Como a ciência cidadã pode transformar a relação das pessoas com as cavernas

Pesquisa desenvolveu um “passo a passo”, apontando diretrizes, desafios e indicadores para a aplicação da prática

 Publicado: 26/03/2026 às 8:00

Texto: Yasmin Constante*

Arte: Daniela Gonçalves**

Como a ciência cidadã pode transformar a relação das pessoas com as cavernas

Pesquisa desenvolveu um “passo a passo”, apontando diretrizes, desafios e indicadores para a aplicação da prática

 Publicado: 26/03/2026 às 8:00

Texto: Yasmin Constante*

Arte: Daniela Gonçalves**

A pesquisa foi conduzida na região do Vale do Ribeira, no Estado de São Paulo – Foto: Wikimedia Commons

Um estudo da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP traz propostas para estimular a aproximação da população de ambientes cavernícolas. O projeto avaliou o potencial do auxílio dos cidadãos no monitoramento e desenvolveu um protocolo para a aplicação da prática em cavernas. Se implementados, os resultados podem tornar a ciência cidadã – parte do processo científico feita por não cientistas – mais presente nesses locais.

Através da pesquisa, descrita em artigo na revista Ambiente & Sociedade, foram identificadas 17 boas práticas, 20 desafios e 13 indicadores de monitoramento participativo para o uso público desses ambientes, o que permitiu mapear as lacunas e pode ajudar a traçar novos caminhos para a ciência cidadã no Brasil. A ideia é estabelecer a prática como uma base para a obtenção de dados seguros, que auxiliem a conservação e a gestão ambiental.

Gabrielle Nunes, doutora em Ecologia e primeira autora do trabalho, se dedicava a descrever seres vivos exclusivos de ambientes cavernícolas até que começou a olhar para a necessidade um outro tipo de participação. Durante o  mestrado, ficou mais forte a noção de que “não bastava só trabalhar com a fauna, tínhamos que começar a incluir gente nessa equação se quiséssemos conservar esses ambientes”, relata. Assim, a pesquisa foi guiada pela pergunta: como incluir as pessoas no fazer da ciência?

Gabrielle Abreu Nunes – Foto: Linkedin

Victor Ranieri, docente da EESC e orientador da pesquisa, diz que o trabalho propõe um guia prático, ao definir etapas para a implementação que passam “desde a escolha da abordagem adequada e identificação dos atores e níveis de participação até o compartilhamento com os cidadãos participantes dos resultados”.

O professor afirma que a participação ativa permite que a população aprenda sobre o método científico e os conceitos ecológicos na prática.

“Esse processo promove a compreensão da importância do monitoramento e desperta a consciência ambiental, transformando observadores em guardiões do patrimônio natural”, completa.

A pesquisa é pioneira neste contexto e tem seu ineditismo destacado por Gabrielle Nunes: “Existem projetos semelhantes rodando no Brasil todo dentro de unidades de conservação, de áreas protegidas, mas a gente nunca teve, e no mundo não tem, um protocolo para [prática da ciência cidadã] dentro das cavernas em si”.

A imagem contém um homem, ele tem cabelos e barba grisalha e usa terno.

Victor Ranieri – Foto: Lattes

O Vale do Ribeira

A área estudada foi o Vale Ribeira, um dos maiores complexos de ambientes subterrâneos no Brasil. O levantamento incluiu dados dos quatro principais parques estaduais da região: Parque Estadual de Intervales, Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira, Parque Estadual Caverna do Diabo e Parque Estadual Carlos Botelho.

Gabrielle Nunes explica que o desenvolvimento do passo a passo levou em consideração a sensibilidade dos espaços, com um entendimento de que nem todos os locais são adequados para a inclusão dos não cientistas. A ideia é garantir que não ocorram acidentes com as pessoas ou com o ambiente.

“O estudo avança nessa discussão de começar a pensar uma diretriz e um protocolo para que as pessoas façam [ciência cidadã nas cavernas] de forma segura e que a gente tenha dados robustos para desenvolver a ciência”, diz ela.

Planejamento e implementação

Segundo a pesquisadora, estudos de biologia subterrânea alertam há anos sobre deficiências no monitoramento ambiental desses ambientes no Brasil. Os ecossistemas subterrâneos, apesar de frágeis, podem contribuir para gestão do armazenamento estratégico de água, como a recarga de aquíferos, e para levantamento de registros arqueológicos e geológicos. Mas, para isso, precisam contar com formas eficientes de monitoramento. “A ciência cidadã consegue aproximar essas pessoas da gestão [dos Parques Estadais] e principalmente reduzir conflitos [nesta gestão]”, explica Gabrielle Nunes.

