Modernizar o gerenciamento do sangue do paciente é urgente no Brasil

Além de diminuir casos graves de sangramento e reduzir gastos, o gerenciamento de sangue aplicando as estratégias PBM garante uma melhora significativa na condição do paciente

 22/04/2025 – Publicado há 1 ano

Texto: Gabriela Nangino
Arte: Moisés Dorado

Cirurgia em coração, com as mãos de dois médicos

A Society for the Advancement of Patient Blood Management (SABM) aplicou esse conceito em 2021 para otimizar resultados, com foco na redução do uso de componentes sanguíneos – Foto: Arquivo Pessoal/Marise Vieira

O manejo do sangue do paciente no preparo para cirurgias e procedimentos hospitalares é um grande desafio na medicina moderna. A cada ano, mais de 60 mil americanos morrem devido a choque hemorrágico, e, em todo o mundo, esse número chega a quase 2 milhões, segundo artigo publicado no The New England Journal of Medicine. Há 20 anos, surgiu o Patient Blood Management (PBM), um conjunto de estratégias para preservar o sangue do paciente que compõe uma alternativa mais segura à transfusão sanguínea. A Organização Mundial da Saúde (OMS) endossou o PBM em 2010 e, em 2021, oficializou uma política que exige que todos os Estados-membros atuem para adotá-lo.

A aplicação do método prevê a manutenção da concentração de hemoglobina do paciente, a otimização da hemostasia — resposta fisiológica do corpo para a prevenção ou interrupção de sangramento, a fim de bloquear lesões vasculares — e a minimização da perda sanguínea. Pensando nesses benefícios, Guilherme Rabello, graduado em Engenharia Civil pela Escola Politécnica (Poli) da USP e atual diretor de Inovação do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP, publicou um artigo que traz uma visão inovadora e disruptiva dentro do tema, prevendo a urgência de modernizar o gerenciamento de sangue no Brasil. 

“Aplicar técnicas de inovação é necessário para revisitarmos certos processos assistenciais e de envolvimento com pacientes”, afirma Rabello. O pesquisador realça que, durante a pandemia de covid-19, ocorreu uma acentuação na indisponibilidade de doação sanguínea, mas o número de doadores reduz progressivamente desde a crise do HIV. 

“A quantidade de sangue disponível hoje é menor e custa mais caro; ao mesmo tempo, a população envelhece, pois a expectativa de vida cresce. Tem pessoas vivendo mais que vão desenvolver mais doenças crônicas e vão precisar de mais intervenção médica, então o que acontece é um descasamento entre oferta e demanda” - Guilherme Rabello

Há evidências crescentes do risco de incompatibilidade e de outros efeitos colaterais que podem ser enfrentados durante a transfusão. Além disso, a escassez dos bancos de sangue muitas vezes inviabiliza o fornecimento necessário no momento em que o paciente precisa, podendo levá-lo à anemia e ao óbito. A proposta do PBM é instaurar formas de resolução menos reativas e mais preventivas, promovendo a ação conjunta de técnicas e métodos clínicos e cirúrgicos, o que exige uma mudança estrutural no perfil assistencial médico. “As formas convencionais de tratamento tendem a aumentar o risco do paciente necessitar a transfusão, o que se torna um ciclo vicioso”, aponta Rabello.

“Conservando o sangue do próprio paciente, o risco de uma reação imunológica e de infecção também diminui”, complementa. Já existem estratégias consolidadas em conservação e manipulação farmacológica, mas vários campos de pesquisa estão em desenvolvimento. Na área de bioengenharia tecidual, a produção in vitro ou modificação artificial de componentes sanguíneos pode eliminar incompatibilidades e auxiliar no tratamento de doenças hematológicas. Outra novidade são os fatores de crescimento recombinantes, proteínas artificiais que atraem células para uma ferida e estimulam o processo de cicatrização.

Além dos benefícios para a saúde do paciente e para a melhor gestão da rede de saúde, o PBM beneficia a economia, pois reduz diversos gastos. “Quando você cuida do paciente de uma maneira preventiva, evita-se a necessidade de um atendimento médico de maior complexidade”, ressalta. O diretor destaca a importância de promover a sustentabilidade da saúde: ao reduzir os riscos de reações adversas da transfusão, agiliza-se o atendimento do paciente, e, consequentemente, reduz-se o tempo de internação. Quanto menos tempo um paciente fica internado, menor o custo financeiro para o SUS, e maior a disponibilidade de leitos para o restante da população.

