“Tempos de exceção” investiga o presente com filosofia, literatura e moda

Obra que une erudição e poesia em coletânea de ensaios tem evento de lançamento on-line dia 21 de janeiro

 19/01/2026 - Publicado há 6 meses
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Arte sobre capa do livro Tempos de exceção: ensaios sobre o contemporâneo – Divulgação Fundação Stickel

No próximo dia 21 de janeiro, quarta-feira, acontece o lançamento on-line do livro Tempos de exceção: ensaios sobre o contemporâneo, de Brunno Almeida Maia, doutorando na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP e mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O volume reúne 23 ensaios nos quais o autor trata de filosofia, moda, política e cultura em diálogo com autores como Jean-Jacques Rousseau, Theodor Adorno, Max Horkheimer, Walter Benjamin, Michel Foucault, Marcel Proust, Georges Bataille e Hannah Arendt. São textos nos quais Maia – que pesquisa as articulações entre moda, filosofia e arquitetura – mobiliza uma grande bagagem teórica a partir de uma linguagem elegante e poética.

Há uma máxima que afirma que o inferno é o encontro entre os semelhantes, não aqueles do tempo primordial soprados pelo Verbo de D’us, mas semelhança-idêntica, ou seja, nós mesmos. Essa semelhança-idêntica é, por um lado, aquilo que durante a infância na pátria exilada (Heimat), sonhamos e desejamos nos tornar em nossas existências futuras, quando ainda errávamos, propositalmente, o caminho de nossos lares e, por outro lado, aquilo que nos tornamos no decurso de nossas vidas. Para ser mais exato, ela é a imagem sensível e espiritual do instante que nossas existências sucumbiram, reservando aos vivos a complacência da memória” (trecho do ensaio “O duplo como sensibilidade do inferno”).

Brunno Almeida Maia – Foto: Mucio Ricardo/Wikipedia

No prefácio da obra, a filósofa Olgária Matos, professora sênior da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, afirma que Maia desenvolve uma “nova teoria crítica da alienação cujo eixo não é nem valor de uso, nem valor de troca ou valor de exposição, mas alienação como exílio e forma de habitar o mundo”.

Olgária sublinha o tributo prestado pelo autor a pensadores como Rousseau, Benjamin, Horkheimer e Adorno. Segundo a professora, Maia analisa seus trabalhos “sob o prisma do progresso antitético, dos extraordinários desenvolvimentos da ciência e da técnica e das regressões espirituais da sociedade, do saber-viver e do viver juntos”.

Tempo estranho o nosso – disse o poeta –, reivindicamos nas ruas e nos discursos a necessidade dos laços fraternais, o sentido da coletividade e a explosão do extraordinário no cotidiano. Nunca se falou tanto sobre o amor, como em nossa época. No entanto, ouvimos quase sempre as mesmas queixas e dissabores sobre as relações fracassadas, os amores que frustraram a nossa imaginação e a ausência de um desejo de permanência. É como se, numa rua de mão única, o mesmo sentimento que aponta essa ausência sinalizasse também a nossa falta de coragem para realizá-lo” (trecho do ensaio “Talvez num tempo da delicadeza”).

Os textos reunidos em Tempos de exceção, conta Maia em entrevista para o Jornal da USP, foram elaborados ao longo de 15 anos, frutos de reflexões construídas em diálogo com pensadores da filosofia, sobretudo da teoria crítica, preocupados com o diagnóstico do presente. “São autores que se utilizaram da tradição filosófica justamente para indagar o tempo em que vivemos”, explica.

Maia aponta que a principal preocupação do livro é justamente o tempo. Trata-se de uma questão que acompanha o autor desde o início de seu percurso acadêmico. “O tempo em suas diversas dimensões”, assinala. “Tanto o tempo histórico como o sociológico, o uso que fazemos dele na sociedade, o tempo de produção e de consumo e também o tempo íntimo de cada um.”

A outra dimensão da obra, indica Maia, é a ideia de exceção. Trata-se de um conceito formulado originalmente pelo filósofo e teórico político Carl Schmitt, ligado à suspensão das leis e normas nos campos político e jurídico. Maia se apropria do conceito a partir de uma perspectiva dialética, pensando a exceção também como tudo aquilo que, no cotidiano, pode nos desestabilizar e contestar a ordem instalada pelo capitalismo. É nessa chave que propõe pensar a arte, a moda e a paixão amorosa, capazes de gerar “estados de exceção” nos sujeitos.

Capa do livro Tempos de exceção: ensaios sobre o contemporâneo (Editora Cosmos, 2025) – Arte: Eduardo Laurino

O evento de lançamento de Tempos de exceção acontecerá on-line, no dia 21 de janeiro, quarta-feira, das 19h às 21 horas, pela plataforma Zoom. Na ocasião, o autor realizará a palestra Da exceção à delicadeza: arte, moda e cultura como projetos de liberdade. Segundo Maia, a ideia é tratar justamente do conceito de exceção. Partindo das formulações de Schmitt – que ganham expressão nas democracias contemporâneas, permanentemente em estado de exceção – o pesquisador irá apresentar como contraponto a exceção enquanto “espaço de liberdade”, capaz de estabelecer outras relações com a vida e o tempo.

O evento é gratuito e aberto ao público, com necessidade de inscrição e limite de 300 vagas. As inscrições podem ser feitas neste link até às 9 horas do dia 21.

Tempos de exceção: ensaios sobre o contemporâneo, de Brunno Almeida Maia, Editora Cosmos, 352 páginas, R$ 98,90.


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