Por não conseguir competir no grande mercado, biodiesel de babaçu é melhor para comunidades locais

Segundo Luís Alberto Folegatti Romero, o biocombustível apresenta boa qualidade, mas não tem força para competir com outros biodieseis

 14/01/2026 - Publicado há 6 meses
Por
Imagem de uma usina produtora de biodiesel em uma paisagem rural. A usina é composta por grandes cilindros dispostos lado a lado, um deles superando os outros em altura
O babaçu é considerado uma matéria-prima promissora para a produção de biodiesel – Foto: Jorge Hilbert/Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0
Logo da Rádio USP

O biodiesel é um combustível renovável produzido a partir de óleos vegetais ou gorduras animais. Uma matéria-prima possível é o coco babaçu, fruto da palmeira de mesmo nome típica das regiões Norte e Nordeste do Brasil, que pode ser encontrada também de forma natural no Centro-Oeste. A utilização desse vegetal pelas comunidades locais ocorre pelas quebradeiras de coco babaçu, povo tradicional que vive através do extrativismo desse recurso natural. Segundo o professor Luís Alberto Folegatti Romero, do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP, o babaçu é considerado uma matéria-prima promissora para a produção de biodiesel. A produção desse biocombustível tem como base o óleo extraído das amêndoas do coco. “O óleo apresenta um alto teor lipídico e composição favorável e confere ao biodiesel uma boa qualidade, um elevado número de cetano e combustão eficiente”, diz.

Os biocombustíveis são aliados à busca pela redução da poluição, mas também, no caso do biodiesel de babaçu, uma forma de incentivar pequenos agricultores e grupos extrativistas. “Em 2005, foi introduzido oficialmente o biodiesel na matriz energética nacional e conferiu uma competência à ANP para regular a sua qualidade. Também foram criados incentivos fiscais para produtores que adquirem matérias-primas da agricultura familiar, o que favorece o extrativismo do babaçu. Foi decretado também um selo combustível social que, em teoria, poderia estimular a compra de produtos de comunidades tradicionais, como as quebradeiras de coco. Em 2017, foram estabelecidas metas de descarbonização, reconhecendo que o biodiesel de babaçu é um biocombustível que faz parte da matriz energética e é um biocombustível que pode ser estratégico para o País”, comenta o professor.

Dificuldades desse biocombustível

Luís Alberto Folegatti Romero – Foto: Academia

Romero destaca quatro principais dificuldades que o uso do biodiesel de babaçu sofre. “O primeiro é o caráter manual do extrativismo. A coleta e a quebra de coco exigem grande esforço físico, são pouco mecanizadas e geram pouco rendimento. Isso eleva o custo da matéria-prima e dificulta o abastecimento e o lar das usinas. Outro problema é a logística. Os babaçuais são extensos, dispersos, geralmente localizados em áreas rurais de difícil acesso, e que podem carecer do transporte do fruto, da amêndoa ou do óleo. Existe também uma competição econômica entre os usos do coco. Indústrias de cosméticos e alimentos precisam dessa matéria-prima. Tem outras indústrias que transformam o coco em carvão vegetal e às vezes costumam pagar mais pelo óleo e pelos derivados, o que reduz a viabilidade do seu uso energético.”

“No entanto, economicamente, ele é menos competitivo quando comparado a matérias-primas de grande escala, como soja ou sebo bovino. Além disso, seu custo elevado e a dificuldade de produção em volumes industriais também são entraves significativos”, acrescenta. “Do ponto de vista social, a cadeia enfrenta vulnerabilidades históricas. As quebradeiras de coco, principais responsáveis pelo extrativismo, sofrem com baixos retornos financeiros, falta de equipamento e, em muitos casos, dificuldades de acesso aos palmeirais, devido aos conflitos que existem entre os fundiários. E isso dificulta toda essa cadeia de produção.”

Por ser um recurso natural, o babaçu sofre com as alterações no meio ambiente e pede atenção. “Embora o babaçu seja uma espécie de regeneração natural, pressões como a expansão agrícola e a ausência de maneiras adequadas também podem reduzir a disponibilidade da matéria-prima. Portanto, dentro desses fatores, é necessário avaliar se o babaçu pode ser considerado uma boa matéria-prima para o biodiesel.”

O professor ressalta a importância dessa matéria-prima para as comunidades tradicionais e fala sobre as propriedades superiores que o coco tem quando comparado a outras oleaginosas. “O babaçu pode ser considerado uma boa matéria-prima para o biodiesel em contextos específicos, principalmente em projetos regionais, comunitários e de desenvolvimento sustentável, onde o objetivo não é competir com grandes usinas, mas promover inclusão social, renda local e valorização de recursos naturais em larga escala”, finaliza.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo


Jornal da USP no Ar 
Jornal da USP no Ar no ar veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 12h40, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular. 


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.