A formulação do protocolo consistiu em duas etapas: a revisão bibliográfica e a aplicação de um questionário com especialistas. A revisão englobou a análise de conteúdo de pesquisas publicadas entre 2009 e 2019 e dos planos de manejo de cada unidade. Após a consolidação dos dados obtidos, foi elaborado um questionário para especialistas organizado em seções sobre desafios, boas práticas e recomendações.

A pesquisadora explica que a revisão permitiu que o trabalho fosse feito sobre uma base sólida. Ainda que não tenham sido encontrados artigos que abordassem a ciência cidadã especificamente no contexto de cavernas, como destaca Victor Ranieri, o trabalho pôde avaliar boas práticas ao redor do mundo e adaptá-las para o contexto brasileiro. As experiências prévias somadas às respostas dos especialistas tornaram possível a definição de um protocolo seguro.

Entre as respostas, parte das boas práticas converge com o que foi encontrado internacionalmente, mas outras foram específicas para desafios nacionais. Como resultado, foram indicadas: a transparência de dados; o estabelecimento de protocolos bem definidos; a variabilidade no perfil de quem coleta os dados; e a avaliação de como os programas são percebidos pelos participantes.

Os planos de manejo dividem os indicadores, em geral, nas categorias: sociais ou antrópicos, bióticos, físicos ou abióticos e climáticos, com o último sendo exclusivo do Parque Estadual de Intervales. As análises da pesquisa resultaram na definição de seis indicadores sociais, como danos à estrutura; quatro indicadores bióticos, como alterações na composição da fauna; oito indicadores físicos, como a qualidade da água; e quatro indicadores climáticos, como a temperatura.

Os levantamentos de indicadores de monitoramento ambiental apontaram quais deles poderiam ser monitorados por cidadãos comuns e demonstraram resultados positivos na maior parte dos casos, desde que os participantes estejam acompanhados ou tenham realizado um treinamento básico. “Se existem pessoas constantemente naquele ambiente, olhando para esses indicadores, temos uma quantidade de dados muito grande para apoiar tomadas de decisão, sem necessariamente que o gestor esteja ali”, completa o professor.

A coleta de dados favorece o ambiente e os cidadãos cientistas de maneira mútua. Segundo Ranieri, “os participantes beneficiam-se do reconhecimento público de suas contribuições, que pode ocorrer por meio de coautorias em publicações, menções em eventos científicos ou certificados. Além disso, passam a se sentir relevantes na tomada de decisão, influenciando as políticas de gestão das unidades de conservação onde atuam”, explica ele.

A pesquisa foi a primeira a avaliar o potencial de ciência cidadã em cavernas – Foto: Wikimedia Commons

Desafios sociais

Os resultados também mostraram desafios, que trouxeram à tona questões da região, como o aliciamento por parte do crime organizado, o baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e a disponibilidade limitada de infraestrutura para coleta e transmissão dos dados. Situações como essas resultam, por exemplo, em mão de obra reduzida dentro de cargos de gestão e operacionais nessas áreas.

Segundo a pesquisadora, é necessária a construção de abordagens sensíveis que reflitam a realidade local. “As comunidades locais muitas vezes não têm tanto acesso à internet, não têm tanto acesso a materiais. A gente vivenciou muitos projetos tentando fazer isso de forma remota, mas isso não funciona em alguns contextos”, aponta.

São as práticas de ciência cidadã que possibilitam maior visibilidade para estes ambientes, permitindo que a comunidade local participe do processo científico.

“A partir da publicação desses dados e do avanço dos projetos, a gente consegue chamar mais a atenção dos governantes e tomadores de decisão para os problemas que acontecem ali, para além da conservação ambiental. Conservação ambiental sem justiça social não é possível”, pontua Gabrielle Nunes.

Para ela, a principal recomendação é entender os desafios dos locais investigados. Este é o ponto de partida para o desenvolvimento de pesquisas sérias que dão visibilidade para questões socioambientais. E se os obstáculos não forem incluídos no planejamento, podem inviabilizar os projetos que envolvem a ciência cidadã.

O artigo A Ciência Cidadã como Abordagem Promissora para o Monitoramento de Cavernas em Áreas Protegidas está disponível neste link.

Mais informações: gabinunes.bio@usp.br, com Gabrielle Nunes

*Estagiária sob orientação de Luiza Caires

*Estagiária sob orientação de Simone Gomes


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