A análise do contexto geológico de Namorotukunan permitiu que pesquisadores reconstruíssem o ambiente em que viviam esses hominídeos, entre o final do Plioceno e o início do Pleistoceno, há aproximadamente 2,75 milhões de anos. Os pesquisadores observaram que, nesse período, a Bacia de Turkana, onde está localizado o sítio arqueológico, passou de uma planície úmida e fértil para um local árido e instável. Para Palcu, as mudanças climáticas tornam a constância tecnológica ainda mais impressionante.
“A gente vê que o momento em que se encontra grande volume de ferramentas é imediatamente quando começa a ter uma crise climática”, observa. As mudanças forçaram os hominídeos ao improviso, principalmente em relação à comida e ao abrigo. “De uma certa forma, isso significa que, se esse é o início do uso constante da tecnologia, a nossa humanidade é a ‘criação’ de uma crise climática. Se tratava de um grupo com pouca capacidade cognitiva, mas que se juntaram e passaram o conhecimento de um para o outro para sobreviver. E eu acho que isso é uma lição para nós”, conclui Palcu.
“Somos filhos de uma crise climática. Agora entramos em outra — e ninguém sabe que humanidade vai emergir. Acredito que, como tantas vezes aconteceu ao longo da nossa história evolutiva, sairemos transformados e, espero, mais preparados para cuidar deste mundo que molda quem somos” – Dan Palcu
Não se sabe ao certo a qual grupo de hominídeos esses artefatos pertencem, por tratar-se da “zona cinzenta” da pré-história, isto é, período em que registros arqueológicos são escassos, os fósseis de primatas encontrados são fragmentos limitados e mal preservados — o que explica a insegurança de paleoantropólogos em classificá-los. Os pesquisadores têm suas hipóteses: se as ferramentas não foram feitas por um Homo primitivo, o outro candidato mais provável seria o Australopithecus.
Uma das especulações de Palcu é o A. afarensis, do gênero Australopithecus. Ainda assim, ele percebe certa relutância da comunidade acadêmica com a hipótese. “Acredito que os Australopithecus foram injustiçados por décadas. Existe um viés antropocêntrico — um ‘preconceito’ acadêmico — que reluta em aceitar que a tecnologia possa ter surgido fora da nossa linhagem direta”, afirma ele. “Se aceitarmos isso, a história da inteligência tecnológica torna-se muito mais antiga.”
A expectativa é que a resposta seja definida em breve. Em 2025, a equipe encontrou a parte inferior de um crânio, que, diferentemente de outros achados, está bem preservado. Agora, com a colaboração do Instituto Max Planck, na Alemanha, eles trabalham para determinar a espécie exata: “Estamos com os dedos cruzados, pois este achado deve finalmente revelar quem eram os verdadeiros artesãos dessas ferramentas no leste de Turkana”.
O artigo Early Oldowan technology thrived during Pliocene environmental change in the Turkana Basin, Kenya pode ser acessado neste link.
Mais informações: dan.palcu@gmail.com, com Dan Palcu
*Estagiária sob orientação de Tabita Said
**Estagiária sob orientação de Moisés Dorado


