Uma simples gaze

Para o pesquisador, uma ferramenta essencial na busca por essa revolução médica é a Escala VIBe, uma escala validada para gravidade de sangramento que auxilia a estabelecer, rapidamente, a eficácia de diferentes estratégias hemostáticas em um cenário clínico. Utilizando apenas uma gaze como objeto de medição, ela permite que o profissional dimensione a perda de sangue do paciente e avalie a necessidade de intervenção imediata.

Tabela das quatro representações visuais da Escala VIBe, sua aparência anatômica, sua descrição qualitativa e a perda de sangue estimada do paciente

“Você só precisa ver o quão rapidamente o sangue encharca a gaze”, explica – Tabela do artigo

O benefício do procedimento está, exatamente, em sua simplicidade: qualquer pessoa treinada pode utilizar essa régua para saber como controlar um sangramento, mesmo sem ter uma especialidade, materiais ou exames complexos. “Isto é uma inovação por si só, pois facilita na resolução de um problema que põe em risco a vida do paciente, se não for identificado precocemente”, comenta o diretor.

A demora na mudança de protocolos clínicos, mesmo após a publicação de novas diretrizes, é um desafio comprovado. Segundo dados de pesquisas anteriores, leva em média 17 anos para que novas recomendações se tornem parte da prática diária. Rabello aponta que o PBM conflita com hábitos e métodos arraigados no ambiente hospitalar, e essa atualização cultural demanda estratégias de adaptação. “Vemos um grande potencial de ensino: [a escala VIBe] deveria ser incorporada como método de educação, especialmente para os profissionais de cirurgia.”

Equipe médica realizando cirurgia em coração, três observando e um segurando a luz para a sua realização

Várias sociedades médicas no País têm discutido e utilizado a escala; no InCor, ela já é referência em parte das cirurgias – Foto: Arquivo Pessoal/Marise Vieira

InCor

O Instituto do Coração é um hospital público universitário criado na década de 1950 como um centro de ensino, pesquisa e assistência em Cardiologia, Pneumologia e Cirurgias Cardíaca e Torácica. Na época, a cardiologia nascia como especialidade: o primeiro transplante de coração da América Latina foi realizado em 1968 pelas equipes dos professores Luiz Venere Décourt e Euryclides de Jesus Zerbini, médicos do Hospital das Clínicas e fundadores do instituto. Em 1977, o Ambulatório do InCor entrou em operação e deu início ao atendimento a pacientes.

Atualmente, o instituto é responsável por diversas atividades na área da saúde, com enfoque em assistência hospitalar humanizada a pacientes portadores de doenças cardiopulmonares de alta complexidade. Além disso, o InCor desenvolve tecnologias em saúde e fomenta pesquisas que visam a avançar na prevenção, no diagnóstico e na cura das doenças cardiopulmonares, garantindo a sustentabilidade e o uso racional dos recursos.

“Tivemos um sentimento de retorno com essa publicação”, relata Rabello. “Nós estamos introduzindo [o método PBM] aqui dentro do nosso projeto no InCor, para implementar isso como uma política assistencial do próprio hospital.” O cientista reforça que, recentemente, foi formado um grupo multiprofissional — englobando as áreas de gestão, assistencial, além dos setores de inovação, suporte e logística — para efetivar tal implementação. “Queremos trazer aquilo que a literatura e as pesquisas já indicam sobre economia e segurança para o nosso resultado, melhorando a qualidade do processo de assistência ao paciente.” 

Segundo o pesquisador, o momento atual é de evolução e aplicação dessas inovações, e espera-se que, no próximo ano, já haja dados para comprovar os benefícios dessas ações. O estudo foi financiado pela Baxter Healthcare Corporation, e, diferentemente de outras áreas da pesquisa, a inovação pretende chegar rapidamente ao campo prático. “Esse trabalho é um bom indicador no País de que temos a possibilidade de fundir conhecimentos”, finaliza Rabello.

O artigo When innovation meets patient blood management – a new way to see bleeding está disponível on-line e pode ser lido aqui.

Mais informações: guilherme.rabello@incor.usp.br, com Guilherme Rabello

*Estagiária sob orientação de Fabiana Mariz

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