Um resumo econômico-ambiental de Davos e seu paralelo com a COP30

Por Khadeeja Ferraz Baloch, mestranda no Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP

 26/02/2026 - Publicado há 5 meses
Khadeeja Ferraz Baloch – Foto: Arquivo pessoal
O Encontro Anual do Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum) aconteceu no final de janeiro e, mais uma vez, apresentou-se como o palco onde lideranças globais discutem o futuro. Em 2026, o encontro estruturou-se em torno de cinco perguntas centrais, sendo uma delas: “Como construir prosperidade dentro dos limites planetários?”. É nesta questão que este texto se debruça.

A COP30 já havia exposto um ponto incontroverso: os limites físicos do planeta estão sendo ultrapassados e o tempo de resposta política é manifestamente insuficiente. Davos, com as falas de alguns governantes, escancarou o fato de que alguns mecanismos econômicos dominantes ainda acreditam na ilusão de que o crescimento pode ser infinito, tratando ecossistemas como mero pano de fundo e a estabilidade climática como um detalhe.

Neste cenário, Donald Trump surge não como causa, mas como sintoma. Seu discurso e postura reativam uma lógica de soberania e competição que flerta com a chamada “Teoria do Louco”: declarações confusas, agressivas e imprevisíveis que funcionam menos como um plano coerente e mais como ferramenta de intimidação geopolítica — e que funcionam.

Mas a ciência não trabalha com retórica. Johan Rockström, do Instituto Potsdam, apresentou evidências de que seis dos nove limites planetários já foram ultrapassados: clima, biodiversidade, ciclos de nitrogênio e fósforo, mudança no uso do solo, água doce e novos compostos químicos. O sistema opera sobrecarregado. Estamos utilizando o planeta como um recurso renovável ilimitado, quando ele já responde como um sistema exaurido. Curiosamente, na própria lógica de mercado, sabe-se bem que modelos de negócio assim não prosperam por muito tempo.

O efeito é visível: eventos extremos tornam-se mais frequentes, caros e imprevisíveis; não por acaso, cresce o espaço para fundos de catástrofe e mecanismos de risco climático. A economia global tenta responder da única forma que sabe: precificando o desastre. O problema é que, ao precificar, ela normaliza. E, ao normalizar, trata o colapso como uma variável de mercado, e não como a ruptura da estabilidade civilizatória.

O que escapa à equação da elite global é que nenhuma prosperidade econômica se sustenta sem estabilidade ambiental. Produção, comércio, energia, previsibilidade logística, segurança alimentar e até o avanço tecnológico dependem de um chão material estável. A pergunta já não é se existe “risco ambiental” para a economia, mas sim: quanto tempo a economia consegue fingir que não depende de um planeta funcional?

André Hoffmann sintetizou essa relação com precisão: “Sem natureza, não há humanidade, não há negócios, não há dividendos, não há acionistas”. A economia é um subsistema da biosfera, e não o contrário.

Ainda assim, Davos revelou um comportamento paradoxal. De um lado, o reconhecimento crescente da crise; de outro, o movimento de transformar limite em ativo, risco em oportunidade, colapso em modelo de negócio.

Essa ironia aparece com clareza na postura de Trump diante da Groenlândia. O derretimento das geleiras passa a ser vendido como vantagem comercial para novas rotas marítimas e reposicionamento geopolítico. Se o mundo aquece, alguém pode lucrar enquanto o custo é socializado (enchentes, secas, migrações, colapsos locais).

O contraste torna-se gritante ao conectar Davos ao ciclo recente do multilateralismo climático. A COP30, em Belém, expôs os limites históricos do regime climático: a transição energética real — com metas claras e redução estrutural de fósseis — emergiu como demanda central, sustentada pela ciência, mas bloqueada pelo mercado. O texto final omitiu qualquer roteiro robusto, confirmando o poder de veto dos interesses fósseis.

O que se vê é a bifurcação do mesmo fenômeno. A COP traz a financeirização da sustentabilidade, tentando transformar o investimento verde na solução. Trump, por sua vez, revela a versão mais crua: a financeirização do próprio aquecimento global, tratando a crise climática como uma oportunidade inevitável e explorável.

Em Davos, Trump atacou frontalmente a agenda climática. Ridicularizou as energias renováveis, classificou as políticas ambientais como a “Nova Farsa Verde” (Green New Scam) e prometeu transformar os Estados Unidos na “capital dos combustíveis fósseis”. Atribuiu a crise europeia à combinação de “energia verde e migração em massa”, operando com afirmações factualmente questionáveis, mas politicamente eficazes.

Nesse sentido, expõe-se uma fissura fundamental: enquanto a ciência ganha espaço no discurso, o capitalismo global segue operando com a lógica extrativista. A governança climática avança a passos lentos, negociada com enorme custo político e frequentemente limitada ao que é “aceitável” para os interesses fósseis. Governantes mostram-se hesitantes, dispostos a pisar em ovos para não incomodar magnatas que acreditam tanto no poder do próprio dinheiro que obrigam o resto do mundo a respeitá-lo. O sistema comporta-se como se a prosperidade fosse possível justamente pela violação dos limites que nos sustentam.

O que está em disputa, portanto, não é apenas um novo modelo de financiamento. O que está em jogo é a própria ideia de prosperidade. Ela pode significar acumulação e expansão irrestrita — ou pode significar estabilidade, resiliência e justiça intergeracional. A pergunta de Davos abre espaço para a segunda definição, mas a prática dominante segue operando pela primeira.

A crise climática deixou de ser apenas ambiental; tornou-se uma crise de governança, de modelo econômico e de imaginação política. Talvez não tenha ficado claro nos fóruns econômicos que o planeta não negocia. A biosfera não responde a incentivos fiscais, não reconhece custos de oportunidade e ignora novas rotas comerciais. Pode ser que sequer haja tempo para gastar todo o dinheiro acumulado, ou para reverter os retrocessos provocados por lideranças que apostam que a riqueza compra tudo.

Infelizmente, por mais que procurem, o dinheiro não compra um planeta habitável.

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