
Algumas delas nos deixaram antes de Bruni, como o físico Newton Bernardes, o matemático Newton da Costa, o químico José Atílio Vanin. Outros, de igual significado, conosco convivem, como o neurologista Wilson Luiz Sanvito, o psicanalista Walter Trinca, o físico Sílvio Salinas, o psicólogo João Frayze-Pereira, o biólogo e sociólogo Milton Greco.
A perda mais recente de José Carlos Bruni, cuja biografia científica tem sido celebrada, me levou aos anais do primeiro exemplar do Novo Pacto da Ciência, a Crise dos Paradigmas, publicado na ECA-USP, um ano após o seminário em que reuni estes autores e registrei seu debate possível sobre a transdisciplinaridade. E aí decidi recolher o depoimento inquieto do sociólogo, nas páginas 35 a 38. Impressionam as interrogantes – marca epistemológica do Projeto Plural – desse pesquisador que, ao que tudo indica, se projetam aos dias de hoje, da Era Digital. Seria fundamental trazer sua voz à pauta paradigmática atual do 13º volume em edição, mas a vida não o permitiu. Então, ouçamos sua voz há 35 anos:
Há uma crise nas Ciências Sociais, questão do seminário em 1990? Para Bruni, a crise deveria começar pela distinção de três aspectos bem visíveis, nos quais ela se manifesta: os impasses do marxismo, o desgaste do funcionalismo e os problemas levantados pelos assim chamados novos movimentos sociais.
Quanto à crise do marxismo, cujo discurso se manifesta a partir dos anos 1970, Bruni a vincula à dissolução teoria da Escola de Althusser, que pretendeu explicitamente oferecer uma versão estruturalista do marxismo. Segundo Perry Anderson, “Lévi-Strauss havia se empenhado categoricamente em cortar o nó górdio da relação entre estrutura e sujeito, retirando este último de qualquer campo do conhecimento científico. Ao invés de resistir a essa mudança, Althusser a radicalizou com uma visão de marxismo onde os sujeitos foram totalmente abolidos, exceto com efeitos ilusórios de estruturas ideológicas”.
A crise adviria da rigidez escolástica que o marxismo assumiu, conforme José Carlos Bruni: “Opondo rigidamente ciência e ideologia, razão e experiência vivida, objeto de conhecimento e objeto real, estrutura e luta de classes, o althusserianismo primou pela radicalização de todos os aspectos fortemente racionalistas e intelectualistas de Marx e do marxismo em geral. Concebendo a teoria como ruptura radical com o mundo da experiência imediata, o que metodologicamente pode ser defendido, o althusserianismo jamais retoma o movimento posterior a ser esclarecido, o momento da relação da teoria com a prática”. Bruni interpreta a teorização que, ao se desvincular da dinâmica histórico-social, no fundo serviria de escudo para práticas autoritárias tradicionais dos PCs de inspiração stalinista. Diz ele: “Os sujeitos sociais e políticos tornam-se permanentemente objetos de um saber que se oferece em bloco como já legitimado pela construção puramente racional que o produz”.
Já a crise da tradição funcionalista, que Bruni situa desde os anos 1930, com especial vigor após a Segunda Guerra, sofreu um influxo significativo da crítica da sociedade, dos pensadores da Escola de Frankfurt. Por outro lado, a ideia de progresso e de uma ordem social harmônica, inerentes ao funcionalismo, esboroam-se perante as atrocidades das duas guerras mundiais, a barbárie do nazismo e do fascismo, a violência do stalinismo e as transformações profundas da vida social, cultural e moral.
Como constata Touraine, citado por Bruni, “a sociologia crítica descobre a violência atrás da ordem, a repressão atrás do consenso, a irracionalidade na modernização, o interesse privado no seio dos princípios gerais”. No entender do sociólogo, Michel Foucault abala definitivamente os fundamentos e o discurso do funcionalismo. “Seus estudos sobre a história da loucura, dos manicômios, das prisões, a clínica, do olhar médico, da sexualidade etc. terão, quer por suas inovações metodológicas, quer por suas criações filosóficas, um efeito devastador sobre a sociologia da ordem e do progresso.” Para Bruni, Foucault põe a nu a grande questão implícita e oculta na sociologia clássica: “A dimensão do poder que, deslocada do âmbito do Estado e de seus aparelhos para a extensão de todo o corpo social, e pensada como redes de pequenos dispositivos disciplinares, põe a nu os mecanismos de dominação e opressão que tecem o cotidiano da vida social”.
Concomitantemente aos abalos teóricos do marxismo e do funcionalismo, Bruni especula uma série de transformações vivas, conhecidas como novos movimentos sociais, totalmente imprevisíveis, improgramáveis pelas teorias. “Esses movimentos vão acentuar a crise na medida em que obrigam a sociologia a repensar conceitos, abandonar outros e produzir novos.” Segundo o sociólogo, esses novos movimentos, de certa forma, são herdeiros da rebelião da década de 1960, que se caracteriza pelo desejo como móvel de ação transformadora e não como na análise objetiva e racional da correlação de forças. Os movimentos – do feminismo ao ecologismo, dos diferentes movimentos urbanos à luta dos sem-terra –, todos manifestam o horror ao autoritarismo, uma crítica irreverente mas bem-humorada ao instituído, uma afirmação consciente das diferenças e da heterogeneidade. A vitalidade dos novos movimentos, para Bruni, se dá num novo tempo e num novo espaço: o tempo e o espaço da vida cotidiana, vistos não como o lugar da rotina e do hábito, mas como a dimensão real e concreta onde efetivamente os sujeitos são sujeitados e onde se dá a experiência concreta da dominação e da opressão. Aquele que fala de revolução, sem mudar a vida cotidiana, tem na boca um cadáver, já dizia um grafite de 1968.
A sociologia clássica se vê, então, às voltas com o reexame de seus paradigmas para reinterpretar os agentes sociais (antes estratificados como categorias), reentender o que é sociedade como totalidade, reestudar a questão do poder e da dimensão política. “Mas a crise não será superada simplesmente pela construção de um novo paradigma de explicação, e sim, mais profundamente, pela reflexão livre, crítica e constante sobre o seu próprio modo de inserção na vida humana.”
________________(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)
























