Setor de turismo se adapta para receber novos e peludos hóspedes: os pets

Vitória Avelino, especialista na área, ressalta as modificações e os desafios enfrentados pelos setores econômicos nessa “nova onda”

 27/03/2026 - Publicado há 2 meses     Atualizado: 30/03/2026 às 16:43
Por

chapéu do ciência e turismo

A liberação gradual de pets em espaços como shoppings, praias e trilhas é reflexo de um novo perfil de viajante – Foto: Freepik
Logo da Rádio USP

Viajar com animais de estimação deixou de ser uma exceção para se tornar uma demanda crescente e estruturante no turismo contemporâneo. Segundo o Instituto Pet Brasil, o País possui aproximadamente 150 milhões de animais de estimação, entre cães e gatos. O dado se torna ainda mais expressivo quando comparado ao número de crianças: o Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contabilizou em torno de 40 milhões de pessoas com até 14 anos, o que significa que, hoje, há mais pets do que crianças nos lares brasileiros.

Vitória Avelino, doutoranda em Turismo pela Universidade de São Paulo, traz seu ponto de vista acerca do assunto. “Mais do que companhias, os pets passaram a ser sujeitos afetivos que influenciam decisões importantes da rotina doméstica, como a escolha de destinos de viagem, meios de transporte e hospedagem.”

Adequações para um mercado pet friendly

“Esse fenômeno tem implicações diretas no mercado turístico. Em estudo publicado na revista Hospitalidade, os autores apontam que o setor hoteleiro vem implementando políticas para se adequar à demanda pet friendly, principalmente nas capitais. Em Belo Horizonte, por exemplo, a adaptação tem se dado tanto na aceitação de animais em quartos de hotéis quanto na oferta de serviços especializados, como áreas de lazer e cardápios exclusivos”, afirma a especialista.

Vitória Avelino – Foto: LinkedIn

Além dessas adaptações, comenta Vitória, há movimentações no setor de transportes e nos serviços turísticos em geral. De acordo com dados das companhias aéreas brasileiras, cerca de 80 mil pets foram transportados em 2023, sendo que 90% viajam na cabine junto aos seus tutores. Como referência, a Latam registrou aumento de 21% no transporte de animais de pequeno porte em voos domésticos entre 2022 e 2024, segundo dados divulgados pela própria companhia. A liberação gradual de pets em espaços como shoppings, praias e trilhas também é reflexo desse novo perfil de viajante, que não se separa de seu animal de estimação.

Do ponto de vista econômico, o impacto é robusto. Segundo a Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação, em 2024 o mercado pet brasileiro movimentou cerca de R$ 75 bilhões, com crescimento de 12,1% em relação a 2023. Parte significativa desse valor está associada à chamada “economia da experiência”, onde se incluem viagens, hospedagens e produtos voltados a pets em movimento.

No entanto, o crescimento do turismo pet friendly não é isento de desafios. Conforme estudo de 2020, os autores informam que ainda há falta de padronização nos serviços, ausência de treinamento especializado por parte dos trabalhadores do setor e conflitos entre hóspedes tutores e não tutores, que demandam políticas de convivência mais claras. Apesar disso, o cenário aponta para um reposicionamento do turismo no Brasil e no mundo, em que o afeto interespécie passa a ser considerado uma variável relevante na formatação de produtos, serviços e experiências.

“Nesse contexto, pensar políticas públicas, formações profissionais e estratégias de mercado voltadas ao turismo pet friendly não é apenas responder a uma tendência de consumo, mas reconhecer uma reconfiguração profunda das relações entre humanos e animais, que afeta desde os vínculos afetivos até as lógicas de mobilidade e pertencimento. Ignorar esse movimento é permanecer preso a uma concepção ultrapassada de turismo, centrada apenas na figura do turista humano autônomo. Reconhecê-lo, por outro lado, é compreender que hoje viajamos acompanhados não apenas por malas e documentos, mas também por vínculos afetivos que latem, ronronam — e movimentam bilhões”, finaliza Vitória.

*Sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo


Jornal da USP no Ar 
Jornal da USP no Ar no ar veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 12h40, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular. 


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.