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Coleção resgata a trajetória de pesquisadoras brasileiras na comunicação
Derivada de um projeto internacional, “Mulheres da Comunicação” documenta a história das mulheres que fundaram e consolidaram a área no Brasil
A pesquisa acadêmica da comunicação no Brasil é uma área relativamente recente – não chega a seis décadas. Mas é muito importante contar a trajetória de pesquisadores e pesquisadoras que têm se dedicado a deslindar e explicar o universo comunicacional no País. Uma ação nesse sentido é a publicação on-line da coleção “Mulheres da Comunicação”, lançada recentemente, e que apresenta 435 pesquisadoras da comunicação das cinco regiões brasileiras – cada volume é dedicado a uma região.
A coleção de livros “Mulheres da Comunicação” é um desdobramento de um esforço coletivo liderado internacionalmente pelo colombiano Omar Rincón. No Brasil, o projeto – que tem como objetivo resgatar as trajetórias de pesquisadoras da comunicação na América Latina – foi coordenado por Nilda Jacks, Lirian Sifuentes e Guilherme Libardi. Os últimos volumes brasileiros, dedicados às regiões Nordeste e Sudeste, foram publicados em dezembro de 2025. A coleção foi o ponto de partida para outros trabalhos sobre a presença feminina na comunicação no Brasil.
Rincón iniciou o projeto com o livro Mujeres de la comunicación (2020). A motivação surgiu quando ele notou que a maioria dos cursos de comunicação só tinha pesquisadores homens, no geral estrangeiros, nas referências bibliográficas. Para o primeiro volume da coleção publicado na Colômbia, Rincón convidou duas brasileiras: Nilda Jacks, da UFRGS, e Maria Immacolata Vassallo de Lopes, da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP). Jacks explica que o critério de escolha de Rincón foi “afetuoso”. A partir dessa perspectiva geral, as homenageadas de alguns países tiveram a iniciativa espontânea de produzir outros volumes, dessa vez específicos para cada nação, sendo os primeiros do México e da Argentina. Hoje, a coleção, que engloba vários países latino-americanos e tem o mesmo nome, já conta com 13 volumes.
Jacks ficou responsável pela produção da obra brasileira. A pesquisadora decidiu separar o conteúdo em cinco volumes, um para cada região do País. “Eu não queria escrever sobre as obras de algumas mulheres, as mais famosas, as que mais circulavam.” E era isso que aconteceria se as regiões não fossem separadas, dado o histórico de centralização no Sudeste. Jacks não queria reafirmar essa hegemonia: “É uma maneira de descentralizar e de dar visibilidade, não só regional, mas nacional. Fazer toda essa mulherada circular.” Foi ela que convidou Lirian Sifuentes e Guilherme Libardi para integrarem a coordenação ao seu lado.
Diferente de Mujeres de la comunicación, Jacks estabeleceu um roteiro que destaca a vida das mulheres, não só suas contribuições acadêmicas, por meio das bionotas — breves descrições bibliográficas. A ideia era que pesquisadoras emergentes de cada região escrevessem sobre a vida das fundadoras e consolidadoras que abriram o caminho no campo.
Nilda Jacks – Foto: Reprodução/Instagram
Assim surgiu uma das maiores dificuldades desse extenso trabalho: escolher os nomes. Nilda Jacks explica que tudo começou com questionários on-line, que ficaram três meses em circulação nos sites da Compós — a Associação dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação — e da Intercom, a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Neles, as pesquisadoras e professoras foram indicadas por colegas. O desafio em algumas regiões foi a escassez de respostas e engajamento. “Isso mostra o quanto essas mulheres, na verdade, não circulam nacionalmente. Elas têm um papel importante regional, mas nacionalmente elas têm pouca visibilidade.” Diante da ausência de indicações em alguns estados, o trio responsável pela coordenação decidiu mudar de estratégia e convidar coordenadores para cada região.
