Cientistas brasileiros escavam cavernas na Romênia em busca de neandertais

Projeto liderado por pesquisadores da USP investiga a interação entre seres humanos e seus parentes hominínios no leste da Europa durante a Idade da Pedra

 01/08/2025 - Publicado há 8 meses     Atualizado: 18/08/2025 às 16:48

Texto: Herton Escobar

Arte: Daniela Gonçalves*

seis pessoas agachadas trabalhando com ferramentas na escavação do solo no interior de uma caverna

Pesquisadores romenos e brasileiros trabalham na escavação da Caverna 1, na Garganta do Vârghiş, na Romênia, em julho de 2025 – Foto: André Strauss

Leia este conteúdo em InglêsCientistas brasileiros estão escavando cavernas no interior da Romênia em busca de pistas sobre um dos capítulos mais instigantes da história da evolução humana: o das relações (sexuais, culturais e geográficas) entre Homo sapiens e neandertais. Os pesquisadores estão trabalhando desde o dia 22 de julho em duas grutas de uma formação conhecida como Garganta do Vârghiş, um pequeno cânion na região central do país, que possivelmente abrigou populações ancestrais de ambas as espécies. As primeiras escavações já renderam achados importantes: dois fragmentos de ossos de animais com mais de 42 mil anos de idade, que parecem ter sido modificados por mãos humanas. Todo o trabalho é desenvolvido em parceria com cientistas romenos.

Várias evidências científicas demonstram que essas duas espécies (Homo sapiens e Homo neanderthalensis) conviveram e acasalaram durante milhares de anos em diversas partes da Europa e da Ásia; principalmente no período entre 50 mil anos atrás, quando seres humanos anatomicamente modernos começaram a povoar a região, e 40 mil anos atrás, quando a linhagem neandertal se extingue. O legado desse cruzamento está inscrito no DNA humano: pesquisas indicam que entre 1% e 4% do genoma de todas as pessoas de origem não africana que habitam o planeta hoje foi herdado de neandertais. Mas há muitas dúvidas, ainda, sobre como essas interações ocorreram e até que ponto elas influenciaram, ou não, a evolução do Homo sapiens.

A Romênia é uma localidade estratégica para a solução desse mistério. Há muitas evidências, arqueológicas e genéticas, de que seres humanos anatomicamente modernos e neandertais coabitaram aquela região do Leste Europeu no início do Paleolítico Superior — a chamada Idade da Pedra Lascada. Um dos fósseis mais importantes dessa história foi encontrado no sudoeste da Romênia, em 2002: uma mandíbula de Homo sapiens, de aproximadamente 40 mil anos de idade, com algumas características morfológicas de neandertais e até 9% do seu DNA derivado de Homo neanderthalensis, segundo um estudo publicado em 2015 na revista Nature.

Localização da Romênia e da Garganta do Vârghiş – Elaboração: Herton Escobar/Jornal da USP
Localização das cavernas (“pestera”, em romeno) que estão sendo escavadas pela missão romeno-brasileira na Garganta do Vârghiş – Elaboração: Herton Escobar/Jornal da USP

Os neandertais representam uma linhagem extinta do gênero Homo, que derivou de um ancestral comum com os seres humanos modernos cerca de 500 mil anos atrás. Enquanto a linhagem que daria origem ao Homo sapiens se desenvolveu na África, adaptada a um clima predominantemente quente e paisagens tropicais, a linhagem que deu origem ao Homo neanderthalensis se desenvolveu principalmente na Europa e na Ásia Ocidental (que juntas formam a região chamada de Eurásia), adaptada ao clima frio e aos terrenos montanhosos da região. Consequentemente, os neandertais desenvolveram uma anatomia diferente; eram mais baixos, mais robustos e tinham um crânio mais alongado do que os seres humanos modernos. Os neandertais também sabiam usar fogo, ferramentas de pedra, e tinham expressões artísticas. Apesar disso, eles desaparecem do registro fóssil cerca de 40 mil anos atrás. Cientistas acreditam que sua extinção tenha resultado de uma combinação de fatores; entre eles, a competição com o Homo sapiens, que surgiu na África cerca de 300 mil anos atrás e começou a ocupar a Eurásia entre 70 mil e 50 mil anos atrás. Várias espécies de hominínios surgiram ao longo dos milhões de anos de história da evolução humana, mas apenas o Homo sapiens sobreviveu, dando origem a todos os seres humanos “modernos” existentes hoje.

