Ao mestre, com delicadeza

Por Marilia Fiorillo, professora de Filosofia Política e Retórica da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

 19/02/2026 - Publicado há 5 meses
José Álvaro Moisés - Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Marília Fiorillo – Foto: Lattes

Fui aluna de José Alvaro Moisés na FFLCH no final dos anos 70. Depois enveredei pela carreira jornalística, como articulista e editora de cultura e política internacional. Até que voltei à USP como professora em 2006. Nunca mais encontrei Moisés, embora há anos estivéssemos lado a lado como colunistas da Rádio USP (ele, de política brasileira, eu, mais modestamente, de geopolítica internacional).

Do pouco que alcanço, não há, atualmente, grande afinidade político-partidária entre nós. E nunca participei de seus grupos de trabalho e pesquisa ou de suas redes, embora acompanhasse com interesse suas ideias, fartamente mencionadas e elogiadas, e que dispensam apresentações. Daí esta homenagem ao mestre ser totalmente graciosa e desinteressada. É uma homenagem a um ideal que tende a se perder e, infelizmente, dar lugar ao carreirismo desenfreado e virulento e ao “empreendedorismo” das ideias.

A maior virtude de Moisés era a generosidade intelectual e delicadeza no trato, inclusive com os aprendizes. Virtudes não muito usuais no meio acadêmico em que impera a Schadenfreude, embora notáveis em vários mestres brasileiros, cujos nomes omito para não incorrer em injustos esquecimentos. Mas menciono duas honrosas exceções: meu tutor canadense Andre Corten e a professora emérita da London School of Econimics, Eileen Barker. São estas qualidades – a capacidade de acolher pensamentos diferentes ou hesitantes e, mesmo os repreendendo, fazê-lo com amabilidade – que conquistam as mentes.

No final dos anos 1970 e início dos 80, nós, alunos, éramos jovens carbonários com um idealismo de cristal e impetuosidade indomável (a ponto de exigir de um docente de antropologia que introduzisse a fórceps o conceito marxista de “classe” em tribos indígenas). Moisés amansava tais rompantes com a mais vigorosa das armas: afabilidade e tato. Chegou até a converter alguns bagrinhos recalcitrantes…

Como lembrou uma colega de turma, ele seguia o receituário do escritor Henry James. Quando lhe perguntaram quais as três coisas mais importantes da vida, respondeu: primeiro, a gentileza; segundo, a gentileza; terceiro e último… a gentileza.

Obrigada, professor.

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