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LIVROS DA FUVEST 2026
Série do Jornal da USP aborda as obras exigidas no exame de ingresso para a USP
“Memórias de Martha” traz uma análise política e sociológica do Brasil pós-abolição
Primeira obra de Júlia Lopes de Almeida aborda a sociedade brasileira no final do século 19, especialmente a situação da mulher e sua busca por educação e trabalho
Arte sobre fotos de Arquivo Nacional/Wikipedia
Publicado originalmente em folhetim em 1888 e editado como livro somente em 1899, Memórias de Martha é o primeiro romance de Júlia Lopes de Almeida e leitura obrigatória para o Vestibular de 2026 da Fuvest, que desta vez traz só autoras mulheres. Trata-se de um romance narrado por uma mulher em primeira pessoa e ambientado num típico cortiço do Rio de Janeiro, abordando temas como desigualdade social, preconceito e transformações sociais e urbanas e, especialmente, a situação da mulher e sua emancipação através da educação e do trabalho.
Autora premiada de uma extensa obra literária, que reúne romances, contos, crônicas, literatura infantil, ensaios e teatro, Júlia participou ativamente das reuniões de fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL), concretizada em 1897, mas acabou não sendo integrada à agremiação pelo fato de ser mulher.
Assim, em Memórias de Martha, como em suas obras seguintes, destaca-se a preocupação da autora em dar voz a uma protagonista feminina e em ressaltar sua importância para a sociedade.
“A nova lista do vestibular da Fuvest contribui para dirimir exclusões e ‘esquecimentos’, promovendo leituras e revisões do cânone literário”, diz Laila Thaís Correa e Silva, pós-doutora em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e pesquisadora residente na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (2023-2025).
Laila Thaís Correa e Silva, pós-doutora em História pela FFLCH e pesquisadora residente na BBM - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Na obra, o leitor acompanha as lembranças de uma mulher adulta, passando por sensíveis relatos da sua infância, juventude e da relação com a mãe, sob o cenário de degradação e miséria em um cortiço no Rio de Janeiro no tempo do Império. É uma autobiografia ficcional de Martha, que órfã de pai se vê junto da mãe relegada à pobreza de um cortiço carioca do bairro de São Cristóvão, e que encontra na educação a única chance de escapar daquele lugar. Mesmo com a mãe aconselhando a filha a aprender os afazeres domésticos para que ela possa se sustentar, a menina vislumbra a ascensão por meio da carreira de professora.
A história
O romance aborda a vida de duas Marthas, a narradora e sua mãe, esta após a morte do marido se vê sem dinheiro para sustentar a filha e a si mesma, perdendo o status social de classe média e empobrecendo. Perdem a casa e acabam alugando um quarto de cortiço, onde Martha, mãe e filha, passam a morar. A mãe torna-se lavadeira, a filha, ainda muito pequena, cresce e inicia a vida escolar de modo dificultoso, vivendo e adoecendo no quarto úmido e escuro do cortiço, localizado na cidade do Rio de Janeiro, entre fins do Segundo Reinado e início da República, como conta Laila, que possui várias pesquisas com foco em História do Brasil Império, Literatura Brasileira e Literatura, Imprensa Feminista do século 19 no Brasil e em Autoria Feminina no Brasil dos séculos 19 e 20.
“Trata-se de um romance de formação, que percorre a tenra infância de Martha, seu crescimento e formação como mulher adulta, incluindo a conquista de uma profissão, casamento e, por fim, a morte da mãe”, conta a pesquisadora. Ela acrescenta que é por meio da educação que Martha – filha, narradora, percebeu que poderia exercer o magistério e, assim, ajudar a mãe financeiramente e promover a saída de ambas do cortiço. “O que de fato ocorre, Martha passa nos exames para exercer profissionalmente o magistério e obtém a liberdade financeira para ambas”, revela.
Contudo, por imposição da mãe, Martha casa-se, sem amor e sem desejo de constituir família, apenas por conveniência e convenção social. Logo após o casamento, a mãe de Martha falece, promovendo na filha a total perda de sentido na própria vida. “Com a dor da perda a personagem-narradora encerra as suas memórias, permeadas de desventuras, quedas e lutas pela sobrevivência”, comenta.
Estética realista
O livro nasceu como um romance-folhetim muito característico do Realismo, abordando os costumes da sociedade carioca no entresséculos e ao trazer personagens que viviam as mazelas sociais daqueles que estavam à margem: mulheres empobrecidas, famílias de imigrantes igualmente miseráveis e egressos da escravidão, que se tornavam trabalhadores dispensáveis, envelhecidos e, no limite, classificados como “vadios”, promovendo reflexões polítcas e crítica social, como afirma Laila.
