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No bumba meu boi, a comunidade educa com afeto e liberdade
Segundo pesquisadora, o boi-bumbá é permeado por valores afro-diaspóricos e a dimensão comunitária das festas segue presente tanto no São João do Maranhão quanto no Festival de Parintins
Neste fim de semana, dois grandes coletivos de bumba meu boi se reúnem em Parintins, no Amazonas, para disputar o título do Festival Folclórico. A competição acontece no Bumbódromo, uma arena com capacidade para cerca de 25 mil pessoas. Em 2024, o Festival de Parintins atraiu 120 mil turistas e movimentou R$ 180 milhões. Mas o que seria do bumba meu boi se, de repente, os turistas e as verbas publicitárias desaparecessem?
Na opinião de Soraia Chung Saura, professora da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP e pesquisadora de jogos e manifestações de comunidades tradicionais, a brincadeira do boi-bumbá continuaria, pois o essencial é sua dimensão comunitária. São as comunidades boieiras que transmitem os valores da festa de uma geração para a próxima e asseguram a experiência formativa das crianças que participam da brincadeira.
“Eu acho que a festa pode movimentar muito dinheiro, muito interesse publicitário, mas eu acho que, apesar de tudo isso, ela só permanece pela dimensão comunitária, pela dimensão sociopolítica, pela irmandade e pela existência (da própria festa). Ela sustenta aquela comunidade, é uma expressão que sustenta”, diz Soraia. “Tem um ciclo de vivência, de experiência comunitária que é atravessada sim pelos interesses, pelo turismo, pela grandiosidade que essa manifestação pode alcançar. Mas se ela voltar a não ter turista, ela continua existindo”, completa.
Soraia Chung Saura - Foto: Lattes
Enquanto, em Parintins, as nações do Boi Caprichoso e do Boi Garantido se encontram em uma competição com figurinos e alegorias que lembram algo do Carnaval das escolas de samba do Sudeste, no Maranhão os diversos grupos de boi estão se apresentando de maneira pulverizada durante a festa de São João, que vai de junho a julho. O bumba meu boi maranhense é uma das expressões culturais mais icônicas do Estado e abarca uma enorme diversidade de estilos regionais, que são chamados de “sotaques”. Apesar dos formatos diferentes, tanto no Amazonas quanto no Maranhão os bois têm torcidas que os acompanham e vibram nas apresentações.
Além dessas duas manifestações mais famosas do bumba meu boi, existem também outras expressões bem menos conhecidas. Elas incluem os bois que saem no Carnaval, os bois que saem em outras datas festivas, os do Cavalo Marinho de Pernambuco e também os da região Sul do Brasil. Segundo Soraia, são aspectos centrais da brincadeira do bumba meu boi sua flexibilidade, adaptabilidade, multivocalidade e multiplicidade. Graças a essas características a brincadeira do boi acontece em diferentes formatos, regiões, estados e até mesmo países.
“Por isso também que o título da minha tese, lá atrás, foi Planeta dos boieiros, que é uma frase do Tião Carvalho, quando ele vai falar dessa brincadeira”, comenta a docente, referindo-se ao mestre boieiro do Grupo Cupuaçu, que há mais de 30 anos puxa a brincadeira no Morro do Querosene, na zona oeste de São Paulo. O boi-bumbá do Morro do Querosene segue a tradição maranhense.
O bumba meu boi é uma festa preta
No Dia de São João, todos os grupos saem às ruas para brincar e mostrar seus bois e bordados novos. Segundo Soraia, no imaginário da festa, o boi é um símbolo da natureza associado à noção de fartura, o que é próprio das festas que marcam o solstício de inverno. O boi também é brincante, amansado e dócil. Mas tem chifres que lembram a sua natureza selvagem. No Maranhão, os coletivos oferecem seus bois a São João e também a entidades dos terreiros de Candomblé e Tambor de Mina.
A performance da brincadeira segue um roteiro. Os personagens Pai Francisco e Catirina são um casal de vaqueiros escravizados. Catirina está grávida e deseja comer língua de boi. Para atender ao desejo de Catirina, Francisco abate o boi mais bonito da região — que, por acaso, era o boi preferido do patrão. O patrão, então, ameaça o casal, que recorre a um pajé para restaurar o boi à vida.
Muita gente identifica no bumba meu boi uma síntese das contribuições de europeus, africanos e indígenas à cultura brasileira. Uma soma de tambores africanos com personagens indígenas e sopros e bordados europeus, por assim dizer. Soraia é crítica a essa visão. “Tem uma disputa de narrativa ao longo da história, ao longo do tempo. Por exemplo, em tempos de valorização dessa manifestação, costuma-se usar a narrativa que sustenta o mito das três raças. Então, esses elementos unidos fortalecem essa manifestação”, diz a professora.
“Em outros períodos históricos, ela é uma brincadeira de pretos. Que é o que ela é, na verdade. [Pretos] que são perseguidos, que não podem entrar na cidade, que não podem estar dentro do círculo da elite da cidade, é uma brincadeira meio selvagem. É uma brincadeira do povo da roça e que também foi perseguida”, afirma Soraia.
A docente e pesquisadora chama atenção à presença de elementos afro-diaspóricos no bumba meu boi. “Na brincadeira em si, os elementos da cultura afro-diaspórica são muito fortes, muito evidentes. Desde a forma de se vivenciar a experiência sagrada, a forma de brincar, a forma de dançar, a forma de se fazer as festas. Desse modo que é estético, que é sensorial, que é corporal e que é também um modo de aprender”, diz. “A dimensão étnico-racial vai transparecendo na brincadeira sem palavras, nos modos.”
Educar pelo fazer
A educação no bumba meu boi se dá pelos modos de fazer e pela dimensão estética, que é permeada por uma dimensão ética. “É uma prática de fazeres imbuída de valores afro-diaspóricos. Valores de respeito aos mais velhos, de respeito à infância, às diferentes infâncias. Valores de cuidado, de afeto, de referência comunitária”, explica Soraia.
Ela destaca que as crianças que crescem dentro das comunidades boieiras têm muita liberdade, muitas possibilidades de expressão e de desenvolvimento de potencialidades.
“Eu sempre digo que os mestres e as mestras do notório saber vão sempre na direção da potência dessas crianças, desses jovens ou mesmo do adulto que chega ali. Enaltecendo aquilo que a pessoa gosta, aquilo que ela sabe fazer, aquilo que ela tem de melhor e trazendo isso do individual para o coletivo. É uma experiência formativa muito bonita”, comenta a docente.
A brincadeira tem, ainda, uma dimensão política que aparece na voz do povo representada por Pai Francisco e Catirina e também nas toadas dos cantadores. Afinal, as letras das músicas também fazem referências ao debate político que atravessa o ciclo anual que culmina na festa. Além disso, para Soraia, o político vem à baila também “nas formas de se dançar e na própria forma de viver essa experiência de festa ritual, que atravessa tempos”.
*Estagiário sob orientação de Moisés Dorado
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