O papel dos coordenadores regionais foi o de checar e complementar a listagem inicial. Depois do procedimento on-line e da complementação, a lista foi enviada para três pesquisadores de cada região, que puderam opinar se os nomes selecionados faziam sentido ou se faltava alguém. Feito isso, mais duas pessoas receberam a lista regional atualizada antes da consolidação. Esse sistema de checagem serviu para evitar ao máximo “injustiças”, o que é difícil em um país grande como o Brasil. Só o processo de formação dessa equipe durou um ano.
A ordem em que as pesquisadoras aparecem nos livros está relacionada ao início das suas respectivas carreiras como professoras universitárias. No começo do capítulo de cada Estado há uma introdução própria, que Jacks considera uma ideia inovadora, uma vez que ainda não existiam textos sobre a história da comunicação em vários desses estados.
O livro dedicado ao Sudeste foi lançado em dezembro de 2025, sob coordenação regional de Gisela Castro (ESPM), Gabriela Alves (UFES) e Vanessa Veiga (UFMG). As bionotas são precedidas por apontamentos iniciais sobre a trajetória acadêmica das mulheres na região e pelo texto “O campo da comunicação na região Sudeste”, de Marialva Barbosa, professora titular de jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Nele, a pesquisadora apresenta os números relacionados à área, como a quantidade de programas de pós-graduação em Comunicação no Sudeste e a presença feminina na docência deles — separados por Estado. O Rio de Janeiro lidera a porcentagem de mulheres docentes, com 54,81%, seguido por Minas Gerais (50%), São Paulo (48,57%) e Espírito Santo (37,5%).
O projeto foi financiado pelo Centro de Pensamento em Comunicação da Fundação Friedrich Ebert para América Latina (FES Comunicación), que produzia conhecimento sobre a comunicação como estratégia para o diálogo político. Omar Rincón era o presidente durante a realização do projeto. Atualmente, a seção da fundação alemã está fechada porque o orçamento para pesquisa de comunicação na América Latina foi descontinuado – os cinco volumes dedicados ao Brasil da coleção foram os últimos financiados pela fundação.
A repercussão da coleção foi tão positiva que ela se tornou o ponto de partida para outros livros — específicos para cada Estado. Esse movimento foi incentivado por Jacks, que explica que muitas bionotas tiveram que ser reduzidas para se encaixarem nas publicações. Por isso o incentivo para que pesquisadoras de cada Estado fizessem uma publicação particular — não associada à Fundação — com as bionotas originais, sem cortes. Alguns desses livros já estão em produção.
O papel da ECA no campo da comunicação
No livro do Sudeste, 28 pesquisadoras que são ou foram docentes da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP foram contempladas. Entre elas, Clotilde Perez, professora titular e atual diretora da escola, Mayra Rodrigues Gomes e Jeanne Marie Machado de Freitas, entre muitas outras. Aparecem também na seleção as jornalistas Dora Mourão, atual diretora da Cinemateca e Professora Emérita da ECA, e Cremilda Medina, professora aposentada da escola que fez grandes contribuições teóricas ao Jornalismo.
Os artigos e livros de Mayra Rodrigues Gomes, mestre e doutora pela ECA, publicados desde o início dos anos 2000, “contribuem para a análise dos meios de comunicação a partir dos discursos, narrativas e as formas de materialização dos imaginários sociais”, como pontua Eliza Bachega Casadei na bionota. Gomes é professora titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da USP e coordena o grupo de pesquisa MidiAto Estudos de Linguagem: Práticas Midiáticas, ao lado da professora livre-docente Rosana Soares, que também figura no livro.
Jeanne Marie Machado de Freitas participou de levantes contra a ditadura militar no período em que cursava a pós-graduação na ECA. Concluiu o doutorado em 1986, mas já havia ingressado na docência em 1978 como professora assistente do Departamento de Jornalismo e Editoração. Tornou-se livre-docente em 1989 e professora titular em 1992. Jeanne Marie faleceu em São Paulo, em 2009, deixando “um exemplo bem-sucedido da árdua tarefa de cruzar conceitos de diferentes campos de saber com o objetivo de obter captações e análises mais refinadas”, como escreve Gomes na bionota.
