “Foi uma coisa engraçada, lá em um daqueles bares periféricos de Mogi das Cruzes. Eu estava em um boteco tomando café e havia um rádio ligado, que anunciou: ‘Abertas as inscrições para o Coralusp”, relembra Shen. Decidiu voltar a cantar. E partiu para São Paulo, matriculando-se no Coral da USP, o Coralusp. A partir daí, tudo mudou.
“Na hora em que ouvi aquele som, disse: nossa, isso é som de flauta! Achei! Agora, como é que vou chegar nisso?”
“O Coralusp agregava uma escola de música à atividade coral”, conta. “Lá eu vi como um programa de música era montado: escolha de repertório, ensaios, apresentação final.” Comparando essa dinâmica com as atividades que já vinha desenvolvendo e estudando no curso de Arquitetura, entendeu qual era o seu lugar. “O que achei interessante foi a produção de um concerto, e isso me fez questionar muito a profissão de arquiteto.”
Após dois anos na graduação – incluindo algumas aulas como ouvinte na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP –, ele abandonou o curso e se mudou para São Paulo. Ingressou no Conservatório Musical Brooklin Paulista e na Escola Municipal de Música de São Paulo, passando a integrar, em 1984, a Orquestra Jovem do Theatro Municipal. Na época, havia escolhido como instrumento a flauta transversal, motivado pelo contato com o flautista Toninho Carrasqueira, que viria a se tornar professor da ECA em 1986.
Foi um período de estudo intenso, com mais de dez horas diárias de prática, que rendeu a Shen uma ascensão que ele mesmo classifica como meteórica. “O Theatro Municipal foi a minha casa”, diz. “Entre abandonar a arquitetura e começar a trabalhar profissionalmente, foram só três anos.” Nessa fase, Shen participaria do processo de profissionalização da Orquestra Jovem, que em 1990 acabaria se tornando a Orquestra Experimental de Repertório.
Shen Ribeiro interpreta ao shakuhachi Gion Kouta (Canção de Gion), música tradicional japonesa
Mas, antes disso, a vida de Shen tomaria outro e determinante rumo. Aos 27 anos, ele tinha reconhecimento, mas não estava satisfeito. O som da flauta transversal não era exatamente o que procurava. Passou a pesquisar as sonoridades de outros instrumentos, inclusive tradicionais e folclóricos, e acabou se deparando com uma certa gravação em um disco de vinil. Era o que havia passado a vida procurando. “Na hora em que ouvi aquele som, disse: nossa, isso é som de flauta! Achei! Agora, como é que vou chegar nisso?”
O que Shen havia encontrado era a flauta tradicional japonesa, o shakuhachi. Feito de bambu, ele é um instrumento de sopro que possui uma escala pentatônica, com cinco tons. Entrou no Japão vindo da China por volta dos séculos 7 e 8, como um instrumento da corte. Quatro ou cinco séculos depois, reapareceu como objeto das práticas meditativas dos monges zen-budistas. Hoje, é parte da música clássica japonesa, ao lado do koto e do shamisen.
O shakuhachi, a flauta tradicional japonesa – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Ainda hoje, o shakuhachi é construído de maneira artesanal, a partir de um bambu muito rígido chamado madake, que cresce no sul e em algumas regiões do norte do Japão. Ele é colhido verde e deixado para secar à sombra por anos, quando só então o processo propriamente de fabricação tem início. Alguns exemplares podem chegar a custar entre US$ 15 mil e US$ 20 mil.
Shen procurou descobrir quem era o intérprete daquela gravação e colocou na cabeça que seria seu discípulo. Ele estava atrás de ninguém menos que Goro Yamaguchi, mestre de shakuhachi e professor da Universidade de Artes de Tóquio, a Geidai. Yamaguchi era um músico veterano e influente, que teve até mesmo uma de suas gravações incluídas nos discos de ouro enviados com as sondas Voyager para os confins do Universo, em 1977, pela Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos. Seu prestígio era tamanho que em 1992 receberia do governo japonês o título de Ningen Kokuhô, “Tesouro Nacional Vivo”.
