

Quando muitos de seus orientandos ainda iniciavam a carreira, Moisés já contribuía ativamente para o processo de transição democrática vivido pelo Brasil no final dos anos 1980. Seus trabalhos — especialmente Os dilemas da consolidação da democracia — ofereceram aportes diretos à reflexão sobre o novo regime, seja analisando a consolidação do Partido dos Trabalhadores, seja discutindo o parlamentarismo como alternativa institucional. Orientado por Francisco Weffort no doutorado em Ciência Política na USP, ambos integraram o grupo de intelectuais que participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, ator político central no processo de retomada do regime democrático.
Sempre movido pelo desejo de avançar na construção da democracia brasileira, Moisés permaneceu, ao longo de mais de três décadas, como olhar atento, voz ativa e interlocutor crítico de atores políticos e sociais. Entre suas obras de maior impacto está O futuro do Brasil – A América Latina e o fim da Guerra Fria, organizada com José Augusto Guilhon Albuquerque. Seu interesse acadêmico alcançava o tema das relações internacionais do Brasil, na medida em que buscava compreender como o País se inseria em um mundo globalizado e crescentemente interdependente.
Na coordenação do Programa de Política Internacional e Comparada, Moisés criou um ambiente intelectual vibrante, trazendo pesquisadores de vários países e ampliando horizontes para estudantes da pós-graduação em Ciência Política da USP. Muitos de nós nos beneficiamos desse espaço de formação, que oferecia acesso a debates e bibliografia em um período muito menos conectado do que hoje.
A partir dos anos 1990, dedicou-se também à condução de surveys de opinião pública, fundamentais para compreender o perfil da democracia brasileira, o comportamento eleitoral e a evolução dos partidos. Seu legado para a ciência política está registrado nos muitos livros e artigos publicados, nos estudantes que orientou — muitos dos quais se tornaram colegas e amigos — e na continuidade de sua agenda de pesquisa, tão necessária ao País.
Entre suas iniciativas mais recentes, destaca-se a coordenação da Corrupteca, uma biblioteca digital especializada em estudos sobre corrupção, criada para qualificar o debate público e fortalecer pesquisas sobre integridade, transparência e controle institucional. Os resultados desse projeto foram apresentados no artigo A corrupção na percepção da sociedade brasileira: persistência e resiliência, publicado em 2023, em coautoria com Emmanuel Nunes de Oliveira, na revista acadêmica Opinião pública, uma das mais prestigiadas na área da ciência política.
A contribuição de José Álvaro Moisés para a ciência política brasileira é profunda, especialmente no campo da cultura política. Entre suas inúmeras publicações, destacamos o livro A desconfiança política e seus impactos na qualidade da democracia, organizado com Rachel Meneguello e publicada pela Edusp.
Formado em Ciências Sociais pela USP, mestre em Política e Governo pela Universidade de Essex e doutor em Ciência Política pela USP, Moisés foi professor visitante no Centro Latino-Americano da Universidade de Oxford. Nos últimos anos, era professor sênior no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, onde coordenava o projeto Qualidade da Democracia e integrava o Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas (NUPPs), que dirigiu por duas décadas, com apoio da Fapesp.
Na Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), coordenou a área de Cultura Política e Democracia entre 2006 e 2012. Foi membro do Comitê Executivo da International Political Science Association e do International Social Science Council. Atuou ainda como secretário nacional de Apoio à Cultura e de Audiovisual no Ministério da Cultura durante o governo Fernando Henrique Cardoso.
Trinta anos após a redemocratização, processo ao qual dedicou energia decisiva, Moisés seguia atento aos desafios contemporâneos da democracia. Era integrante do movimento “Direitos Já! Fórum pela Democracia”, iniciativa da sociedade civil em defesa do Estado Democrático de Direito. Seu pensamento sempre nos deslocava do conforto, instigando reflexões sobre políticas públicas e qualidade democrática.
Suas análises, sempre inovadoras e provocadoras, podiam ser acompanhadas em sua coluna quinzenal na Rádio USP. Em sua última participação, José Álvaro Moisés refletiu sobre a percepção de um retrocesso brasileiro em aspectos centrais do funcionamento democrático, mas também destacou iniciativas iniciadas em 2025 voltadas à recuperação e ao fortalecimento das instituições, fundamentadas no compromisso político com o interesse público.
A USP perde um dos seus grandes intelectuais, referência incontornável para os estudos sobre a democracia no Brasil. O seu legado seguirá, contudo, como referência central para a formação das novas gerações de cientistas políticos e sociais brasileiros.
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