A Garganta do Vârghiş é um dos sítios de pesquisa arqueológica e paleoantropológica mais importantes do país. Uma equipe liderada pelos pesquisadores Marian Cosac e George Muratoreanu, da Universidade Valahia de Târgoviște, trabalha na região desde 2014 e já desenterrou diversas evidências de ocupação pré-histórica nas cavernas do vale, incluindo dezenas de ferramentas de pedra da chamada “indústria musteriana” (tipicamente produzidas por neandertais), encontradas ao lado de ossos de ursos, leões, rinocerontes peludos e outras espécies extintas do Paleolítico Médio. As escavações do grupo se concentram na Pestera Mare, a maior caverna do Vârghiş.

Até hoje, porém, nenhum vestígio ósseo dessas populações neandertais foi encontrado na Romênia— apenas ferramentas de pedra e outros artefatos arqueológicos deixados por elas. Preencher essa lacuna é o desafio máximo da expedição. “É como procurar uma agulha no palheiro; mas se você não procurar, não vai achar nunca”, diz o pesquisador Walter Neves, professor sênior e coordenador do Núcleo de Pesquisa e Divulgação em Evolução Humana do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, que lidera o projeto.

Neves conta que a ideia de procurar hominínios na Romênia nasceu de uma interlocução com o professor Stefan Vasile, da Universidade de Bucareste, que ele conheceu em 2019, ao ministrar um curso em Dmanisi, na República da Geórgia — um dos sítios arqueológicos mais importantes do mundo para o estudo da evolução humana. “Eu nunca tinha pensado em estabelecer uma missão arqueológica na Romênia, mas aí comecei a estudar a história do lugar e percebi que era um hotspot de cruzamento entre neandertais e sapiens”, relembrou Neves, em uma entrevista ao Jornal da USP. “Então pensei: opa, isso aqui é interessante!”

O contato com Vasile levou a um convite de Cosac e Muratoreanu para que o grupo de pesquisa brasileiro juntasse forças com os romenos nas escavações da Garganta do Vârghiş. Em abril de 2024, foi realizada uma primeira missão conjunta de reconhecimento das cavernas do vale. Quatro meses depois, o grupo fez uma primeira escavação numa gruta chamada Tatarului (ou Tãtarilor, como também é conhecida), que havia sido selecionada na viagem anterior.

Pesquisadores do Brasil e da Romênia trabalham na escavação da Caverna 1, na Garganta do Vârghiş, na Romênia – Foto: André Strauss

O Vale do Rio Vârghiş é rodeado pelos Montes Cárpatos e tem mais de cem cavernas espalhadas pelas encostas de um cânion (“garganta”) de rocha calcária, propícias à ocupação humana e à preservação de fósseis. “É um lugar muito tentador, porque nos dá a possibilidade de testar vários sítios de escavação”, ponderou Neves. O vale fica dentro da região da Transilvânia, conhecida mundo afora como o cenário da lenda do Conde Drácula.

“Como em toda escavação arqueológica, é muito difícil saber ao certo o que iremos encontrar. No cenário mais otimista, um esqueleto neandertal; ou um fragmento de dente, pelo menos”, disse o pesquisador André Strauss, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) e cocoordenador do Laboratório de Arqueologia e Antropologia Ambiental e Evolutiva (LAAAE) da USP, que lidera as escavações na Romênia, em colaboração com colegas romenos e outras instituições brasileiras.

