Caminhões brasileiros podem emitir até 35% menos CO₂ por carga que modelos europeus

Pesquisa inédita adaptou parâmetros em simulador e demonstrou que alta capacidade de carga dos caminhões brasileiros pode ser fator relevante para a sustentabilidade do transporte rodoviário

 28/01/2026 - Publicado há 6 meses
Caminhões que operam no Brasil têm desempenho ambiental superior aos da Europa quando avaliados pela emissão de Co2 – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

Uma pesquisa desenvolvida na Escola Politécnica (Poli) da USP traz uma nova perspectiva para o debate sobre descarbonização no transporte: o Brasil pode ser mais eficiente que a Europa no transporte rodoviário de cargas. Conduzido pelo engenheiro mecânico Eduardo Eisenbach de Oliveira Fortes, o trabalho aponta que veículos pesados operando em solo nacional apresentam desempenho ambiental superior quando avaliados pelo critério de emissão de CO₂ por tonelada-quilômetro transportada.

Eduardo Eisenbach de Oliveira Fortes – Foto: Arquivo pessoal

O estudo, apresentado como trabalho de formatura de Fortes, aplicou, de forma pioneira no País, a ferramenta Vecto (Vehicle Energy Consumption Calculation Tool), padrão obrigatório na União Europeia para certificar o consumo e as emissões de caminhões. Para isso, ele adaptou o software de simulação às particularidades brasileiras: rotas com longa quilometragem, topografia severa e composições de carga de até 74 toneladas, muito superiores às 40 toneladas permitidas na Europa.

“O setor de transporte de cargas apresenta níveis de emissão de CO₂ bastante relevantes. No Brasil, onde o modal rodoviário movimenta mais de 60% das cargas, precisamos de métricas precisas. Por isso, comparamos a operação de caminhões-padrão 6×4 em rotas europeias com o corredor logístico Campo Grande (MS) – Porto de Paranaguá (PR), rota fundamental para o escoamento de grãos no País”, explica Eduardo Fortes.

Carga como diferencial competitivo e ambiental

A simulação revelou que, embora um caminhão-padrão brasileiro consuma mais combustível no total, por ser mais pesado, ele é 35% mais eficiente ao dividir esse consumo pela quantidade de mercadoria entregue. Enquanto o modelo-padrão europeu (Euro VI) emite 29,0 gCO₂/t-km, o brasileiro atinge a marca de 18,8 gCO₂/t-km.

O estudo também indicou que o fator “carga” é mais decisivo para a sustentabilidade do que a própria topografia. “Mesmo com tecnologias veiculares por vezes defasadas, devido à frota envelhecida, podemos constatar que a nossa capacidade de escala no transporte compensa, ambientalmente, por unidade de carga transportada, em comparação ao veículo-padrão europeu estudado”, afirma o autor.

Rigor metodológico: uso de dados reais e simulação avançada

Para garantir o rigor técnico e diante do desafio de estimar determinados parâmetros, Fortes utilizou dados reais de repositórios do Vecto da União Europeia e a legislação brasileira para caracterizar os veículos-padrão do Brasil e da Europa. Além disso, para a tarefa de caracterizar a rota de grande extensão no Brasil, aliou dados reais à inteligência artificial (Google Gemini 3 Pro) integrada ao Google Maps para mapear os limites de velocidade nos 1.091 km da rota estudada. Os dados foram processados via algoritmos em Python, totalizando mais de 100 mil pontos de análise.

Para o professor Marcelo Augusto Leal Alves, coordenador do Centro de Engenharia Automotiva da Poli e orientador do projeto, “no Brasil, onde o transporte rodoviário é o principal meio de escoamento de cargas, a avaliação das emissões de CO₂ de caminhões é estratégica. A ausência de uma ferramenta equivalente ao Vecto, capaz de simular diferentes configurações veiculares e cenários de uso, torna estudos como o de Eduardo Fortes particularmente relevantes. Ao aplicar essa metodologia a percursos reais e às condições operacionais brasileiras, o trabalho apresenta resultados inéditos e contribui para o debate sobre formas mais precisas de mensurar o impacto ambiental do transporte pesado no País”.

O trabalho teve coorientação do professor Francisco Emílio Baccaro Nigro e ficará disponível no acervo virtual.

*Modelo Europeu: massa total de 40 t , sendo veículo (16 t) + carga transportada (24 t)

**Modelo Brasileiro: 74 toneladas é a massa total do caminhão, sendo veículo (25 t) + carga transportada (49 t)

Fonte: Pesquisa Aplicação da ferramenta Vecto para estudo do consumo de combustível e emissões de CO₂ em veículos pesados no Brasil/E.E.O. Fortes – São Paulo, 2025.

Impacto social e metas climáticas

  • Acordo de Paris – Metas de redução de GEE: O Brasil assumiu compromissos internacionais de redução de emissões no âmbito do Acordo de Paris. No setor de transportes rodoviários, os caminhões contribuem com uma fatia relevante das emissões totais de CO₂eq, com participação estimada de ~42% das emissões desse segmento em 2023 (Fonte: Observatório do Clima).
  • Frota envelhecida – idade média dos caminhões: Estudos setoriais indicam que a frota de caminhões no Brasil é relativamente antiga, com média de idade próxima a 12 anos, o que impacta diretamente a eficiência energética, maiores emissões por veículo e a necessidade de renovação tecnológica (Fonte: Anuário CNT do Transporte).

Com informações do Centro de Engenharia Automotiva da Poli

Mais informações: e-mails eduardofortes@usp.br, com Eduardo Fortes, e malalves@usp.br, com o professor Marcelo Alves


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.