“Entender os entregadores hoje é entender para onde o mundo do trabalho está se encaminhando”

Debora Leite dos Santos investiga as novas formas de resistência e organização coletiva no trabalho por plataformas digitais, focando nos entregadores por aplicativo

 31/03/2026 - Publicado há 4 meses
Fotomontagem de mãos segurando um celular na rua, sendo que em volta do aparelho flutuam vários símbolos
Trata-se de uma categoria que vem criando novas formas de organização coletiva, especialmente por intermédio das redes sociais – Imagem: Freepik
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A dissertação de mestrado de Debora Leite dos Santos, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, investiga as novas formas de resistência e organização coletiva no trabalho por plataformas digitais. O foco é nos entregadores por aplicativo, num contexto marcado por questões como informalidade estrutural e pelos limites das formas sindicais tradicionais. O estudo busca compreender como esses trabalhadores constroem vínculos de solidariedade, produzem discursos e articulam práticas coletivas em ambientes digitais, especialmente em aplicativos de mensagens instantâneas, como o Telegram. Debora apontou sua lente para os entregadores por aplicativo por entender que eles estão no centro de uma transformação profunda do mundo do trabalho. “Não podemos esquecer que foram esses trabalhadores que protagonizaram mobilizações nacionais importantes, como o breque dos apps, que teve forte adesão e apoio popular.”

Debora Leite dos Santos – Foto: Lattes

Basta esse simples fato, de acordo com ela, para mostrar que se trata de uma categoria que vem criando novas formas de organização coletiva, especialmente por intermédio das redes sociais. “É nesse espaço (das redes sociais) que aparecem, de forma muito visível, as novas tensões entre capital e trabalho. Há novas formas de exploração, mas há também novas formas de resistência”, afirma. “Entender os entregadores hoje é, em grande medida, entender para onde o mundo do trabalho está (se) encaminhando.”

Como metodologia, ela conta ter feito uso de dados empíricos em grande escala, ao analisar oito grupos públicos de entregadores dentro do Telegram, coletando em torno de 134 mil mensagens entre abril de 2023 e setembro de 2025. A partir dos dados obtidos, Debora fez um recorte analítico, selecionando 4.626 publicações com base em 11 palavras-chave, todas relacionadas às mobilizações desses trabalhadores. Na sequência, e ainda a partir daqueles dados, a mestranda realizou uma análise qualitativa para identificar padrões e discursos e as formas de organização dos entregadores, além das contradições presentes nos espaços virtuais.

Espaços digitais como arena de resistência

Uma das constatações a que chegou, a partir da interação entre esses trabalhadores, foi a de que espaços digitais como o Telegram configuram hoje arenas fundamentais de resistência e construções de identidades políticas, “contribuindo para a produção de coesão, fortalecimento de vínculos e o desenvolvimento de processos de organização coletiva”. Debora destaca, como uma das principais conclusões de seu trabalho, a existência de uma consciência política de classe. “Esses trabalhadores reconhecem a exploração a que estão submetidos, falam em luta e se mobilizam coletivamente, os dados mostram nitidamente a presença de solidariedade de classe entre eles.” E isso, segundo ela, é muito relevante por contrariar um discurso, bastante difundido nas redes sociais, de que o trabalho por aplicativo produziria indivíduos isolados, atomizados e puramente individualistas, “como sugere a lógica neoliberal”, frisa.

Debora observa ainda que, embora possuindo consciência de classe, esta não se expressa nos moldes tradicionais. “Muitos desses trabalhadores associam a CLT a baixos salários, à rigidez, à perda de autonomia, enquanto valorizam a acessibilidade e a possibilidade da renda imediata. É importante destacar que a formação política desses trabalhadores acontece nesses ambientes digitais, que são fortemente permeados por polarização política.” Isso, por outro lado, “significa que a consciência de classe não se forma num espaço neutro, está atravessada por disputas ideológicas, narrativas concorrentes e diferentes interpretações sobre trabalho, direitos e autonomia”. Nesses espaços circulam ainda discursos que reforçam a lógica individualista e empreendedora. “Eles não estão desorganizados, eles estão organizados de outra forma”, constata. Para tanto, se valem de grupos e redes para troca de informações e denunciar os dilemas que vivenciam em seu dia a dia, convocar paralisações e construir apoio mútuo.


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