



Dito de outra maneira, apesar da clareza conceitual que nos move à determinação social e à promoção da saúde, por exemplo, a agenda política e a práxis institucional insistem em restringir a prática de saúde à urgência do aparato hospitalar e à quietude do consultório. Sua leitura hegemônica tende à redução: é ausência de patologia, é gestão individualizada de fatores de risco ou, na sua formulação mais limitada, é mera responsabilidade comportamental — em que o coletivo e o político produtores de vidas são horizontes distantes demais para requererem articulações e ações mais imediatas.
Com base nisso, a disciplina Promoção da Saúde, Comunicação e Educação em Saúde, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, propõe a disputa do imaginário social da saúde — que requer dos alunos e de professores um diálogo guiado por fortes recursos teóricos, mas também ações no território e na vida social. O compromisso é com a práxis— a ação informada pela reflexão crítica — que exige da Universidade de São Paulo passos decisivos para fora de seus muros.
Disputar esse imaginário é ampliar os conceitos, as práticas e as definições correntes sobre saúde. A saúde, nessa perspectiva, é um bem público socialmente produzido, forjado na disputa entre redes sociais e interesses, conforme preconiza a Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS). A Promoção da Saúde não é um catálogo de “medidas certas”, mas um processo contínuo de geração de potência, capaz de articular ativos e saberes que emergem da vida e da luta pela dignidade.
A andança pela metrópole: a leitura concreta da iniquidade e da potência
Propomos aos alunos a realização de andanças semióticas na cidade de São Paulo; e, a partir dessa experiência, a produção de um dispositivo comunicacional que disputasse o imaginário social da saúde a partir dos eixos teórico-práticos da promoção da saúde. Os estudantes confrontaram a cidade como um documento material de iniquidades explícitas, mas também de potencialidades. A pergunta de fundo que emerge do chão é: a partir da práxis da promoção da saúde, de que forma São Paulo pode ser um espaço produtor de vida para todos os seus habitantes?
A andança serviu como método de imersão, transformando o espaço em objeto de estudo. Nesta atividade, os alunos foram instigados a realizar uma leitura semiótica do espaço urbano, analisando a arquitetura e a vivência dos trajetos e como o concreto da cidade comunica (ou silencia) sobre a saúde. A diversidade dos roteiros — que incluiu desde as regiões centrais até o território de Heliópolis — buscou expor a transversalidade das questões de saúde nos diferentes contextos sociais.
Para estruturar a práxis de intervenção, os estudantes foram organizados em cinco grupos, cada um recebendo um mote que vincula a observação empírica a um pilar conceitual da disciplina, mobilizando a teoria para a ação concreta:
| Mote da Intervenção | Pilar Conceitual |
| Política é mais do que você imagina | Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS) |
| Saúde é mais do que você imagina | Conceito Ampliado de Saúde |
| Desenvolvimento é mais do que você imagina | Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) |
| Fragmentação é mais do que você imagina | Intersetorialidade |
| Injustiça é mais do que você imagina | Determinantes Sociais da Saúde |
A partir dessa triangulação (mote-conceito-andança), cada grupo desenvolveu um dispositivo comunicacional de intervenção direcionado à questão de saúde identificada.
O zine de um dos grupos, por exemplo, disputou a saúde a partir da escala — se sentir pequeno em meio à dimensão da metrópole. Trata-se de uma dimensão sutil, captada pela imagem — “não é que seja horroroso, é que é muito grande” —, isso disputa tanto um simplismo da metrópole ser feia e caótica, quanto produz reflexões a partir da sensação de andar pela cidade com foco no pertencer. O zine não se limita ao denuncismo ou à crítica, mas leva a uma reflexão sobre como crenças sobre a cidade podem mediar a produção de vida e de saúde. A partir da andança, os alunos foram capazes de articular uma visão singular e única sobre o que a cidade evoca.
A disputa epistemológica: a Medicina Social Latino-Americana
O desafio de disputar o imaginário social da saúde exige uma profunda mutação conceitual. A leitura da saúde apenas pela lente dos Determinantes Sociais da Saúde (DSS), que frequentemente os reduz a fatores isolados a serem corrigidos, é insuficiente.
A disciplina adota a crítica da Medicina Social Latino-Americana (MSAL), cujos autores, como Jaime Breilh, Asa Cristina Laurell e Ricardo Navarro, apontam o risco de neutralização política do modelo DSS. Em contraposição, adota a análise da Determinação Social do Processo Saúde-Doença.
A Determinação Social exige a crítica aprofundada das relações de poder, das estruturas de dominação (classe, gênero, etnia) e dos padrões de acumulação de riqueza e de outros capitais importantes para o pleno exercício da vida e da cidadania. Isso envolve inclusive novas aproximações epistemológicas, que envolvem a práxis, as sensações e novas formas de pensar sobre o espaço.
Inovação comunicacional: Redes sociais, aplicativos, jogos e zines
A comunicação, nessa práxis, não é acessória, mas a ferramenta central para a disputa do imaginário. Os dispositivos criados pelos estudantes ilustram essa potência e a capacidade de traduzir a teoria para a linguagem acessível e engajadora. Os trabalhos foram diversos:
• Perfis em Redes Sociais: Uso estratégico do Instagram com tom documental e de denúncia para gerar reflexão crítica sobre a fragmentação da cidade. Exploração do TikTok para promover conteúdos interativos e fomentar o debate sobre o comércio urbano de alimentos na zona central.
• Zines Políticos e Jogos On-line: A produção de zines confeccionados manualmente, que remetem a protestos e discussões sobre saúde mental, e o jogo online (exemplo: sobre Heliópolis) que usou programação para gerar engajamento territorial, demonstram o protagonismo do aluno na criação de dispositivos de conscientização.
• Apps Dialógicos: Aplicativos informatizados focados em práticas saudáveis que se inspiraram em dinâmicas de comunidade para promover a reflexão coletiva e combater o sedentarismo de maneira dialógica.
Essas propostas, que transitam entre o analógico e o digital, corroboram a análise de Lúcia Santaella sobre a cibercultura, demonstrando que a tecnologia pode ser um vetor de empoderamento e conscientização se a linguagem for utilizada para gerar engajamento crítico, em vez de apenas entretenimento.
Práxis insubordinada e o esperançar
A jornada dos estudantes da FSP transcende o domínio meramente acadêmico; é um convite concreto à ação. A práxis que reivindicamos é insubordinada. Ela exige que, a partir da crítica rigorosa à inércia institucional (aquela que se restringe ao consultório), todo o corpo da USP—alunos, professores, pesquisadores—rompa a simetria distante e lance sua capacidade técnica e ética sobre as zonas de exclusão. A transformação é um movimento coletivo que exige persistência e construção diária. Como nos ensina o Mestre Paulo Freire:
________________“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…”.
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