Nova exposição no MAC é retrato da cosmologia iorubá

Em cartaz no Museu de Arte Contemporânea da USP, Tudo Que Nasce Vermelho, de Luara Macari, une ancestralidade, espiritualidade e memória

 01/08/2025 - Publicado há 8 meses     Atualizado: 05/08/2025 às 14:22

Texto: Clara Hanek*
Arte: Gustavo Radaelli**

A exposição Tudo Que Nasce Vermelho, de Luara Macari, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

No terceiro andar do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, 21 peças da artista visual Luara Macari chamam a atenção pela vivacidade da tinta vermelha e pelo contraste com a azul. Numa articulação de argila, grafite, carvão e tinta a óleo, a artista faz experimentações e testa os limites da técnica. As obras de Macari compõem a exposição Tudo Que Nasce Vermelho, primeira mostra individual da artista, que foi inaugurada no MAC no dia 26 de julho e fica em cartaz até 26 de outubro. 

Resultado de anos de pesquisas, os trabalhos de Macari transferem para a matéria o entendimento da artista sobre ancestralidade, religiosidade e espiritualidade. Exemplo disso é a tela que dá nome à exposição, Tudo Que Nasce Vermelho, de 2023. Como explica a artista, a obra foi criada de forma espontânea. Começou com duas impressões marrons de argila, seguidas de um chão e céu na cor vermelha. Macari enviou uma foto do processo à sua mãe de santo, que enxergou na tela egungun, termo iorubá que se refere a espíritos de ancestrais importantes. “O nome da obra é porque de algum lugar a gente vem, como do sangue e da terra”, diz a artista.

Na tradição iorubá, as mulheres não podem ver egungun e usam panos vermelhos para cobrir a vista. Sua mãe de santo trouxe, então, uma camada de entendimento para a obra: “Eu comecei a pesquisar os mitos de criação da Terra com base na mitologia iorubá. A série não é sobre os itãs, como são chamados os contos da mitologia, mas sim sobre como eu lido com essa sensibilidade, essa subjetividade através da religião.”

Ao compor a tela No Tempo Que Tudo Era Água (2023), Macari pensava na mitologia da criação, em que Olodumaré, o deus supremo iorubá, criador do Universo e todas as coisas, forma a Terra. “Ele manda Oxalá, que é o orixá da sabedoria e da paz, descer para a Terra, que era água. Tudo era mar.” A artista transfere esse processo para a tela: Oxalá desce com um pequeno saco com areia e uma galinha, que cisca a areia e forma a terra. 

Em Princípio do Verso e Inverso (2024), Macari reflete sobre polaridades e interações. “No final das contas, esse princípio masculino, do impulso, da guerra, da criação, que abre os caminhos e faz com que a vida nasça na terra, não existe sem o princípio do interno, do feminino, da gestação.” Ela expressa essa dualidade com as duas cores principais da mostra. “O vermelho do sangue, do corpo, da pulsão, também vem com o lugar frio, azul, do osso.”

Na tela Às Pretas (2024), a artista faz alusão a A Negra (1923), famosa obra de Tarsila do Amaral que está no acervo do MAC. “Nesse trabalho, eu questiono o lugar reservado às negras na história da arte. A Tarsila é uma grande referência para mim”, destaca Macari. 

 

“Em um país profundamente marcado pelo racismo estrutural e pelo racismo religioso, a ocupação desse espaço institucional por uma produção como a de Macari é uma urgência estética e política”, escreve a curadora da exposição, Fernanda Pitta, professora do MAC, no texto de apresentação da mostra.

Segundo Pitta, Macari “constrói um espaço onde a pintura é exercício de escuta, presença e memória”. Ela destaca ainda que a artista cria um território que tem “a força da arte como gesto de cuidado, reinvenção e reparação”.

Mulher jovem.

A artista Luara Macari - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Artista desde a infância

Nascida em família de artistas, Macari sempre teve a criatividade estimulada pelos pais. Desde a infância ela escrevia poesia e ficção, mas foi nas aulas de Arquitetura da Escola da Cidade, uma faculdade de São Paulo, que a artista se apaixonou pela história da arte. 

Durante a pandemia de covid-19, Macari ganhou de seu avô uma câmara fotográfica analógica Pentax K1000, dos anos 1970. “Comecei a andar pelo bairro e a tirar fotos, e as imagens mais interessantes eram as que não ficavam certinhas. Comecei explorando o bairro em que morava com a minha mãe.” Numa fixação com as ruínas da cidade, Macari fotografava a fricção do urbano com o natural. Colocava em foco o caos da cidade em escala aproximada. Foi a partir dessa observação que começou um processo de transposição dos padrões gráficos com a tinta a óleo.

Aos 21 anos, Macari ganhou de presente uma leitura de mapa astral, que define como um momento crucial de sua trajetória. “A astróloga falou que todos os desequilíbrios na minha vida eram resultado de uma criatividade mal direcionada e que eu precisava canalizar essas pulsões”, lembra. O seu primeiro trabalho artístico foi, então, uma performance de foto. “Peguei uma tigelinha que usamos para fazer oferendas, escrevi tudo que eu queria para minha vida e botei nela, com velas, queimei essas velas e tirei as fotos.”

Em 2022, Macari foi aceita na casa artística Mirante Xique Xique, localizada em Igatu, vilarejo do sertão da Bahia, com cerca de 400 habitantes. No local, que antes era um polo de mineração, perto da Chapada Diamantina, rodeado de ruínas, a artista encontrou inspiração nas texturas das pedras e do chão. De volta a São Paulo, a fixação com texturas se transferiu para o urbano. Foi assim que ela começou a trabalhar com a monotipia — técnica de impressão sem possibilidade de reprodução.

O avô de Macari, entusiasta da sua carreira, a levou para conhecer a produção de filtros de barro em Jaboticabal (SP). Ali ela ganhou um pouco da matéria-prima dos filtros. “Comecei a pintar o barro e a fazer a impressão com tinta a óleo no papel.” A primeira série que nasceu desse processo foi Nebulosa, em que a artista começou a misturar a monotipia e a argila. 

Mulher com cabelos ruivos, sorrindo levemente.

A curadora Fernanda Pitta, do MAC - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Tudo Que Nasce Vermelho é a primeira das três exposições selecionadas pelo Edital de Exposições Temporárias 2024/2025 do MAC, entre 180 projetos inscritos. O edital contempla artistas jovens que ainda não tenham realizado exposições individuais, mas que tenham participado de pelo menos cinco mostras coletivas. É uma das ações do MAC para incentivar a produção artística emergente.

Esta é a terceira edição do edital. Em cada edição, um júri de especialistas seleciona três projetos. “O MAC abre portas. Vejo como as pessoas se conectam com o meu trabalho. Eu sinto que elas têm se encantado com ele, e isso me dá gás para continuar”, conta a artista. 

A exposição Tudo que Nasce Vermelho está em cartaz até 26 de outubro, de terça-feira a domingo, das 10h às 21h, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP (Avenida Pedro Álvares Cabral, 1.301, Ibirapuera, em São Paulo). Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 2648-0254 e pelo site do MAC.

* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro

** Estagiário sob orientação de Moisés Dorado


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