Meu novo neto, a creche e as vacinas

Por Hernan Chaimovich, Professor Emérito do Instituto de Química da USP e ex-presidente do CNPq

 15/01/2026 - Publicado há 6 meses

Dentre meus muitos privilégios, o último me deixa maravilhado; um novo neto nascido há quase sete meses, quando eu ainda tinha 85 anos. O meu neto deve começar a ir à creche daqui a poucos meses, entrando em contato diário com crianças da sua idade.

A legislação brasileira exige que, ao matricular uma criança numa creche, os responsáveis, dentre outros documentos, apresentem uma Declaração de Vacinação Atualizada (DVA) que comprova que a carteira de vacinação da criança está em dia. O SUS oferece a todas as crianças brasileiras um complexo e gratuito esquema de vacinação. Estas vacinas protegem de uma série de doenças precisamente quando as crianças começam a conviver com outras crianças e novos adultos. Assim, a recomendação geral, ao matricular uma criança numa creche, é investigar se nesse estabelecimento todas as crianças são matriculadas de acordo com a lei que exige uma carteirinha de vacinação em dia.

Ainda que possa parecer cansativo, creio ser necessário descrever sumariamente o programa brasileiro de vacinação de crianças até a idade do meu neto. Ao invés de detalhar o nome da vacina, usarei a época da vacinação e a doença a prevenir. Ainda resumindo, evitarei a descrição de segundas ou terceiras doses da mesma vacina.

Quando a criança nasce, recebe proteção contra tuberculose, hanseníase e hepatite B e D. Aos dois meses, difteria, tétano, coqueluche, influenza, poliomielite, doenças pneumocócicas e rotavírus. Aos três meses, meningites. Aos seis meses, influenza trivalente e covid.

Meu neto, portanto, está protegido de se contaminar por uma série de doenças muito graves ou, no caso de ser infectado, dificilmente terá os sintomas mais graves dessa série de males. Também pelo programa brasileiro de vacinação, a probabilidade de entrar em contato com crianças não vacinadas é relativamente baixa, pois, como já colocado, a apresentação da DVA é parte da documentação requerida para a matrícula.

Devo notar aqui que a partir do governo Bolsonaro aumentaram no Brasil diversos movimentos “antivax”, especialmente em movimentos de extrema direita sustentados por extensas campanhas nas redes sociais. Ainda assim, esses esforços suicidas, ao menos no Brasil, não conseguiram os objetivos de inocular medos anticientíficos na maioria da população.

O meu neto pode ir para a creche, sim, mas cuidado, sem xenofobia ou hipocondria, precisamos pensar o que acontece com as doenças e a vacinação no restante do mundo.

O exemplo mais gritante está a acontecer nos Estados Unidos da América, EUA, um dos países que exerce, cada dia mais, o seu poderio bélico, enquanto se coloca ativamente contra evidências científicas e diminui os programas de vacinação de crianças. Medidas recentes adotadas pelo serviço de saúde dos EUA eliminaram vacinas do programa geral de vacinação de crianças. As doenças agora não contempladas são: hepatites A e B, rotavírus, síndrome respiratória sincicial, meningites, influenza e covid.

Devo também notar que algumas doenças, como poliomielite, não foram erradicadas em muitos países e que programas de vacinação como o do SUS no Brasil são únicos no mundo. Então, o que fazer para aumentar a proteção do meu neto, e de todas as crianças que têm o privilégio de, por morar no Brasil do SUS, estarem protegidas de tantas enfermidades que somente as vacinas podem prevenir?

Uma proposta ousada seria requerer que qualquer casal que ingresse no Brasil com crianças, ou qualquer criança desacompanhada, somente possa fazê-lo com certificado oficial de vacinação compatível com o programa brasileiro. Alternativas como vacinação no ponto de entrada, entre outras, podem ser contempladas.

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