Simpósio investiga como traumas históricos assombram o cinema atual

Com especialistas do Brasil e do exterior, evento acontece nos dias 23, 24 e 25 no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP e na Cinemateca Brasileira

 17/04/2025 - Publicado há 1 ano
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Uma sala de cinema no escuro.
Os espectros que rondam o cinema, com suas implicações políticas, são o tema principal do encontro – Imagem: Reprodução/MAC USP

 

No século 21, uma tendência fantasmagórica ronda o cinema ficcional e documental. Sejam entidades, espíritos ou monstros, os personagens espectrais assombram as narrativas, simbolizando traumas do passado que ainda marcam o presente. Nesses filmes, o sujeito assombrado também pode ser um país inteiro, traumatizado pela própria história. Essa dimensão política será discutida no 2º Simpósio Internacional Cinema Espectral e Paisagens Contestadas, que vai acontecer nos dias 23, 24 e 25, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP e na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Aberto ao público, o evento vai reunir 36 especialistas de oito países para debates, mesas-redondas e exibição de filmes.

O tema do cinema espectral e das paisagens contestadas

Mulher loira sorrindo.
A professora Cecília Mello, da Escola de Comunicações e Artes (ECA da USP – Foto: Acervo pessoal

O simpósio tem organização da professora Cecilia Mello e do doutorando Renato Trevizano dos Santos, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Segundo ela, a proposta é refletir sobre o cinema como espaço de manifestação do espectral, não apenas como representação literal de fantasmas, mas como presença de traumas históricos, ausências não resolvidas e memórias silenciadas. De acordo com a professora, esses espectros surgem em narrativas que revisitam passados traumáticos, remotos ou recentes, que ainda marcam o presente em paisagens e espaços não pacificados, isto é, lugares atravessados por disputas, apagamentos ou violências não elaboradas.

Essa tendência é visível no cinema contemporâneo de várias partes do mundo, especialmente na América Latina, onde assombrações, fantasmas e figuras sobrenaturais são mobilizados como formas de questionar a história, comenta Mello. “No cinema latino-americano, fantasmas, assombrações ou seres sobrenaturais aparecem como veículos para um questionamento de interpretações hegemônicas acerca de eventos históricos”, diz ela. Alguns filmes da região abordam, por exemplo, a relação com as populações indígenas e negras, trazendo à tona camadas invisibilizadas do passado colonial e suas consequências no presente.

“As cidades latino-americanas são marcadas por violência, por trauma, e tudo isso desestabiliza o presente. Nós temos tanto a violência urbana como espectros relacionados ao processo violento de colonização dentro do contexto latino-americano”, continua Mello. Dois painéis do simpósio serão dedicados a esse debate no contexto latino-americano pós-colonial: Paisagens Sensoriais e Espectros da Violência no Cinema Latino (painel 4) e Agência Espectral no Cinema Latino-Americano Pós-Colonial (painel 10). Ambos vão aprofundar as formas como o cinema lida com traumas históricos e a presença fantasmática em territórios marcados por conflitos e resistência.

Mais da programação do simpósio

Cada dia do evento trará uma exibição audiovisual e mesas de debate sobre diferentes abordagens do cinema espectral. No total, serão dez painéis de discussão. O evento também contará com as Sessões de Curtas-Metragens, organizadas em três blocos temáticos: Distopias Especulativas, com obras que abordam futuros possíveis e colapsos ambientais, como o estadunidense Eco, Um Desastre Feminista, e o inglês Icemeltland Park; Espectros Silenciosos e Ruidosos, que reunirá curtas sobre memória e presença invisível, como o marroquino Murmúrios e o turco Eu Também Fui Um Fantasma; e Rituais e Fabulações, que explora narrativas poéticas e simbólicas em filmes como o chileno Dança dos Fantasmas e os brasileiros Cemitério Verde e Cereja, Maracujá.

No painel 9, Mecanismos Cinematográficos Espectrais, será abordado o cinema do tailandês Apichatpong Weerasethakul, nome que sintetiza a onda de cinema espectral. A professora Cecília Mello explica: “Ele faz filmes no norte do seu país, uma região de selva onde ele cresceu. Nesses filmes há personagens que são fantasmas, mas convivem sem grandes espantos com as pessoas, os habitantes que hoje moram lá”. Naquela região da Tailândia, as forças militares do país reprimiram violentamente grupos comunistas na década de 1960, abandonando os corpos dos militantes na selva. “O espaço hoje é habitado por pessoas que não necessariamente têm consciência de que existem fantasmas que não foram devidamente enterrados. É um passado recente traumático com o qual a região não lidou ainda e retorna na figura do fantasma.”

No painel 3, Os Espectros do Cinema Queer, o professor Cristian Borges, da ECA, vai coordenar uma discussão sobre como esse trauma coletivo aparece em produções audiovisuais LGBTQIAPN+. O professor vai analisar o filme gay All of Us Strangers, de Andrew Haigh, refletindo sobre como ele lida com fantasmas afetivos e a ideia de “tirar os esqueletos do armário”. Também serão discutidas as performances de Marek Konieczny, na Polônia dos anos 1970, e a dimensão fantasmática da família queer no curta Swim or Sink, de Su Friedrich.

Além das discussões mais acadêmicas, a mesa 6, Futuros Assombrados e Colapso Ecológico, traz a performance Object Earth (“Objeto Terra”), um projeto midiático do coletivo artístico S3026 protagonizado pelo estadunidense Nima Bahrehmand e pelo chinês Laurids Sonne.

A criação do simpósio

Mulher de cabelos pretos sorrindo.
A professora Roz Mortimer, do Reino Unido, criadora do simpósio – Foto: GuideDoc

O Simpósio Internacional Cinema Espectral e Paisagens Contestadas foi criado em 2022 pela cineasta Roz Mortimer, professora da University for the Creative Arts, no Reino Unido, que cunhou o conceito de cinema espectral e paisagens conquistadas. A professora Cecilia Mello, que participou da primeira edição naquele ano, notou a ressonância do assunto em produções recentes da América Latina, da China e do Sudeste da Ásia, que são seu objeto de pesquisa. “Então nós pensamos em fazer com que esse evento fosse itinerante e pudesse contemplar pesquisadores de diferentes lugares e incluir outras vozes, outros aspectos relacionados à ideia do cinema espectral e das paisagens conquistadas”, afirma. O plano é que a terceira edição do evento seja na Tailândia.

No Brasil, o simpósio é promovido pelo Colégio da Artes do MAC, com apoio do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão, do Laboratório de Investigação e Crítica Audiovisual e da revista Significação – todos da ECA -, além da Cinemateca Brasileira.

O Simpósio Internacional Cinema Espectral e Paisagens Contestadas acontece nos dias 23, 24 e 25, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP (Avenida Pedro Álvares Cabral, 1.301, Ibirapuera, em São Paulo), e na Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, em São Paulo). Entrada grátis. Mais informações e a programação completa do evento estão disponíveis neste link.

*Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro


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