Exposição no MAC faz releitura de ações e intenções na história da arte

Na mostra Assim Como Rafael, O Que Fiz é Furto Qualificado, o artista João Parisi revê gestos clássicos para retratar imagens contemporâneas e irônicas

 16/01/2026 - Publicado há 6 meses

Texto: Manuela Trafane*

Arte: Daniela Gonçalves**

Obra de abertura Se estivesse entre nós, teria CRO e ofereceria a solução para essa sua cara de mexerica murcha  (2023), de João Parisi – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A arte rouba da arte o tempo todo porque as ideias não nascem do nada, mas sim da inspiração no que já foi feito. Pelo menos é nisso que o artista João Parisi acredita. Em sua exposição Assim Como Rafael, O Que Fiz é Furto Qualificado, Parisi revê gestos espalhados pela história da arte para retratar imagens fragmentadas: da cintura para baixo. A mostra fica em cartaz no Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP) até o dia 1˚ de março. A entrada é gratuita. 

Enquanto trabalhava na Capela Sistina (Cidade do Vaticano), o pintor renascentista Michelangelo proibiu que qualquer um entrasse no local. No livro Vida dos Artistas, o autor Giorgio Vasari conta que, apesar disso, outro artista renomado do período, Rafael Sanzio, conseguiu invadir a capela. “Ele rouba a figura do profeta Isaías criada por Michelangelo, faz uma pintura dela e lança no mundo primeiro. Nunca foi culpabilizado por isso”, conta Parisi. 

Ao nomear sua exposição individual no MAC Assim Como Rafael, O Que Fiz é Furto Qualificado, Parisi se inspirou na história. “Eu usei essa referência na mostra porque revela um mecanismo da história da arte pouco abordado, que é como os artistas estão roubando tudo de todos o tempo todo. Quis radicalizar essa grande cultura visual de ‘transferência de imagens’”, continua. Para isso, suas obras “roubam” elementos da história. 

João Guilherme Parisi – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

As 19 pinturas expostas usam a estética clássica para retratar cenas no ambiente contemporâneo, só que da cintura para baixo. A ideia partiu tanto de uma investigação profissional quanto pessoal. Como artista, Parisi queria entender o que esses recortes causariam nos espectadores. “O olhar para baixo coloca o indivíduo em outro espaço, desarma quem olha. Todas as vezes que mostrei esses trabalhos percebi uma relação ou de repulsa, ou de atração. Mas sempre algum desconforto.” 

Enquanto produzia a primeira obra da exposição, Desculpe, achei que poderia pisar… (2023), o artista descobriu que tinha uma condição crônica no pé e sentiu a necessidade de explorar a imagem biograficamente também. Por isso, todas as pernas, pés e corpos retratados são do próprio artista — mesmo quando retrata uma figura feminina. Um exemplo é a obra Pocotó, mais quero asno que me leve do que cavalo que me derrube

Nela, é retratado o momento final do mito de Phyllis e Aristóteles. A história diz que o filósofo grego Aristóteles recomendou a seu pupilo, Alexandre, o Grande, que evitasse sua amante, Phyllis, pois ela atrapalharia seus estudos. A mulher, por sua vez, se sentiu rejeitada e decidiu seduzir o filósofo, que caiu na tentação. Como revanche, Phyllis convenceu Aristóteles a ficar de quatro e carregá-la. Apesar de ser uma figura feminina, Phyllis é representada por Parisi em seu quadro. 

Obra Desculpe, achei que poderia pisar… (2023), de João Guilherme Parisi – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Obra Pocotó, mais quero asno que me leve do que cavalo que me derrube (2023), de João Parisi – Foto: Galeria MAC-USP

Obra Phyllis und Aristotle, de Lucas Cranach (1530) – Foto: Wikimedia Commons

Os títulos atribuídos a suas obras chamam a atenção. Segundo Parisi, eles são usados para “desarmar” o observador. “É muito importante que o museu tenha decidido expor também os títulos, porque eles são partes fundamentais das obras. Muitas vezes as pessoas pensam que esses trabalhos são muito sisudos, sérios, por parecerem uma arte quase clássica, quando, na verdade, partem de um deboche. Os nomes trazem essa quebra de expectativa”, explica. 