Todavia, as personagens mãe e filha, outrora residentes em outro lugar da cidade do Rio de Janeiro, não se deixaram influenciar pelo meio, caracterizado como insalubre em vários momentos do texto, o que destoaria do característico determinismo da escola literária Naturalista, analisa a pesquisadora, citando uma afirmação do professor, crítico e historiador Alfredo Bosi em História Concisa da Literatura Brasileira: “O Realismo se tingirá de Naturalismo, no romance e no conto, sempre que fizer personagens e enredos submeterem-se ao destino cego das ‘leis naturais’ que a ciência da época julgava ter codificado”.
O que ocorre com Martha, explica a pesquisadora, se dá no sentido da desilusão e da completa falta de sentimentalismos ou voos românticos e fantasiosos, sobre si e sobre o mundo à sua volta, como neste trecho em que sintetiza os objetivos mais imediatos de sua vida: “A minha nevrose, a minha dor de viver, de ser feia, de ser pobre, de ser triste, durou ainda muito tempo; e creio que não se extinguiu absolutamente… Chegou, porém, uma ocasião em que me senti mais calma e mais resoluta. Esforcei-me por estudar e distraí o espírito com isso: devia em breve decidir-se a minha sorte como professora; aproximava-se o tempo dos últimos exames”.
Júlia Lopes de Almeida, autora do livro Memórias de Martha - Foto: Arquivo Nacional/Wikipedia
Além disso, Laila ressalta que a autora usa uma linguagem literária muito direta, fluida e envolvente, em que as memórias conseguem levar os leitores para o universo de Martha e dos moradores do cortiço. “Sendo o que chamaríamos de ‘romance de formação’, acompanhamos grande parte da vida, crescimento e amadurecimento da personagem-narradora, sob a perspectiva e os olhos dela mesma”, informa.
Capas de edições do livro As meninas - Foto: Reprodução/Editoras
Clique no player para conferir o vídeo com a análise da Laila Thaís Correa e Silva, pós-doutora em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e pesquisadora residente na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (2023-2025).
Trajetória da obra
O romance Memórias de Martha teve uma grande trajetória de elaboração, como diz a pesquisadora. “O romance de estreia de Júlia Lopes de Almeida foi publicado em folhetins na Tribuna Liberal, Rio de Janeiro, entre 3 de dezembro de 1888 e 18 de janeiro de 1889 e, posteriormente, em livro, com duas edições publicadas ainda em vida pela autora”, afirma Laila.
A pesquisadora cita as duas: a edição da Editora Casa Durski de Sorocaba, interior de São Paulo (1899), está presente no acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP e outra, impressa em Paris, pela Livraria Francesa e Estrangeira Truchy-Leroy, considerada a edição “definitiva”, por assim dizer, da obra, o que demonstra a elaboração e reelaboração dessa obra de estreia ao longo de quase toda a carreira da escritora. “A edição francesa das Memórias de Martha se deve, em grande medida, à estadia de Júlia Lopes em Paris nos últimos anos de sua vida e exercício literário”, complementa.
Segundo Laila, não se pode precisar como surgiu a ideia dessa temática para a obra de Júlia Lopes. “Mas podemos entendê-la no escopo de muitas preocupações que nortearam a atuação literária da escritora na imprensa, por exemplo, sua trajetória intelectual e sua inserção no movimento cultural e político de mulheres escritoras de seu tempo”, informa, citando uma declaração da própria autora no artigo Entre amigas, publicado no número de estreia da revista feminista de São Paulo, A Mensageira: “A mulher brasileira reconhece que pode mais, do que até aqui tem querido; que pode fazer mais, do que até aqui tem feito. Precisamos compreender antes de tudo e afirmar aos outros, atados por preconceitos e que julgam toda a liberdade de ação prejudicial à mulher na família, que é a bem da própria família, principalmente dela, que necessitamos de desenvolvimento intelectual e do apoio seguro de uma educação bem-feita”. Nesse sentido, diz a pesquisadora, “Martha, a narradora, investiu em sua educação como um meio de superar a vida no cortiço e atingir independência financeira, por meio de um trabalho que a alçasse socialmente para outro status, adquirindo independência e autonomia”.
Análise sociológica
Segundo Laila, “o livro aponta para a história do Brasil em um momento de mudanças políticas e sociais na Corte Imperial que se tornaria Capital Federal, a partir da Proclamação da República (1889), narrando em primeira pessoa e sob o ponto de vista feminino, como uma família composta apenas de mãe e filha conseguiu sobreviver às epidemias (febre amarela), à fome e às condições insalubres que moradias como os cortiços apresentavam, sobretudo ao desenvolvimento de uma criança”.
Laila ainda destaca que para uma análise política e sociológica do Rio de Janeiro e da sociedade brasileira, o livro de Júlia Lopes de Almeida tem importância ímpar, apresentando literariamente formas de vida e dificuldades que mulheres como Martha e sua mãe enfrentaram numa sociedade patriarcal e excludente. “Nesse sentido, as exclusões não apenas abarcaram a questão de gênero, mas, também, a questão de classe e raça, três aspectos que marcam as iniquidades da sociedade brasileira até os dias atuais”, comenta a pesquisadora.
