A geografia da guerra

Por José Clóvis de Medeiros Lima, funcionário da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

 15/01/2026 - Publicado há 6 meses
José Clóvis de Medeiros Lima – Foto: Arquivo pessoal

 

O ano de 2026 começou e, com ele, muitas incertezas sobre como será o amanhã num mundo cada vez mais complexo.

Se os grandes pensadores das relações internacionais estiverem certos em suas análises, há uma virada na chave histórica que aponta para a tentativa de uma superpotência, os EUA, então hegemônica, de manter desesperadamente seus interesses econômicos e estratégicos utilizando-se para tanto do recurso à força nas suas chamadas zonas de influência, em contraponto à outra potência que cresceu economicamente, a China, mas que ainda não rivaliza militarmente nesses mesmos espaços e talvez o faça em Taiwan, que ela considera também sua área de interesse estratégico.

Outra grande potência, essa não mais uma superpotência econômica, a Rússia, apesar de ter poderio militar, principalmente atômico, quer e precisa se manter como ator importante nas relações internacionais, garantindo sua zona de interesse estratégico nos países que eram ex-satélites soviéticos e materializando esse domínio na Ucrânia, através de uma guerra que já dura três longos anos e ceifou centenas de milhares de vidas. Isso projeta medo na Europa, que cada vez mais percebe o guarda-chuva da Otan furado, não tendo os EUA como seu principal fiador, dá sinais de enfraquecimento e talvez não possa garantir proteção efetiva em caso de guerra.

O risco de um confronto permanente dessas potências tem seu início no assalto recente ao território venezuelano e na captura do seu presidente pelos EUA, mas também no declarado interesse em derrubar o regime cubano, no intento de tomar a Groenlândia, território autônomo desde 1979, mas que continua sendo parte do Reino da Dinamarca, e, principalmente, na declaração dada logo após a incursão na Venezuela, de intervir na Colômbia, para prender seu presidente, democrática e legitimamente eleito, e no México, com o aludido interesse de “combater” os cartéis de narcotraficantes. Essas ações norte-americanas podem levar ao caos e ao que se viu antes do início da primeira Grande Guerra, onde as potências imperialistas da época dividiam seus protetorados em zonas de interesse e as nações eram subjugadas, como se fossem parte de um butim a ser conquistado.

O rearranjo das forças de direita e de extrema direita, que estão sendo eleitas nos países latino-americanos e que farão parte, juntamente com o governo norte-americano, do chamado cordão de isolamento contra os interesses da China e da Rússia, só pode ser brecado de certa forma pelo Brasil; no entanto, as fichas serão todas jogadas nas eleições deste ano e, se o cálculo estiver correto, esse cordão de isolamento só se completa com a eleição de um títere por aqui.

Não tenhamos dúvidas, o mundo caminha a passos largos para um cenário de confronto permanente entre essas potências e os sinais estão dados, infelizmente, dessa vez, os países da América Latina e do Caribe estão na geografia da guerra.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.