Mecanismo de ação de quimioterápicos comuns afeta contração rítmica do coração

Efeito adverso já conhecido do tratamento oncológico foi investigado por pesquisadores sul-americanos, revelando interação dos medicamentos com células musculares cardíacas

 Publicado: 25/03/2026 às 7:52

Texto: Tabita Said*
Arte: Gustavo Radaelli**

mulher jovem, usando luvas brancas manipula dois frascos de medicamentos em ambiente laboratorial

Uso combinado da doxorrubicina e da vincristina pode amenizar danos ao músculo cardíaco – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O tratamento do câncer carrega um desafio difícil de conciliar: o uso de medicamentos que combatem a doença pode provocar danos ao coração. A cardiotoxicidade é um efeito colateral já conhecido do tratamento com quimioterápicos, afetando diretamente importantes estruturas musculares cardíacas ou o sistema de pulsos elétricos. Uma nova pesquisa, publicada na revista científica Langmuir, da American Chemical Society (ACS), ajuda a entender melhor diferentes mecanismos de cardiotoxicidade e abre caminho para tratamentos mais seguros no futuro. O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Antioquia (Colômbia) e do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP.

O estudo investigou a interação do cloridrato de doxorrubicina e do sulfato de vincristina – dois medicamentos quimioterápicos comuns para o tratamento de diversos tipos de câncer – com a membrana celular dos cardiomiócitos, células musculares especializadas do coração responsáveis por produzir a força contrátil que gera a pressão arterial e garante a circulação sanguínea. Essa “capa” funciona como uma barreira protetora e também como uma central de comunicação, controlando o que entra e sai da célula. Entretanto, pequenas mudanças em suas propriedades físicas podem afetar o funcionamento do coração ao longo do tempo.

Os pesquisadores identificaram que a doxorrubicina age diretamente alterando as propriedades físicas da membrana celular, diminuindo a rigidez da camada externa (-12%) e da interna (-30%). A redução de rigidez prejudica a contração, a integridade da célula e sua resistência ao estresse, levando à perda de força contrátil semelhante ao que ocorre em casos de insuficiência cardíaca e infarto. Já a vincristina não altera diretamente a membrana, mas demonstrou um aumento de 17% na rigidez da camada externa – efeito oposto ao da doxorrubicina, o que pode explicar parcialmente seu efeito protetor.

O trabalho confirmou, do ponto de vista microscópico, o que médicos já haviam observado empiricamente: um tratamento associando as duas drogas pode diminuir os efeitos colaterais da cardiotoxicidade.

Técnica inovadora

Para testar os efeitos dessa interação, a pesquisa criou modelos simplificados de membranas celulares, usando uma técnica chamada monocamadas de Langmuir – nomeada em homenagem a Irving Langmuir, Nobel de Química em 1932.

“Dentre os diversos modelos simplificados utilizados pelos cientistas para investigar o efeito de medicamentos nos lipídeos da membrana, os mais utilizados são lipossomos (bicamada esférica contendo apenas lipídeos), bicamadas lipídicas suportadas em um sólido, e os filmes de Langmuir. Estes últimos são uma única camada de lipídeos que flutua na superfície da água, de um tipo só ou uma mistura de lipídeos para imitar a composição de cada membrana”, descreve Paulo B. Miranda, professor do IFSC e autor correspondente do artigo.

No modelo inédito, os cientistas montaram duas estruturas que imitam as camadas interna e externa da membrana dos cardiomiócitos, usando composições baseadas na membrana cardíaca real. Depois, testaram as drogas em condições que simulam o ambiente fisiológico.

Paulo Barbeitas Miranda – Foto: Lattes

“Os filmes de Langmuir apresentam a vantagem de poderem ser estudados com diversas técnicas experimentais complementares, fornecendo assim informações mais detalhadas sobre como as moléculas na água – como medicamentos e proteínas interagem com os lipídeos – e permitindo construir um modelo dessa interação a nível molecular”, afirma Miranda ao Jornal da USP.

Outro achado interessante dos pesquisadores foi observado na organização molecular da camada externa da membrana cardíaca. A doxorrubicina reduziu a desordem dos lipídios – paradoxalmente “organizando” as cadeias lipídicas, mas ainda assim deixando a membrana, como um todo, menos rígida.

Apesar da abordagem inovadora, o uso de modelos simplificados, e não células reais, é uma das limitações do estudo, que não avaliou os efeitos diretos em mitocôndrias – as usinas de energia das células. “Moléculas grandes (como as proteínas de membrana) podem não se inserir no filme de Langmuir da mesma maneira que na bicamada”, exemplifica o professor. No entanto, o estudo conseguiu obter insights sobre interações moleculares que podem ser relevantes para sistemas biológicos. “Pudemos combinar medidas de tensão superficial, de elasticidade dos filmes e experimentos termodinâmicos clássicos com microscopia óptica e espectroscopia vibracional (medida das vibrações dos lipídeos)”, destaca.

Além da necessidade de testes em células cardíacas reais, os pesquisadores apontam o interesse em investigar a interação com cada lipídio das membranas cardíacas, individualmente: “Uma investigação detalhada da interação dos fármacos com cada componente lipídico dentro da monocamada mista é um ponto interessante, que será objeto de estudos futuros”.

O artigo The Anticancer Drugs Doxorubicin and Vincristine Differently Impact the Stiffness of Langmuir Monolayers that Mimic the Cell Membrane of Cardiomyocytes está disponível neste link.

Com informações de Rui Sintra, da Assessoria de Comunicação do IFSC

**Estagiário sob orientação de Simone Gomes


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