Mostra do Cinema da USP combina épocas, gêneros e origens para atrair novos cinéfilos

Em cartaz até 6 de abril, "Para Gostar de Cinema", tradicional mostra de início de ano, promete trazer diversidade e cativar o público

 11/03/2025 - Publicado há 1 ano

Texto: Ricardo Thomé*

Cartaz da mostra Para Gostar de Cinema – Divulgação/Cinusp

Começou nesta segunda-feira, dia 10, a mais tradicional mostra do Cinema da USP Paulo Emílio (Cinusp), Para Gostar de Cinema, realizada anualmente no início das aulas do primeiro semestre letivo. “O grande desafio é mostrar filmes que são uma porta de entrada para gostar de cinema nas suas mais variadas formas. É uma seleção variada e afetuosa de filmes que levam inclusive quem já é aficionado a repensar por que seus olhos brilharam pela primeira vez no cinema”, afirma André Quevedo, um dos curadores do Cinusp. Neste ano, Para Gostar de Cinema vai apresentar produções de diferentes estilos, gêneros e épocas, a fim de explorar a subjetividade do que é gostar de cinema. Ao todo, serão exibidos 26 filmes, sendo 24 longas e dois curtas-metragens, produzidos por 11 países e feitos no decorrer de nove décadas, desde 1920, vários deles com cópias atualizadas em 4K. A mostra fica em cartaz até 6 de abril, com sessões na Nova Sala do Cinusp, no Centro Cultural Camargo Guarnieri, na Cidade Universitária, em São Paulo, e no Centro MariAntonia da USP, na Vila Buarque, região central de São Paulo. A entrada é gratuita e a programação completa está disponível no site do Cinusp.

Além da exibição dos filmes regulares, a mostra receberá alguns eventos especiais. Nesta sexta-feira, dia 14, às 21 horas, na Nova Sala, será apresentado Aftersun (Charlotte Wells, 2021), filme que estava programado para ser exibido na mostra Esquecer Para Lembrar, em agosto de 2024, mas que acabou saindo da programação por questões de direitos autorais. Também na Nova Sala, mas no dia 21, às 16 horas, e no Centro MariAntonia, no dia 29, às 19 horas, será mostrado o taiwanês A Touch of Zen (King Hu, 1970). O longa pertence ao wuxia, versão chinesa do que seriam os filmes de samurais no Japão. “É um gênero muito calcado na literatura chinesa, nas artes marciais, na magia e na espiritualidade, com os espadachins”, explica Theo Gama, também curador do Cinusp. Já no dia 28, a partir das 19 horas, na Nova Sala, será exibido o Noitão Trilogia Before, que faz referência aos filmes Before Sunrise (1995), Before Sunset (2004) e Before Midnight (2013) — em português, Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia-noite, respectivamente. “São filmes de romance, que fizeram parte do começo de muita gente na cinefilia”, comenta Gama.

Clássicos e novos clássicos
Faz parte da estratégia de montagem da mostra, também, a exibição de clássicos do cinema mundial. A curadora Clara Barra, do Cinusp, conta que, pela terceira vez consecutiva, Para Gostar de Cinema conta com uma produção do diretor britânico Alfred Hitchcock (1899-1980) em sua programação, com Psicose (1960). “Acho que isso acontece porque Hitchcock é um cineasta que tem uma capacidade de sedução muito grande. E neste ano trouxemos talvez o mais sedutor e reconhecível de suas obras.” O filme conta a história de uma secretária que desvia dinheiro de seu cliente e, diante disso, acaba fugindo para um motel, onde encontra um jovem, gestor do local que cuida da mãe acamada. 

Dentre os clássicos em preto e branco, também serão mostrados Metrópolis (Fritz Lang, 1927) e A Doce Vida (Federico Fellini, 1960). O primeiro é uma ficção científica que se passa em uma cidade onde, em 2026, existe uma desigualdade entre os poderosos e os operários, fato que só é levado a sério quando um dos poderosos se apaixona pela líder dos operários. O segundo, por sua vez, conta a história de um jornalista cujo trabalho se concentra em contar histórias sensacionalistas sobre a aristocracia decadente da Roma de sua época.

Dentre os clássicos coloridos, a mostra traz o musical Um Americano em Paris, que traz a história de um americano expatriado que vai para Paris tentar trabalhar como pintor e acaba se apaixonando por uma francesa. O curador André Quevedo destaca que os clássicos da mostra são filmes que, “mesmo que você não tenha visto, deve ter algum imaginário, alguma imagem-signo, que o incentiva a ir lá e experienciar o que eles são, de fato”. Ele cita como exemplos a cena do chuveiro de Psicose, a cena da Fontana di Trevi, em A Doce Vida, e a cena final de Um Americano em Paris, referenciada pelo filme La La Land (2016).