Entrando em contato com a comunidade japonesa no Brasil, Shen encontrou um professor de shakuhachi, fez algumas aulas introdutórias e conseguiu uma carta de recomendação para se tornar aluno de Yamaguchi. Assim, sem falar japonês e com um visto de trabalho válido por apenas seis meses, ele deixou tudo para trás e embarcou para o Japão em 1987.
Shen Ribeiro com o seu professor Goro Yamaguchi no Santuário Meiji, em Tóquio, no Japão – Foto: Acervo pessoal
Partitura de honkyoku, música original para shakuhachi, coletada no século 18 pelo monge samurai Kinko Kurosawa – Foto: Acervo pessoal
Aceito pelo mestre, passou a ter aulas particulares em sua casa, enquanto pagava as contas com a flauta transversal, tocando choro no Saci Pererê, restaurante dedicado à cultura brasileira que existe até hoje em Tóquio. Quando o visto de trabalho estava prestes a expirar, uma carta de recomendação de Yamaguchi o fez ser aceito na Geidai, onde Shen permaneceria por dois anos. “Aí é que entendi quem era meu professor”, comenta.
Foi graças ao shakuhachi que Shen descobriu a cultura japonesa. “O contato com a música oriental foi muito importante, porque eu vi um mundo que não era mostrado aqui no Brasil”, afirma. “Eu fui atrás de tocar esse instrumento e havia um Japão escondido atrás dele.” Shen permaneceu 13 anos no Japão. Nesse tempo, continuou se apresentando, gravou álbuns de flauta transversal e também com o shakuhachi e foi pioneiro em tocar música popular brasileira com o instrumento japonês, sobretudo versões de clássicos da bossa nova. “Eu acabei propondo um repertório”, aponta.
A despedida do país que adotou como lar veio de uma maneira dramática. Em 1998, Shen foi convidado por uma amiga para se apresentar em um sarau no qual a imperatriz Michiko também estaria presente. A imperatriz gostou da performance do brasileiro e se interessou por sua história, perguntando na saída se ele gostaria de se apresentar algum dia para seu esposo, o imperador Akihito. Na visão de Shen, a proposta não passava de mera cortesia.
Não era. No ano seguinte, enquanto passava férias no Brasil, Shen recebeu a notícia do falecimento de seu mestre Yamaguchi. Pegou o primeiro voo para o Japão e, enquanto ainda vivia o luto, recebeu uma ligação da Casa Imperial, convidando-o para aquela apresentação sugerida pela imperatriz. Obviamente, aceitou o convite.
"Eu não procurei o exotismo, eu não estava atrás de um sonho. Eu estava atrás de um som, e continuo atrás dele."
Dias depois, Shen atravessava os portões do Palácio Imperial e se via em meio a uma reunião informal, para poucos convidados. “Era um jantar, não um encontro institucional, uma reunião da família do imperador com as filhas. Foi cinematográfico”, conta. Daquele dia, duas lembranças permaneceram muito fortes na memória. “Eu me lembro, em primeiro lugar, de não revistarem minha bolsa. Disso eu nunca me esqueço. A segunda lembrança é do cheiro do pinho, da madeira, a limpeza do ar. Foi o ar mais limpo que eu respirei na minha vida.”
Yamaguchi já havia sugerido ao discípulo que era preciso deixar o país e levar o shakuhachi para o mundo. Com a morte do mestre e o encontro com a família imperial, os sinais pareciam claros. “Foi simbólico, porque fechou o ciclo da minha estadia no Japão”, comenta. “Meu professor foi embora me jogando uma missão na mão e sou convidado para tocar para o imperador. O que me faltava na sociedade japonesa?”
