O papel da ambiguidade e da metalinguagem, instauradas por Umberto Eco, na discussão cultural

O discurso aberto é um apelo à responsabilidade, à escolha individual, um desafio e um estímulo para o gosto, para a imaginação, para a inteligência

 25/03/2025 - Publicado há 1 ano

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O professor Martin Grossmann retoma seus comentários das colunas anteriores sobre o papel da poética na cultura. Desta vez, para ilustrar mais uma vez sua tese, ele apela para uma obra que considera fundamental para a filosofia do século 20 e para a exploração da poética da cultura. “Trata-se do debate instaurado por Umberto Eco com o seu livro Obra Aberta, publicado pela primeira vez em 1962.” Em uma entrevista datada de 1966, o semiólogo, linguista e escritor italiano defende que o discurso aberto, em especial o da arte de vanguarda, tem duas características: a ambiguidade e a metalinguagem. “Eco enfatiza a ambiguidade, uma vez que a obra aberta, em suas palavras, ‘não tende a definir a realidade de modo unívoco, definitivo, já confeccionado (…) nos coloca numa condição de ‘estranhamento’, de ‘despaisamento’ (sensação trazida por mudanças de ambiente e hábitos); apresenta-nos as coisas de um modo novo, para além dos hábitos conquistados, infringindo as normas da linguagem, às quais havíamos sido habituados. (…) A ambiguidade fará com que a minha compreensão seja diferente da sua, e o discurso aberto se torne a possibilidade de discursos diversos, e para cada um de nós é uma contínua descoberta do mundo'”.

“Já em relação à segunda característica, a metalinguagem, Eco esclarece: ‘O discurso aberto tem como primeiro significado a própria estrutura, uma vez que ele (…) me reenvia antes de tudo não às coisas de que ele fala, mas ao modo pelo qual ele as diz. (…) Assim, a mensagem não se consuma jamais, permanece sempre como fonte de informações possíveis e responde de modo diverso a diversos tipos de sensibilidade e de cultura'”. A conclusão é a de que o discurso aberto é um apelo à responsabilidade, à escolha individual, um desafio e um estímulo para o gosto, para a imaginação, para a inteligência. O colunista promete voltar ao tema em sua próxima coluna, a fim de explorar situações e produções artístico-culturais “que possam caracterizar essa conceituação tão bem desenvolvida por Eco em torno dos discursos abertos nas poéticas contemporâneas”.

Na Cultura, o Centro está em Toda Parte

Com o Prof. Martin Grossmann

A coluna Na Cultura o Centro está em Toda Parte, com o professor Martin Grossmann, vai ao ar quinzenalmente, terça-feira às 9h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9), com produção da Rádio USP,  Jornal da USP e TV USP.


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