Pesquisadores encontram fóssil inédito de tartaruga marinha na Síria

Coletada em Aleppo, Syriemys lelunensis é a primeira nova espécie de vertebrado extinto já descrita do país e corresponde ao registro mais antigo de sua linhagem no mundo

 31/07/2025 - Publicado há 8 meses     Atualizado: 18/08/2025 às 16:45

Texto: Tabita Said

Arte: Daniela Gonçalves*

foto de um casco fossilizado de uma tartaruga marinha encontrada na Síria

Syriemys lelunensis: o nome do gênero une as palavras gregas Συρία (Suría) e ἐμύς (emús), latinizadas como “Síria” e “emys”, respectivamente, “Síria” e “tartaruga” – Foto: Wafa Adel Alhalabi

Leia este conteúdo em InglêsApós uma explosão controlada para quebrar grandes blocos de calcário para processamento, em 2010, o senhor Muhammad Al-Ibrahim, dono da pedreira Al-Zarefeh, se deparou com dois pedaços de um animal fossilizado. O material foi transferido para o escritório do Estabelecimento Geral de Geologia e Recursos Minerais (GEGMR) em Aleppo, na Síria, onde permaneceu por 13 anos. Apenas em 2023, o fóssil foi catalogado, e sua descrição acaba de ser publicada por um grupo de cientistas do Brasil, da Síria, da Alemanha e do Canadá.

Os restos fossilizados correspondem a uma tartaruga marinha que viveu 50 milhões de anos atrás, aproximadamente. Descrita como Syriemys lelunensis, a tartaruga encontrada é o primeiro vertebrado fóssil nomeado para a Síria. O achado também foi confirmado como o mais antigo registro de Stereogenyini – uma linhagem extinta de tartaruga side-necked, com retração lateral do pescoço –, recuando sua origem em mais de 10 milhões de anos.

“É uma situação complicada na Síria e, diante da tragédia, parece até irreal ficar falando de fósseis. Mas, ao mesmo tempo, mostra o potencial do país e que a ciência está viva. São materiais que podem ser resgatados se adequadamente estudados”, destaca Max Langer, um dos autores do artigo e coordenador do Laboratório de Paleontologia (PaleoLab) da USP em Ribeirão Preto. 

Max Langer - Foto: Currículo Lattes
Max Langer - Foto: Currículo Lattes

Ele explica que o artigo integra uma série de publicações nas quais o grupo vem trabalhando a partir de um material visto e fotografado pessoalmente pela primeira autora, Wafa Adel Alhalabi. Síria naturalizada brasileira, Wafa é pesquisadora do PaleoLab desde 2016, quando chegou ao Brasil após a escalada dos conflitos em seu país natal. Agora, o grupo negocia o encaminhamento de alguns fósseis para o Brasil.

“Quando publicamos o primeiro trabalho, sobre o plesiossauro, chamou muito a atenção das pessoas na Síria. Então, eles me convidaram para estudar esse fóssil. É um lugar muito importante: nessa mesma região, em Dederiyeh Cave, foram encontrados os ossos do Neandertal da Síria”, afirma a paleontóloga formada na Universidade de Damasco.

O material coletado inclui um molde interno do casco totalmente preservado, além de alguns ossos plastrais (da parte ventral do casco), pélvicos e dos membros posteriores – alguns inclusos no molde. Também foram extraídos minúsculos foraminíferos da rocha que circundava o fóssil da tartaruga. Esses pequenos organismos unicelulares integram a Rhizaria – um reino eucarionte – e são protegidos por carapaças que os confundem com pequenos moluscos. 

mulher adulta de cabelos pretos e lisos na altura dos ombros, sorri e usa óculos de armação escura. Veste uma camisa florida. Está sentada em frente a um laptop ao lado de um telefone
Wafa Adel Alhalabi é uma paleontóloga sírio-brasileira – Foto: Reprodução / ResearchGate

Na análise dos pesquisadores, a coleta dos foraminíferos foi definitiva para definir a idade do fóssil encontrado: ele indicou se tratar do Eoceno inicial, portanto entre 56 e 46 milhões de anos. 