O projeto é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e inclui pesquisadores da USP, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Universidade de Algarve (em Portugal), da Universidade Estadual de Ohio (nos Estados Unidos) e das Universidades de Bucareste e Târgoviste (na Romênia). Outras instituições romenas também participam da escavação, além de uma colaboradora da Argentina e três alunos da Alemanha.

Primeiros resultados

O primeiro trabalho de escavação, em agosto de 2024, não foi muito animador: a equipe escavou um buraco de dois metros de profundidade na Tatarului e não encontrou nada; nenhum osso de hominínio ou artefato arqueológico que pudesse comprovar um histórico de ocupação humana da caverna. As datações de radiocarbono realizadas posteriormente em alguns ossos de animais que foram descobertos no local, porém, indicaram que a camada mais profunda do poço tinha 42 mil anos de idade, o que estimulou os pesquisadores a seguir investindo na caverna. “Decidimos dar continuidade às escavações na Tatarului na esperança de que, ao alcançar os depósitos com cronologia anterior a 45 mil anos, possamos encontrar evidências de ocupação neandertal”, explicou Strauss. “Não é hora de desistir”, reforçou Neves.

A decisão se provou acertada: logo nos primeiros dias de escavação, em 24 de julho, os pesquisadores encontraram dois fragmentos de ossos de animais (um de cavalo e outro, de uma espécie ainda não identificada) que parecem ter sido modificados por seres humanos. “Nesses dois ossos há vários padrões de fratura que a gente sabe que são padrões vinculados à ação humana; especialmente duas incisões paralelas (no osso de cavalo) que parecem muito ser marcas de corte”, explicou Strauss ao Jornal da USP — enfatizando que essas avaliações são preliminares e precisam ser confirmadas por análises mais detalhadas em laboratório. Com base no extrato de solo em que esses ossos foram encontrados, é possível inferir que eles têm mais de 42 mil anos. Se as marcas foram feitas por Homo sapiens ou por neandertais, por enquanto, não há como saber.

Paralelamente ao trabalho na Tatarului, os cientistas brasileiros e romenos começaram a escavar uma segunda gruta, batizada de Caverna 1 (ou Peșteră 1, em romeno). Segundo Neves, essa cavidade tem a vantagem de ser uma caverna ainda intocada, que nunca foi mexida por arqueólogos, profissionais ou amadores. “Estou muito otimista em relação a essa caverna. Ela não tem nenhuma perturbação”, disse o pesquisador. Trata-se de uma gruta de fácil acesso, próxima à Tatarului e às margens do Rio Vârghiş. “Se o acesso é fácil para nós, é provável que tenha sido também para os hominínios”, pondera Neves.

Osso pré-histórico de cavalo encontrado por pesquisadores na Caverna Tatarului, na Romênia, em julho de 2025. A seta amarela aponta para feições que parecem ser marcas de corte feitas por ação humana. O osso tem mais de 42 mil anos de idade – Foto: André Strauss

Uma questão fundamental que o projeto busca responder, segundo Strauss, é qual linhagem de Homo neanderthalensis estava presente nessa região e qual a relação dela com os processos de introgressão populacional em Homo sapiens — ou seja, com o legado genético que os neandertais deixaram para os seres humanos modernos. “Para isso, precisamos extrair DNA de ossos ou de sedimentos”, explica o pesquisador, que é especialista no estudo de DNA antigo.

Além de procurar por ossos e ferramentas neandertais, portanto, os cientistas também vão vasculhar os sedimentos das cavernas em busca de vestígios genéticos de hominínios que tenham vivido ali. Para isso, utiliza-se uma técnica conhecida como “DNA ambiental sedimentar” (sedaDNA), que permite sequenciar e identificar amostras de material genético presente no ambiente. Como o genoma do Homo neanderthalensis já foi sequenciado por outros grupos de pesquisa, os cientistas poderão comparar as sequências de DNA ambiental que forem isoladas das cavernas da Romênia com as sequências de DNA neandertal e de seres humanos que estão depositadas em bancos de dados para extrair informações desse material.