Embora seja um livro sintético, com poucas páginas, Memórias de Martha não deve ser encarado como um romance simples, avisa a pesquisadora. “O enredo e a narrativa são densos e merecem uma leitura atenta, percebendo nuances como, por exemplo, o julgamento da personagem-narradora perante os convivas do cortiço, o que revela um recorte de classe interessante: Martha não se enxergava como semelhante aos demais moradores”, explica a professora. Além disso, ela diz, há também elementos raciais, que demonstram o preconceito de raça: como a colega de sala na escola pública, Mathilde, descrita como “feia, escura, marcada de bexigas”.
Charge da escritora na Revista Tagarela, em 1902 - Foto: Biblioteca Nacional
A pesquisadora alerta que o romance apresenta várias camadas de leitura e pode apresentar temáticas relevantes a serem abordadas como questões no vestibular: desde as modificações urbanas do Rio de Janeiro, moradias, epidemias, até a questão do Brasil no pós-abolição, o preconceito racial e de classe social. “Portanto, ler com atenção e notar que se trata de uma obra com muitos elementos será um diferencial relevante”, conclui.
O cortiço e suas diferenças em dois romances da literatura brasileira
Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, foi escrito dois anos antes do clássico O Cortiço, de Aluísio Azevedo ((1857-1913), e segundo a pesquisadora pode-se destacar vários aspectos a partir da comparação entre os dois romances, que são quase contemporâneos e foram ambientados no mesmo local, com personagens e situações um pouco similares. “Porém, o cortiço de Júlia Lopes se diferencia do cortiço de Azevedo em alguns aspectos importantes”, afirma Laila.
A pesquisadora lembra que na tenra infância o convívio no cortiço era difícil para Martha, subdesenvolvida, franzina e desacostumada ao cotidiano de um cortiço, como a própria personagem declara: “Chamavam-me lesma! Mole! Palerma! E riam-se das minhas quedas, da minha magreza e da minha timidez. Eu em começo estranhava aquela moradia, com tanta gente, tanto barulho, num corredor infecto onde o ar entrava contrafeito”. Isso, segundo Laila, aponta que, apesar da sua vivência e crescimento no cortiço, sua visão sobre os habitantes daquele espaço manteve-se como de repulsa e negação.
Já na outra obra: “O cortiço em que morávamos gozava da fama de ser um dos mais pacatos do bairro, devido à previdência do proprietário, um carroceiro português, que morava com a família no local”, mostrando o contraste, portanto, com as personagens de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, cuja primeira edição foi em 1890 e, portanto, posterior ao romance-folhetim de Júlia Almeida.
“No cortiço de Azevedo, observamos a queda moral de várias personagens que se entregam aos vícios, ou à prostituição. No cortiço de Júlia Lopes, a personagem principal e narradora ascende socialmente por meio do trabalho e da educação, algo que não esteve presente no cortiço de Aluísio. Embora ambos descrevam a desilusão dessas existências sociais marginalizadas, a forma de narrar e alguns dos destinos das personagens são distintos”, sublinha a pesquisadora.
“No entanto, gostaria de mencionar uma ideia que reside no conceito de cânone literário, que reserva o destaque e o reconhecimento de determinadas obras em detrimento de outras: as Memórias de Martha, como foi mencionado, antecede O Cortiço de Azevedo, contudo apenas este é lembrado como a obra que aborda o tema”, informa a pesquisadora. Segundo ela, essas e outras exclusões e esquecimentos de obras, sobretudo de autoria feminina do século 19 e início do 20, foram frequentes. Mas a nova lista da Fuvest contribui para dirimir exclusões, reitera.
Júlia e o marido Filinto de Almeida - Foto: Brasiliana Fotográfica/Acervo Claudio Lopes de Almeida
Erudição e solidez fazem parte da carreira da autora
Júlia Lopes de Almeida (Rio de Janeiro, 1862-1934) nasceu em uma família relativamente abastada de origem portuguesa, tendo morado em Portugal, Campinas (SP) e Rio de Janeiro. Para conhecer mais sobre o percurso formativo da escritora, a pesquisadora indica uma entrevista concedida por Júlia e o marido, o poeta português Filinto de Almeida, ao escritor João do Rio em O Momento Literário, intitulada “Um Lar de Artistas”, ocasião na qual a escritora admite que começou a escrever muito jovem, e escondida da família, revelando que a escrita se tratava de um prazer talvez proibido.
Contudo, diz Laila, a escritora recebeu apoio incondicional do pai, que a introduziu no mundo da escrita, cuja estreia se deu em 1881, com um artigo sobre a atriz italiana Gemma Cuniberti na Gazeta de Campinas, a pedido do próprio pai. Depois disso, sua carreira mostrou-se promissora, com pedidos de textos para vários jornais e a publicação de muitos romances, contos, poesia e obras ensaísticas, demonstrando a erudição e a solidez da formação de Júlia Lopes de Almeida como intelectual.