Formado pela Universidade de Artes de Tóquio, no Japão, e mestre em shakuhachi, Shen Ribeiro recebeu oficialmente o título de Kyomei, que significa "reverberação do som na pedra" – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Por três anos, Shen morou na Europa, desenvolvendo projetos com a União Europeia. Depois regressou ao Brasil, sem deixar de visitar regularmente o Japão. Dentre os diversos encontros que o retorno ao país natal proporcionou, Shen conheceu o pianista, compositor, maestro e arranjador Laércio de Freitas, marco importante em sua vida musical. Em 2013, após prestar exame de proficiência, tornou-se mestre em shakuhachi, recebendo o direito de dar aulas em qualquer faculdade do Japão, e também o título de Kyomei, que significa “reverberação do som na pedra”.
De lá para cá, passou a acumular reconhecimentos e condecorações por seu trabalho com o shakuhachi e pela divulgação da cultura japonesa. Em 2017, assumiu a vice-presidência do Pavilhão Japonês do Parque do Ibirapuera e, no ano seguinte, recebeu o Diploma de Honra ao Mérito do Cônsul-Geral do Japão. Além disso, Shen é presidente da Associação Brasileira de Música Clássica Japonesa, a Hougakukai. E, neste ano, acaba de ser agraciado com outro Diploma de Honra ao Mérito, desta vez do ministro dos Negócios Estrangeiros do Japão.
Mesmo com todos os títulos, Shen não se acomodou. Atualmente, ele cursa o último ano de graduação na ECA, onde entrou em 2022, aos 62 anos. Foi atrás do diploma universitário, que sua experiência profissional e a formação no Japão não garantem, pois a USP não reconheceu equivalência. Sua perspectiva é garantir a titulação para seguir com pesquisas na pós-graduação. Evidentemente, envolvendo o shakuhachi.
Shen Ribeiro, ao shakuhachi, e a Orquestra de Câmara (Ocam) da USP interpretam Kojo no tsuki (“A lua sobre o castelo em ruínas”), do compositor japonês Rentaro Taki (1879-1903), com arranjo de Yuri Behr
Shen explica que sua ideia é estudar a sonoridade do shakuhachi e mostrar como ele é capaz de melhorar a sonoridade da flauta transversal. “Algo também muito importante é a postura de estudo de um instrumento tradicional, que é muito diferente do sistema ocidental”, indica. “Esse será o ponto de virada para quem quiser se tornar um grande artista. Porque artista é artífice, artesão. E o que me impressionou no meu professor é que ele nunca se colocou à frente da música. Sempre colocou a música à frente e ele era o executor, o artesão fazendo música.”
Uma postura distinta daquela com a qual Shen estava familiarizado no Brasil e que custou a ser assimilada, faz questão de dizer. “Meu professor tocava muito bem, mas não tinha a menor necessidade de mostrar que ele era ‘o cara’. E isso foi muito difícil, porque, se eu estava estudando com ele, nunca poderia ser um artista, mas sim um artífice”, comenta. “Hoje eu aceitei o processo e estou feliz em ser um artesão da música.”
Shen Ribeiro, com o shakuhachi, em frente ao Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Enquanto segue os estudos na ECA, Shen também foi convidado para atuar como coordenador de Projetos da Orquestra Sinfônica da USP, a Osusp. Ele vem se dedicando à captação de recursos para o primeiro projeto da Osusp via Lei Rouanet. A proposta é reunir investimentos para a realização de concertos e a melhoria da infraestrutura da orquestra. Além disso, Shen já se apresentou com a Orquestra de Câmara da ECA, a Ocam, e não descarta novos projetos dentro da Universidade.
“O mais legal a cada som que toco é a procura por tocá-lo melhor”, reflete. “Isso é algo da filosofia zen. Porque nunca há um som igual. O shakuhachi é um instrumento vivo.” Não se trata da busca pela perfeição, salienta, mas a tradução prática de uma filosofia que busca sentido em cada repetição. “É um som novo a cada sopro.” Por isso, Shen se considera um praticante do zen. “Eu não procurei o exotismo, eu não estava atrás de um sonho. Eu estava atrás de um som, e continuo atrás dele.”
Shen Ribeiro e Laércio de Freitas em apresentação do projeto Instrumental Sesc Brasil
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