Os sedimentos coletados pela equipe também serão importantes para estudos de geoarqueologia, ciência que une conceitos das geociências e da arqueologia para investigar como sítios arqueológicos se formaram e se transformaram ao longo do tempo. “O objetivo é estudar os processos de formação dos depósitos que preenchem as cavidades, nos quais se encontram os extratos com material arqueológico”, diz a pesquisadora Ximena Villagran, professora do MAE e coordenadora do Laboratório de Microarqueologia (LabMicro) da USP, que lidera essa frente de pesquisa do projeto.

A pesquisadora Maria Ana Correia trabalha no poço de escavação da Caverna Tatarului, na Romênia, em julho de 2025 – Foto: André Strauss

Ela explica que esses dados são essenciais para determinar se os materiais coletados pela equipe são remanescentes de uma ocupação in situ — ou seja, que aconteceu de fato dentro da caverna, no local da escavação —, ou se eles foram deslocados e retrabalhados de alguma forma por processos geológicos antes de serem depositados ali. “Essa análise é fundamental para todas as interpretações posteriores que se fazem dos artefatos ou restos ósseos, inclusive dos carvões que são usados para datação, já que permite compreender o contexto completo em que esses objetos foram deixados, enterrados, transformados ou preservados”, afirma Villagran. “Além de entender como os artefatos chegaram aos sítios, a geoarqueologia fornece subsídios para reconstruir o ambiente que existia durante a sua ocupação e como as mudanças ambientais influenciaram a preservação dos sítios”, completa.

O professor Walter Neves tira medidas de um crânio de hominínio escavado em Mladec, na República Checa, em julho de 2025 – Foto: Clóvis Monteiro
O pesquisador Walter Neves tira medidas de um crânio de Homo sapiens com mais de 30 mil anos de idade, descoberto nas cavernas de Mladec, na República Checa - Foto: Clóvis Monteiro

Anatomia craniana

Outra frente de pesquisa associada ao projeto é uma reanálise da morfologia de crânios de hominínios encontrados no Leste Europeu nas últimas décadas, incluindo três crânios de Homo sapiens já escavados na Romênia (em outras cavernas, fora do Vale do Vârghiş). As características neandertais desses crânios são todas muito sutis, ressaltou Neves. “Além da busca por novos materiais, vamos fazer uma análise dos crânios já encontrados para ter uma ideia mais clara da variabilidade morfológica de neandertais e sapiens no leste da Europa”, disse o pesquisador. Antes de seguirem para a Romênia, Neves e o pesquisador Clóvis Monteiro fizeram uma parada em Viena, na Áustria, para medir um crânio oriundo das cavernas de Mladeč, na República Checa. “Quero saber até que ponto essa troca de genes afetou a morfologia craniana (dos seres humanos modernos)”, justificou Neves. Ele planeja medir ainda outros crânios da região, em 2026.

Os resultados dessa expedição atual, segundo Neves, serão decisivos para determinar se o projeto será encerrado ou servirá como semente de uma missão arqueológica de longo prazo na Romênia. Um dos arqueólogos e bioantropólogos mais renomados da ciência brasileira, Neves se aposentou oficialmente como docente do Instituto de Biociências (IB) da USP em 2017, aos 60 anos de idade; mas seguiu ativo no Instituto de Estudos Avançados da Universidade. Famoso por seus estudos relacionados ao povo de Luzia e ao povoamento das Américas, ele agora está focado na pesquisa de capítulos bem mais antigos da evolução humana, que só podem ser estudados fora do Brasil, por meio de colaborações internacionais.

“Não sei quanto tempo mais eu terei condições físicas de participar de pesquisas de campo como essa”, disse Neves, prestes a completar 68 anos e com algumas dificuldades de locomoção. “Mas ficarei satisfeito em saber que inseri o Brasil no jet set internacional da paleoantropologia.”

As escavações na Romênia vão até o dia 9 de agosto. O Jornal da USP vai acompanhar os últimos dias de trabalho in loco na Garganta do Vârghiş, com apoio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão (PRCEU) da USP.

*Estagiária sob orientação de Moisés Dorado


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