“Antes disso, a gente tinha alguns fragmentos que foram chamados de Stereogenyini, mas não dava pra ‘bater o martelo’. Agora temos essa dimensão temporal mais refinada por causa do fóssil da Síria”, afirma Gabriel Ferreira, coautor do estudo. Especialista em evolução das tartarugas, o paleontólogo cursou da graduação até parte do doutorado no PaleoLab, e hoje atua no Departamento de Geociências da Universidade de Tübingen, na Alemanha. 

mapa de região no noroeste da Síria, nas proximidades da cidade de Afrin. Quadro à direita superior mostra a localização da área principal dentro da Síria. No centro, mapa geológico representa a área entre as regiões de Kurd Dagh (a oeste) e Jabal Semaan (a leste). Quadro à direita inferior mostra um corte vertical do terreno com foco em aspectos geológicos e topográficos
Mapa da Síria destacando a localização da área de estudo. A pedreira de calcário que produziu a nova tartaruga está localizada no norte da Síria, perto da fronteira com a Turquia – Foto: Mapa extraído do artigo

Diferentão da família

Ferreira explica que os registros mais antigos de Stereogenyini datavam do Eoceno Superior (38 a 33 milhões de anos) e foram localizados no Egito. Mas outros fósseis de tartarugas da família Podocnemididae, parente próxima da Stereogenyini, já haviam sido encontrados em Omã e na Arábia Saudita. Estudos anteriores também indicaram sua ampla distribuição geográfica e temporal: do Eoceno da África ao Pleistoceno do Sudeste Asiático.

“Esses bichos são de um grupo que, hoje, só tem tartaruga semiaquática, de água doce. Mas, no passado, tiveram algumas linhagens que evoluíram para uma vida marinha ou pelo menos costeira”, explica. Um dos grupos que inclui as Stereogenyini são os Pleurodira – aqueles quelônios com retração lateral do pescoço. O outro grupo se chama Cryptodira, e estes recolhem o pescoço em linha reta para dentro do casco. “As tartarugas marinhas que a gente conhece hoje são todas Cryptodira”, diz. 

Embora o grupo dos Pleurodira viventes sejam todas tartarugas semiaquáticas de água doce, no passado, algumas linhagens “entravam” na água salgada – Stereogenyini é uma delas. “E por conta disso, esses bichos são encontrados no mundo todo: tem na América do Sul, tem na América do Norte, no Caribe, na África, no leste asiático, mas a gente não sabia direito onde ele surgiu”, conta Ferreira. 

homem adulto com barba e bigode curtos. Usa óculos de sol, uma touca e uma jaqueta pesada. Ao fundo, há algumas árvores e neve no chão
Gabriel Ferreira é um paleontólogo brasileiro que atua na Universidade de Tübingen, Alemanha – Foto: Arquivo pessoal

Com isso, a Syriemys lelunensis adiciona um ponto na distribuição geográfica do grupo Stereogenyini, dando pistas de sua provável origem no Mediterrâneo.

pesquisadora sentada em frente ao casco da tartaruga fazendo anotações em um caderno

A carapaça ovalada da Syriemys lelunensis mede 53 cm de comprimento na linha média e 44 mm de largura. O plastrão tem 46 cm de comprimento e 38 cm de largura. Suas características reforçam a existência de Eoceno pré-histórico no atual Oriente – Foto: Cedida pela pesquisadora Wafa Adel Alhalabi

No artigo, o grupo de pesquisadores destaca que o achado da Síria se distingue de outras Stereogenyini por três características exclusivas, que não são encontradas em seus ancestrais diretos ou em linhagens relacionadas: a Syriemys lelunensis possui sete longos ossos neurais que correm ao longo da linha média das costas da carapaça e se estendem pelo menos até um dos ossos costais; a borda frontal do osso da nuca tem cerca de metade da largura do próprio osso nucal, além de uma espécie de “entalhe” raso na parte traseira da carapaça, onde seria sua cauda.

Para Wafa, as digitais deixadas pela nova tartaruga compõem um mosaico de pistas sobre a “paleobiogeografia” da região: são evidências fósseis e geológicas que reforçam o passado subaquático do país. “A Síria ficou submersa durante todo o Cretáceo e na maior parte do Cenozoico [era geológica atual], até o final do Mioceno”. Ou seja: de 145 até cerca de 5,3 milhões de anos. 

Por tanto tempo de história na água, Wafa acredita que encontrar uma tartaruga marinha não é exatamente uma surpresa. “Se fosse uma tartaruga terrestre, na minha opinião, chamaria mais a atenção”, diz. 

O grupo deve encaminhar para publicação o terceiro trabalho da série que nomearam como Buscando o tempo passado. “Não só geológico, mas também o tempo que ficaram parados os estudos paleontológicos por lá. Quem sabe, para frente, a gente possa pensar em aprofundar os estudos na Síria”, conclui Langer.  

O artigo Recovering lost time in Syria: a new Eocene stereogenyin turtle from the Aleppo Plateau está disponível neste link. Já o trabalho Recovering lost time in Syria: New Late Cretaceous (Coniacian-Santonian) elasmosaurid remains from the Palmyrides mountain chain, que inaugurou a série de publicações, pode ser lido aqui.

Mais informações: wafaadelhalabi@gmail.com, com Wafa Adel Alhalabi; mclanger@ffclrp.usp.br, com Max Langer

*Estagiária sob orientação de Moisés Dorado


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