Os curadores também destacam a presença de novos clássicos, filmes lançados entre as décadas de 1980 e 2000 e que já se constituíram como icônicos. “Um que está muito no imaginário popular, até nostálgico, é Sinais (M. Night Shyamalan, 2002), talvez o mais mainstream dentre os clássicos que trouxemos”, comenta Clara. Sinais é uma ficção científica que tem como ponto central uma família que encontra círculos em suas plantações, acompanhados de acontecimentos anormais. A curadora do Cinusp também joga luz sobre Bom Trabalho (Claire Denis, 1999), obra que retrata as memórias do ex-suboficial da Brigada da Legião Francesa Galoup, quando treinava tropas em Djibouti, e os problemas que ele enfrenta nesse processo. Crash – Estranhos Prazeres (David Cronenberg, 1996) é outro longa relevante, que conta a história de um diretor de TV que, ao sofrer um acidente automobilístico, percebe ter uma inquietante relação quando se trata de carros e sexo. “É um cinema que se propõe a pensar o colonialismo, a sexualidade, a imagem, o ritmo. Tudo de um jeito muito diferente”, completa. The Brown Bunny (Vincent Gallo, 2003) segue a mesma linha ao unir motovelocidade a lembranças amorosas. 

De todos os cantos

Como já é de praxe nas mostras do Cinema da USP Paulo Emílio, serão exibidas obras de várias partes do mundo. Do Brasil são duas: Ilha dos Prazeres Proibidos (Carlos Reichenbach, 1979) e Cabra Marcado Para Morrer (Eduardo Coutinho, 1962-1984). O primeiro é uma pornochanchada que narra a jornada de Ana, assassina de aluguel que finge ser uma jornalista quando vai à Ilha dos Prazeres matar subversivos a mando da extrema direita. O segundo, que teve suas gravações interrompidas devido ao golpe militar, em 1964, trata da luta camponesa e das injustiças cometidas naquela época. A escolha pelo documentário se deu, também, pelo centenário de Elizabeth Teixeira, trabalhadora rural e ativista paraibana, que aparece no longa. Curador do Cinusp, Filipe Oliveira explica que a escolha por filmes tão diferentes se dá, também, na intenção de dizer que um documentário sério e uma pornochanchada podem ser igualmente valiosos, ideia complementada por Clara Barra: “Queremos mostrar que a pornografia e a pornochanchada, tão diminuídas nos discursos que dizem defender o cinema brasileiro afirmando que ‘nem tudo é só sexo’, são, também, sofisticadas”.

Além de fazer essa crítica, os filmes foram escolhidos por serem, eles mesmos, críticos, no período em que foram produzidos. “São dois filmes que têm uma relação muito direta com a ditadura militar. Porque o Ilha, apesar de ser uma espécie de comédia erótica, tematiza a questão política. A Ilha dos Prazeres Proibidos é essa ilha que é composta de pessoas que são exiladas políticas. E Cabra Marcado para Morrer foi impedido de ser produzido pela ditadura. E o diretor, Eduardo Coutinho, vai atrás das pessoas perseguidas das ligas camponesas 20 anos depois para ver o que aconteceu com elas. Então, são duas coisas muito diferentes, mas que estão no mesmo momento histórico”, analisa Gama. Sobre Cabra Marcado para Morrer, Oliveira observa, também, semelhanças entre o filme e o agora premiado com o Oscar de melhor filme internacional, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles. “No que diz respeito a resgatar a memória da ditadura e ao cinema como uma ferramenta de resgatá-la e de incorporá-la, esse é, talvez, o filme brasileiro que mais faça isso.”

Outro filme de forte teor político trazido pela mostra é Sambizanga (Sarah Maldoror, 1972). O filme tematiza a Revolução de Independência de Angola (1961-1975) e é encenado por atores não profissionais, mas envolvidos com a luta. Esse é o mesmo motivo pelo qual o longa foi filmado no Congo, e não em Angola, durante os eventos. Sarah Maldoror, que é nascida na França, tem pai caribenho e era casada com um angolano, conta a história de uma mulher que tem seu marido, ativista político engajado na luta pela independência, preso sem maiores explicações. A partir daí, ela vai a várias prisões a fim de descobrir seu paradeiro. “É um filme muito corajoso e muito importante para o cinema africano, ao abordar repressão e  desaparecimento político, e de alguma forma também ecoa Cabra Marcado Para Morrer e Ainda Estou Aqui”, comenta Gama. Clara lembra que, recentemente, a Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular) tem adotado livros que remontam ao período de independência dos países africanos, de forma que muitos vestibulandos recentes podem identificar um repertório conhecido.

