Arquivo pessoal de Heloísa Bellotto, referência em arquivística, é incorporado à USP

Vasto acervo é constituído de boletins, informes e artigos de jornal, documentos relacionados à sua intensa atividade de pesquisa, além de objetos, como medalhas, documentos audiovisuais, desenhos e até partituras

 21/01/2026 - Publicado há 6 meses
Visão do alto de uma mulher sentada, olhando pastas numa mesa e com um notebook aberto
Pesquisadora no Arquivo Geral da USP, órgão que recebeu a doação especializada em arquivologia – Foto: Cecília Bastos

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Um acervo de obras raras e de referência para a arquivologia, ciência que estuda a gestão, organização, preservação e acesso a documentos, da professora Heloísa Liberalli Bellotto, foi doado ao Arquivo Geral (AG) da USP após sua morte, ocorrida em 1º de março de 2023. Esse acervo está sendo cadastrado no Banco de Dados Bibliográficos da USP (Dedalus), para que a Universidade disponibilize ao público interessado o acesso a essa valiosa biblioteca especializada em Arquivologia, que contém ainda publicações relevantes acerca, especialmente, da história de São Paulo colonial.

A novidade é que outros documentos têm sido analisados pelos profissionais do Arquivo Geral e estarão disponíveis aos público: o arquivo pessoal da pesquisadora. Simultaneamente à doação das obras, a família entregou esse acervo, também acolhido pela instituição, embora essa não seja sua finalidade primeira. Resultado da pesquisa intensa de muitas décadas de Heloísa, profissional altamente especializada na área de Arquivologia, atuante e reconhecida nacional e internacionalmente, o arquivo é constituído de boletins, informes e artigos de jornal; documentos relacionados à pesquisa, incluindo capítulos de livros, agendas, cadernos de anotações e pensamentos; além de objetos, como medalhas, documentos audiovisuais, desenhos, partituras.

Foram calculados cerca de 15 metros lineares de documentos (mais de uma centena de caixas poliondas), acondicionados em 21 caixas de papelão grandes, além das pastas que se encontravam num armário de aço de pastas suspensas, com quatro gavetas.

Heloísa Bellotto, referência em arquivística – Foto: Divulgação/Arquivo Geral da USP

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Vida dedicada à história e arquivística

Heloísa foi bibliotecária, historiadora e pesquisadora no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. Também foi professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), da Universidade de Brasília (UnB), entre outras instituições. Sua formação como arquivista foi realizada na Espanha, França e Estados Unidos. Criou e implementou, em 1986, o curso de especialização Organização de Arquivos no IEB, que ocorreu por 22 anos consecutivos (até 2008), formando muitas e grandes competências da Arquivologia do Brasil. 

Suas amigas, as professoras Ana Maria de Almeida Camargo e Johanna W. Smit, participaram ativamente da abertura de várias das muitas pastas existentes. Além disso, dois voluntários, os bibliotecários Helena Misumi e Helio Ohmaye, iniciaram a identificação e a classificação dos documentos. Há muitos documentos referentes à orientação de alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado; participação em bancas de titulação; documentos acerca da regulamentação da profissão e projeto; documentos relacionados à docência nas áreas de história, arquivologia, paleografia, diplomática e biblioteconomia; documentos relativos a projeto de pesquisa (proposta e parecer), agendas e cadernos de anotações. 

Em seu arquivo pessoal, além de vasto material sobre suas pesquisas acadêmicas em teoria arquivística e diplomática, foi observado que como historiadora, o foco recaiu na São Paulo colonial e em Morgado de Mateus, cujo interesse permeou toda sua vida profissional, sendo tema de sua tese de doutorado e de diferentes projetos de pesquisa  que algumas vezes entrelaçavam a arquivologia à história, assim como da obra Nem o tempo, nem a distância, que reúne a correspondência trocada entre Morgado de Mateus e sua esposa. Em seu arquivo consta o texto final da obra anterior à sua publicação, ocorrida por editora portuguesa. 

Anotações em livro e dedicatória estão no arquivo pessoal de Heloísa Bellotto – Foto: Divulgação/Arquivo Geral da USP

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Legado para as novas gerações

Como amiga, Johanna Smit ressalta a criatividade de Heloísa, sua mente ágil e suas reações rápidas, observadas nas inúmeras anotações no verso de documentos, rascunhos, folders, convites, assim como em livros, artigos e outras tantas publicações, “como se ela estivesse respondendo a questões levantadas naquele momento e/ou elaborando seu pensamento, sempre produtivo e eficiente”, escreve Eliana. 

No arquivo também consta uma preciosidade singular: em decorrência da forçosa parada imposta pela pandemia, ela publicou um livro infanto­juvenil intitulado O planeta irmão, dedicado aos seus bisnetos. No livro ela explica que contou muitas histórias aos seus filhos quando pequenos. Depois tentou contá-­las aos netos, mas parece que eles não demonstraram maior interesse. Com os bisnetos, tentou outro método: pediu que os quatro escrevessem a personagem/história que quisessem numa folha, e daí, ela as entremeou, transformando-­as numa única narrativa. 

Heloísa tinha uma vida acadêmica e profissional intensa, e circulava por vários Estados e países em eventos, congressos e associações arquivísticas, especialmente da Europa. Era frequentemente convidada a participar da abertura desses eventos e a fazer a apresentação ou o prefácio de diversos livros, revistas, seminários etc. Era muito conhecida por todos os profissionais da arquivologia, e sua biblioteca, doada ao Arquivo Geral, é prova das inúmeras publicações que ela recebeu com dedicatórias dos autores em agradecimento à sua generosidade em compartilhar seu profundo conhecimento da matéria e sua vida de ensino e pesquisa. 

“Heloísa faz parte de uma geração de arquivistas que influenciou largamente a formação de diversos profissionais atuantes nos arquivos de hoje no Brasil, e que continuará influenciando, com toda a certeza, as gerações vindouras”, conclui Eliana. 

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*Texto adaptado de Eliana Rotolo, bibliotecária do Arquivo Geral da USP


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