Rádio USP lembra a música e o legado de Mario Ficarelli

Um dos maiores nomes da composição musical do Brasil, o professor da USP - morto em 2014, aos 78 anos - faria 90 anos neste mês

 16/07/2025 - Publicado há 10 meses

Texto: Redação

Arte: Daniela Gonçalves*

Homem calvo, de cabelos grisalhos.
Fotomontagem por Daniela Gonçalves/Jornal da USP com fotos de Reprodução/YouTube - Reprodução/YouTube e Arquivo pessoal

“Um guerreiro apaixonado.” Era assim que os amigos definiam o compositor e professor da USP Mario Ficarelli (1935-2014), que no dia 4 deste mês teria completado 90 anos de idade. O apelido serve perfeitamente para designar o entusiasmo e a paixão pela música que Ficarelli demonstrou até o final da vida. Professor do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP desde 1981, ele deixou mais de 220 composições escritas para diferentes formações – desde música de câmara e música coral até missas e obras sinfônicas. Em 2022, foi publicada uma obra póstuma que constitui o seu maior legado na área da educação musical – o Musissimphos, um método para o aprendizado de instrumentos de orquestra –, como mostrou o Jornal da USP (leia aqui). 

Para lembrar os 90 anos de Ficarelli – que morreu em 2 de maio de 2014, aos 78 anos -, a Rádio USP apresentou neste mês músicas do professor, ao longo de sua programação (ouça nos links abaixo). 

Uma vida pela música

“Antes de começar a compor uma música, penso durante um bom tempo nela – sobre a instrumentação que usaria, a duração, a sensação que produziria em mim –, enfim, vivo-a antes de começar a escrever”, contou Ficarelli sobre o seu processo de criação, numa entrevista ao blog Opus Dissonus, do compositor e crítico de arte Artur Cimirro (disponível aqui). “Uma vez que ela tem um começo, a sequência se faz pelo deixar fluir a intuição – deixar o inconsciente trabalhar –, e então acontece que acabo ficando escravo dessa música até que a termine. Ela passa a fazer parte de mim em todas e quaisquer situações e ela me chama a todo momento para continuar a trabalhá-la.”

Na mesma entrevista, Ficarelli falou que o compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827) exerceu uma “influência plena, absoluta” em sua carreira. “Sua objetividade, a clareza de ideias e o entrosamento entre elas, a concatenação das partes, o livre transitar sem perder a meta – tudo isso sempre me fascinou”, explicou. “Cada vez mais procuro colocar isso em meus trabalhos.” Ele ressaltou, porém, que sua obra tem a influência de “dezenas e dezenas” de grandes compositores. “O compositor é o elo de uma corrente que se interpõe no elo anterior e no seguinte.”

Ouça no link abaixo o programa Manhã na USP, sobre o professor Mario Ficarelli, transmitido no dia 7 passado. A produção e apresentação são do radialista Cido Tavares.

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“Acreditar sempre era outro sentimento que Ficarelli aprendeu a desenvolver desde criança, guiado pelo pai, que ele considerava seu grande mestre”, destaca a compositora e pianista Silvia de Lucca, viúva do professor, num texto divulgado neste mês, em que homenageia Ficarelli por ocasião dos seus 90 anos. “Daí se entendia facilmente a esperança que o estimulava, o encorajava e não o deixava desistir de ter optado pela carreira de compositor classificado como ‘erudito’, num País que ainda mal compreende o significado desse segmento. Uma vez, ele declarou diante das conhecidas dificuldades de se trabalhar nessa especialidade: ‘Continuar fazendo para que não seja extinta, nem que seja só para isso’.” 

“Tão caracteristicamente sinfônico, mesmo em seus duos e trios ele conseguia passar a ilusão de estarmos ouvindo uma orquestra”, continua Silvia de Lucca. “Tanto que ficou conhecido no meio especializado como um grande orquestrador, um dos melhores que tivemos, mesmo por aqueles que não se identificam com a sua linguagem estilística.”

 

Silvia de Lucca destaca ainda a preocupação de Ficarelli com a educação musical. “Ele tinha certeza do papel transformador e do enorme resultado positivo que seria propiciado às crianças se a música fosse tida como uma ferramenta regular no processo educativo”, escreve a compositora e pianista. Ela cita como exemplos obras de Ficarelli voltadas para os iniciantes à ópera, A Peste e o Intrigante, a Missa Solene e o método Musissimphos. “Em seu inventário artístico, quando finalizado, descobriram-se mais projetos e obras antigas dedicadas aos iniciantes.”

A descoberta da composição

Mario Ficarelli nasceu em 4 de julho de 1935, em São Paulo (SP). De origem humilde, começou a se interessar por música aos 16 anos, quando ouviu pelo rádio uma obra orquestral – a Suite Grand Canyon, do compositor estadunidense Ferde Grofè (1892-1972) –, interpretada pela Orquestra Sinfônica da BBC de Londres. “A partir de então, sob aquele impacto, dediquei-me ao conhecimento dos grandes mestres da música, suas vidas e suas obras, através da leitura de suas biografias e da audição contínua de suas produções”, disse Ficarelli, numa palestra proferida em 1999 na Academia Brasileira de Música, no Rio de Janeiro. “O período que compreendeu a descoberta da música e suas diversas implicações até a definição da carreira escolhida – a composição – foi de cerca de um ano. Percebidas as possibilidades de atuação na música, eu desejava escrever algo como aquilo que estava conhecendo. Contudo, a formação musical e geral para atingir tal objetivo seria longa e bastante árdua.”

Homem calvo, de cabelos grisalhos.
Mario Ficarelli - Foto: Arquivo pessoal

Em 1969 e 1970, Ficarelli estudou composição com o professor Olivier Toni, da ECA. Nos anos 90 transferiu-se para a Suíça, onde continuou seus estudos. Em 1995, defendeu tese de doutorado na ECA sobre as sete sinfonias do compositor finlandês Jean Sibelius (1865-1957). Entre 1997 e 2005, foi diretor do Departamento de Música da ECA. Mario Ficarelli é tema de verbetes do Dicionário Grove de Música e do Who’s Who in the World.

*Estagiária sob orientação de Moisés Dorado


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