No que se refere aos filmes asiáticos, Para Gostar de Cinema foca em três produções japonesas de épocas e estilos distintos. O primeiro deles é Akira (Katsuhiro Ôtomo, 1988), animação que aborda um 2019 hipotético, quando Tóquio foi destruída por uma explosão e agora existe apenas Neo Tóquio, cidade que está sob ataques terroristas constantes. Em meio a isso, dois amigos motociclistas acabam se envolvendo com algo muito maior do que eles. A segunda obra japonesa é Pulse (Kiyoshi Kurosawa, 2001), que aborda um fantasma que se espalha como se fosse um vírus de computador, o que faz com que as pessoas se isolem e morram. “Pulse acompanha Psicose na ideia de terror, separados por algumas décadas e adentrando a era digital. Ele tem uma metáfora com a vida contemporânea. É muito assustador, mas muito crítico, também”, explica Clara. O terceiro filme japonês é Shin Godzilla (Hideaki Anno, Shinji Higuchi, 2016), que, na opinião da curadora, incorpora elementos dos outros dois: “O diretor é de uma geração próxima à de Kurosawa, mas usa muito a linguagem do anime, mais próxima de Akira. Então é muito interessante porque nós temos o Godzilla, um monstro da década de 1950, sendo contado por esse diretor das décadas de 1990-2000, e valendo-se de um repertório muito forte dos animes”. 

A Ásia também se vê representada por A Canção da Estrada (Satyajit Ray, 1955), filme indiano que teve muito apelo fora do país e foi porta de entrada para a Índia no cenário cinematográfico mundial, ao contar a história de uma família pobre da região de Bengala. Clara lembra que a obra aborda, justamente, uma região menos representada no cinema indiano até então, além de ser falada totalmente no idioma bengali. 

De volta à América Latina, a mostra traz De Certa Maneira (Sara Gómez, 1977), documentário-ficção que é feito com base em idas à Cuba pós-Revolução Cubana (1953-1959), a fim de ver quais problemas persistem e o que ainda é necessário ser feito. “O filme aborda vários problemas, seja sobre gênero, seja sobre as relações entre os homens e as mulheres nessa nova sociedade socialista, seja sobre a relação entre a cultura revolucionária, a cultura espanhola e as várias culturas africanas que chegaram lá”, comenta Quevedo. O longa foi feito pouco antes da morte de Sara Gómez (1942-1974), única mulher negra a participar do surgimento do cinema cubano revolucionário. De Certa Maneira é precedido do curta-metragem Saudações, Cubanos! (Agnès Varda, 1963), filme produzido por meio de várias fotografias feitas pela cineasta belga após visitar Cuba. “Ela vai passando uma foto para outra, as fotos se encadeiam numa velocidade que parece até filme”, conta. O curta dá a deixa para o longa quando termina com uma cena de Sara Gómez dançando. 

Crash – Estranhos Prazeres também é precedido de um curta metragem: trata-se de Kustom Kar Kommandos (Kenneth Anger, 1965). Quevedo define o diretor da obra como um “cineasta experimental americano muito ligado a um retorno meio maneirista, homoerótico, de um imaginário mitológico muito variado”, o que faz com que o curta, que faz algo semelhante a um “striptease” de um carro, seja um ótimo prefácio para o longa, que fala sobre sexo e carros. 

Para Gostar de Cinema ainda tem mais três filmes em cartaz. Rio Bravo (Howard Hawks, 1959) é um western (filme de faroeste) que traz um grupo de heróis improváveis reunidos por um xerife, cujo objetivo é manter preso o irmão de um grande criminoso da cidade. Sobre o filme, Clara afirma que, da mesma forma que as obras de Hideaki Anno são “animes para quem não gosta de animes”, Rio Bravo é o western para quem não gosta do gênero. De Hong Kong vem Felizes Juntos (Wong Kar-Wa, 1997), longa que conta a história de um casal de Hong Kong que se muda para a Argentina em busca de se reconectar, mas acaba por se distanciar ainda mais. Já A Dupla Vida de Veronique (Krzysztof Kieślowski, 1991) traz as histórias paralelas de duas mulheres idênticas, uma que vive na França e outra que vive na Polônia, e que nem imaginam que suas vidas estão ligadas.

A mostra Para Gostar de Cinema, do Cinema da USP Paulo Emílio (Cinusp), está em cartaz até 6 de abril (domingo), em sessões às 16h, 18h e 19h, nas salas do Cinusp instaladas no Centro Cultural Camargo Guarnieri da USP (Rua do Anfiteatro, 109, Cidade Universitária, São Paulo) e no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 258, Vila Buarque, região central de São Paulo, próximo às estações Higienópolis-Mackenzie e Santa Cecília do metrô). Haverá, também, uma sessão do filme Metrópolis programada para o dia 19 de março, às 17 horas, e uma sessão do filme Aftersun, que acontece no dia 14, às 21 horas. Entrada grátis. A programação completa da mostra e mais informações estão disponíveis no site do Cinusp.

*Estagiário sob supervisão de Roberto C. G. Castro

**Todas as fotos são de divulgação do Site do Cinusp


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