

Curiosamente, o termo diplomacia da arte é muito pouco difundido. O conceito diplomacia da cultura, mais próximo de diplomacia da arte, é mais difundido, mas não dá conta de exprimir a inovação da ideia de diplomacia da arte. Vale, assim, uma reflexão sobre a pertinência e alcance do que podemos tipificar como diplomacia da arte. Uma forma de explorar o conceito é buscar a equivalência com a diplomacia científica, tanto do ponto de vista de definições, quanto do ponto de vista tipológico, além das reflexões sobre a potencialidade de sua abrangência e efetividade.
A diplomacia científica é, de forma mais recorrente, definida como a interação entre diplomacia e ciência no sentido da produção de bens públicos globais ou da solução de problemas globais. Nesta chave, a diplomacia científica é definida a partir de uma perspectiva neo-funcionalista e parte do pressuposto de que a cooperação internacional é melhor induzida pela ciência graças ao seu atributo de neutralidade. A diplomacia científica é também definida, em uma outra perspectiva, como um instrumento de internacionalização do sistema de ciência e tecnologia de um país.
A compreensão da diplomacia da arte passa por compreendermos a arte como fenômeno global, regional e local e, com isso, explorar sua potencialidade como fundamento diplomático. Muitas são as possibilidades de conceituar arte, uma das mais referenciais é a de Walter Benjamim que destaca a aura como elemento constitutivo da obra de arte, ou seja, sua unicidade e autenticidade, sua existência singular no tempo e espaço de onde decorrem a contemplação, o culto e a tradição.
Na semiótica de Peirce, a experiência da arte é da ordem da primariedade, categoria fenomenológica de pura qualidade, sentimento e possibilidade. A arte captura a qualidade imediata da experiência sígnica, como uma cor, um sabor, um movimento ou um tom, antes de qualquer análise racional, factual ou lógica. Os signos qualitativos nos penetram pelos nossos sentidos muito antes de se apresentarem à nossa mente consciente. Assim, como manifestação sensível, a arte opera nas relações humanas primordiais e, por isso, transcende as fronteiras, inclusive territoriais; ela tem a natureza icônica e atua antes do estabelecimento da indexicalidade da existência e da condição convencional-simbólica da cultura; carrega, assim, a possibilidade de ser internacional, atemporal e até mesmo ubíqua.
A arte, segundo Peirce, não se relaciona com a beleza ou a estética no sentido convencional grego, por exemplo. Trata-se, em verdade, da criação de uma manifestação sensível de ideais e qualidades de sentimento que são “admiráveis em si mesmas”. Mas há outras dimensões da arte que a conectam como expressão da cultura, linguagem, signo tangível e evolutivo. A cultura fornece o contexto, os materiais e os significados e a arte dá forma sensível à cultura. Nesse sentido, podemos considerá-las indissociáveis, formando um circuito virtuoso e dinâmico que molda a experiência e a existência humana. É importante destacar que a arte não apenas reflete, mas também desafia, inova e faz avançar a cultura, criando novas formas de expressão de natureza muito diversa, como a bossa nova no Brasil do século 20 ou a ópera na Itália no final do século 16. Expressões potentes que, com o tempo, se tornam parte da cultura estabelecida.
As artes, nesses termos, são vitais à constituição da cultura e a cultura, campo fértil para as manifestações artísticas, daí que ambas possam associar-se a elementos característicos da identidade individual do seu criador, mas também se conectam a dimensões regionais e globais. A diplomacia da arte estaria, portanto, associada aos processos de cocriação, disseminação e preservação da arte em diferentes dimensões, passíveis de identificações plurais estabelecidas pelo sensível antes de qualquer avaliação ou julgamento racional. Assim, os efeitos da internacionalização da cultura e da arte, catalisadas por meio da diplomacia, têm alcance potencial claro no estabelecimento de interações, relações e negociações amistosas. A diplomacia da arte teria, neste sentido, um papel-chave na preparação, disseminação e consolidação de um caminho para uma cultura de paz, justamente por sua capacidade de abertura para e pelo sensível.
Evoluindo nessa direção reflexiva, a equivalência tipológica entre diplomacia científica e diplomacia artística é mais evidente e fácil de se estabelecer. Como se sabe, a tipologia de diplomacia científica é constituída por três elementos: ciência para diplomacia; ciência na diplomacia; diplomacia para ciência. Um quarto tipo, diplomacia na ciência, não é definido pela literatura, mas deveria. Basicamente este tipo remete à ideia do uso de instrumentos diplomáticos no exercício da ciência. Ora, a preparação, a negociação e as resoluções de conflitos entre grupos científicos seriam claramente beneficiadas pelas ferramentas da diplomacia.
O tipo mais facilmente identificável nesse processo de equivalência é o da diplomacia para a arte (diplomacy for art). Esse tipo remete ao uso da diplomacia oficial na promoção da arte em escala global ou de produções artísticas desenvolvidas com base em cooperações internacionais. Algo semelhante ocorre no caso da arte na diplomacia (art in diplomacy), uma vez que especialistas em arte podem contribuir de forma decisiva para a formulação e a implementação de acordos internacionais no campo da arte e da cultura (i)material. Os acordos relativos ao repatriamento de bens culturais constituem um bom exemplo nesse sentido. Por fim, a atuação de artistas no plano global (art for diplomacy), ao auxiliar a diplomacia oficial, faz as vezes da ciência para a diplomacia, valendo-se da atuação sensível, portanto, primeiridade, a arte nos toma pelos sentidos, como pura qualidade, sem qualquer permissão ou acionamento dos nossos filtros socioculturais. A emoção proporcionada pela audição da 5ª Sinfonia de Beethoven, mesmo não tendo qualquer conhecimento musical, tampouco tendo as referências sobre a biografia do compositor alemão, é um signo qualitativo capaz de provocar sensações, sentimentos e emoções aprazíveis preparando os ânimos e o ambiente para negociações e para a construção de soluções partilhadas.
Pelas razões apontadas, parece clara a necessidade de que a diplomacia artística passe a ser estudada e passe a frequentar a literatura e os debates acadêmicos. Que a diplomacia é também uma arte para além de uma técnica, já sabemos. Resta conhecermos melhor os conceitos e as potencialidade da diplomacia artística, até porque, como nos disse Nietzsche, “a arte existe para que a realidade não nos destrua”, portanto, imprescindível à nossa condição falível.
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