Maria Aparecida Baccega também está na lista. Ingressou em Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, mas não conseguiu cursar a graduação porque foi presa pelo AI-5. Baccega conseguiu retornar à Universidade apenas em 1972 — começou em Letras e depois migrou para Linguística. Prestou concurso interno para a ECA em 1978 e, a partir desse momento, trabalhou com comunicação e linguagem até a sua aposentadoria. A professora faleceu em janeiro de 2020.
Alice Mitika foi estudante da primeira turma de Jornalismo da USP, em 1967. Paralelamente, Mitika, na época moradora do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp), começou a cursar História na FFLCH. Precisou interromper os estudos em Jornalismo após a invasão da ditadura militar ao Crusp, em dezembro de 1968. Durante a madrugada, tropas militares entraram na Cidade Universitária com tanques de guerra e metralhadoras. Estima-se que 800 estudantes residentes do Crusp foram presos naquele dia. Mitika retornou ao Jornalismo em 1970 e formou-se no ano seguinte. Já em 1972 tornou-se professora do Departamento de Jornalismo e Editoração. Em 2026, Mitika, com título de professora doutora sênior, ainda leciona uma disciplina optativa na ECA.
A Escola de Comunicações e Artes nasceu com o nome Escola de Comunicações Culturais (ECC), em 1966, por decreto do então governador de São Paulo, Laudo Natel. Os cursos disponíveis na época eram Jornalismo, Rádio e TV, Cinema, Teatro e Biblioteconomia. No entanto, as disciplinas eram as mesmas, ministradas em um anexo próximo à reitoria, que funcionava como um auditório. Havia apenas uma disciplina específica para cada habilitação, como explica Dulcília Buitoni, professora da ECA desde 1972, no livro. Foi apenas após a Reforma Universitária, em 1970, que a divisão em departamentos foi criada e a escola ganhou o nome atual. Ao longo daquela década, mais cursos foram adicionados à grade, entre eles Artes Plásticas, Música, Editoração e Turismo.
“As décadas de 1960 e 1970 foram de grande turbulência para a jovem escola, que reunia comunicadores, artistas e pesquisadores de ciências humanas”, relembra Buitoni. Em 1975, o então professor da escola Vladimir Herzog foi assassinado após ser torturado no DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna). A repercussão na ECA foi imediata: os alunos fizeram greve e perderam o ano letivo.
Ainda não havia professores titulares — não havia concurso —, então os docentes eram admitidos por contratos temporários de dois ou três anos. Muitos professores foram afastados da instituição durante a ditadura sob pretexto da falta de renovação do contrato, como foi o caso de Freitas Nobre e Paulo Emílio Sales Gomes. No final da década, com a anistia, professoras do Departamento de Jornalismo fizeram uma mobilização a favor da volta dos docentes que sofreram essa “cassação branca”.
Em 1972, a ECA foi pioneira com a criação do Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) em nível de mestrado. A partir de 1980, surgiu a possibilidade do Doutorado. O Programa foi um marco da área no Brasil. “Foi responsável pela formação de grande parte dos mestres e doutores em Comunicação do País, principalmente nas décadas de 1980 e 1990”, afirma Buitoni. A própria coordenadora nacional do projeto, Nilda Jacks, concluiu seu mestrado e doutorado na ECA.
Vanessa Veiga, coordenadora regional do Sudeste, destaca a relevância das obras: “Deixam uma mensagem muito positiva de reconhecimento e de valorização da produção das mulheres, em todos os campos da ciência”. Todos os volumes que integram a coleção “Mulheres da Comunicação – América Latina” podem ser acessados e baixados gratuitamente no site da Fundação Friedrich Ebert.
Confira abaixo todas as comunicadoras homenageadas da ECA:
*Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg
**Estagiária sob orientação de Moisés Dorado
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