A obra de abertura, Se estivesse entre nós, teria CRO e ofereceria a solução para essa sua cara de mexerica murcha (2023), demonstra isso. Num fundo vermelho, a peça imita a perna decepada de Tiradentes — Joaquim José da Silva Xavier, um dos líderes da Inconfidência Mineira, enforcado e decapitado pelas autoridades portuguesas por conspiração contra a coroa. Por ser dentista, tinha esse apelido. 

O registro no CRO (Conselho Regional de Odontologia) é o documento que um dentista precisa para exercer sua profissão. Com o título, Parisi ironiza o uso da profissão, hoje, muitas vezes mais para fins estéticos do que odontológicos. “Por meio dessa perna glamourizada, com um tecido vermelho atraente atrás, fiz essa brincadeira que pensa o que seria a figura de Tiradentes atualmente. Será que teria um impacto político igual ao que teve em sua época?”, questiona Parisi.

Outro nome divertido é o da obra Quebra pau! Não me calarei para sempre (2023). A peça é um recorte da obra de Rafael Sanzio Casamento da Virgem. “Rafael roubou de Michelangelo, eu roubei dele também. Ele não passou ileso nesse processo”, brinca. A obra renascentista representa a história apócrifa do casamento de Maria, mãe de Jesus — narrativa que, embora possa ter valor histórico ou literário, não é aceita como oficial pela tradição religiosa e diverge das escrituras aceitas. 

Obra Quebra pau! Não me calarei para sempre  (2023), de João Parisi – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Obra Casamento da Virgem (1504) – Foto: Wikimedia Commons

No relato, todos os pretendentes da Virgem recebiam um pedaço de pau e aquele de cujo pedaço brotasse uma flor, seria o noivo da mulher. José foi o escolhido. O quadro de Rafael mostra os dois se casando e ao lado alguns dos homens rejeitados quebram seus pedaços de madeira, como demonstração de raiva. Esse ato agressivo poderia ser interpretado, inclusive, como o motivo pelo qual não foram escolhidos. 

No trabalho de Parisi, apenas as pernas de um desses homens são retratadas, vestindo meia-calça vermelha e pisando em uma tapeçaria da Virgem Maria grávida junto de sua avó, Santa Ana. “Essa figura é quase um ódio, que quebra e tem uma força estrondosa. Ele está literalmente pisando na figura de uma mulher grávida – e grávida de Jesus Cristo, ainda por cima. Por isso é uma figura de ira, que traz essa grande acidez à exposição”, diz. 

À esquerda, obra Desculpe, achei que poderia pisar…(2023), ao centro a obra Lutinha: rinha de cajado-serpente e uma corte em choque (2023), à direita a obra Pocotó, mais quero asno que me leve do que cavalo que me derrube (2023), de João Parisi – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

João Parisi e o MAC-USP

A parceria entre Parisi e o MAC-USP começou no final de 2023, quando ele inscreveu suas obras no 3˚ Edital de Exposições Temporárias 2024/2025 do MAC-USP. Enquanto seu projeto era julgado pela comissão, o artista recebeu o aceite como mestrando do museu. Entrou e iniciou sua pesquisa na Teoria da Restauração Italiana — estudo que estabelece uma técnica sobre o processo de restauro de obras de arte. 

Sua orientadora, e também curadora de Assim Como Rafael, O Que Fiz é Furto Qualificado, Ana Magalhães, o incentivou a pesquisar o acervo do museu. Depois disso, foi estagiário de docência do ensino superior do MAC, ministrando uma disciplina de graduação, também com Magalhães. “Sinto que, nesse período, os anos preparatórios desde que mandei o projeto até conseguirmos abrir a exposição, eu comecei a me relacionar de forma muito profunda com o museu e seu acervo”, revela. 

“Acho que não existem muitas pessoas que podem falar que foram alunas, pesquisadoras, estagiárias e artistas em exposição do MACUSP. Por isso criei uma perspectiva muito singular da instituição”, complementa. Parisi acredita que a mostra não poderia estar exposta em outro lugar, por seu caráter de investigação histórica e teórica, que cabe “perfeitamente” num museu universitário.

*Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg

**Estagiária sob orientação de Moisés Dorado


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