Sobre as origens galegas do português

Por Henrique Braga, doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Marcelo Módolo, professor da FFLCH-USP

 16/06/2025 - Publicado há 1 ano
Henrique Braga – Foto: Arquivo pessoal
Marcelo Módolo – Foto: Arquivo pessoal

 

Segundo o linguista Marcos Bagno, ao se tratar das origens da língua portuguesa, “[…] seria mais correto falar de uma ilusofonia e, por tabela, de uma ancestralidade ilusa e ilusitana”. Esse perspicaz trocadilho (que o autor também registrou em outros textos) está no prefácio à edição brasileira de Assim nasceu uma língua (2024), obra de Fernando Venâncio, linguista português que nos deixou no último dia 30. Ainda de acordo com Bagno, o livro poderia ter como subtítulo Sobre as origens galegas do português, pelo que, em tributo a Venâncio, nomeamos assim este artigo.

Mas o português não vem do latim?

Sim e não, caro leitor, nobre leitora. Os estudos mais alentados sobre a história deste idioma em que vos escrevemos apontam para uma origem um pouco mais complexa do que nos foi ensinada em tempos de escola. Embora o latim vulgar seja a base comum do português e do galego, foi por meio do galego medieval – variedade românica que se expandiu durante a Reconquista – que as principais estruturas linguísticas do português se consolidaram no território que viria a ser Portugal. Esse é o ponto central de Assim nasceu uma língua, em que Venâncio recorre a estudos linguísticos e históricos para lançar mais luz a essa questão, buscando atingir um público amplo, não apenas os iniciados.

Assim, no prefácio, quando Bagno fala em “ilusofonia”, há duas camadas de interpretação, que sintetizam bem a visão desenvolvida por Venâncio. Em uma primeira camada, interpretamos esse “i-” como um morfema de negação, tirando os tais “lusos” ou “lusitanos” da árvore genealógica desta língua. Em outra, que se soma à anterior, cria-se uma espécie de palavra-valise, soma de “ilusão” e “lusofonia”. Nesse caso, além de negar a origem exclusivamente lusitana da língua, a expressão sugere que essa ideia de uma “lusofonia” coesa e ancestral seria, na verdade, uma construção ilusória, um mito linguístico que precisa ser revisto.

Sim, em boa parte do que viria a ser o Reino de Portugal, existiu a Lusitânia; porém, com o domínio mouro sobre a Península Ibérica (iniciado no século VIII), não se manteve a prevalência de uma língua lusitana naquele território, onde os descendentes dos lusos adotavam variedades moçárabes (grosso modo, falares de origem latina, contudo arabizadas). Para tratar do nascimento do português, Venâncio destaca que a substituição desses falares moçárabes por um romance (isto é, um idioma surgido daquele que se falava em Roma, o latim) começa a se dar na chamada “Reconquista”, quando católicos do Norte da Península rumaram ao Sul, trazendo sua língua. Essa língua era o galego.

O galego rumo ao Sul

A tese de Fernando Venâncio, ao destacar as origens galegas do português, desloca um antigo mito fundador segundo o qual nossa língua teria nascido diretamente no território hoje identificado como Portugal, numa espécie de continuidade homogênea do latim. O que Assim nasceu uma língua propõe, com farta documentação e elegância argumentativa, é uma genealogia mais complexa, em que o português surge em boa parte como desdobramento do galego, língua de prestígio e difusão no noroeste peninsular a partir da Idade Média.

A proposta não nega a base latina do português – como também é, aliás, a do galego –, mas contesta a narrativa que localiza o nascimento da língua exclusivamente na antiga Lusitânia ou em território lusitano. Segundo Venâncio, foram as formas linguísticas trazidas do Norte pelos cristãos durante a chamada Reconquista que se fixaram e se expandiram ao sul da Península Ibérica, substituindo os falares moçárabes então predominantes.

Venâncio propõe que foi o galego que se espalhou para o Sul da futura região portuguesa durante a Reconquista cristã (e não um suposto “português primitivo”), substituindo os falares moçárabes, que predominavam desde a ocupação muçulmana.

Entre os argumentos linguísticos reunidos por Venâncio, destaca-se um que perpassa boa parte do livro, a queda dos fonemas “l” e “n” em posição intervocálica – presentes nas formas latinas, mas eliminados nas variedades do noroeste peninsular, possivelmente sob influência de um substrato linguístico local, segundo a hipótese mais aceita. Inicialmente, o galego foi a única língua da Península Ibérica na qual esse processo ocorrera e, no português, a ausência dessas consoantes é documentada como uma herança galega.

A comparação com o espanhol, língua vizinha ao território português, traz exemplos interessantes: o fonema “l” do latino “colore” se manteve em “color”, mas não no nosso termo “cor”. O mesmo processo vemos em “mala persona”, que, em português, dá lugar a “má pessoa” (sem “l” ou “n” entre vogais). Na comparação com o espanhol, Venâncio é pródigo em exemplos: “cenar” e “cear”, “corona” e “coroa”, “solo” e “só”, “dolor” e “dor”, entre tantos outros. Na contramão, mas não em contradição, formas portuguesas como “dolorido” ou “frenar”, com seus “l” e “n” intervocálicos, começam a ser mais produtivas, segundo Venâncio, por volta de 1400, por influência da língua espanhola – referência então de elevada cultura e modernidade.

Mais do que uma provocação linguística, a obra convida o leitor a rever certas imagens cristalizadas sobre identidade linguística e herança cultural. Ao enfatizar a função ativa da Galícia medieval nesse processo, Venâncio nos mostra que o português nasceu de movimentos históricos, deslocamentos e encontros – e não de um núcleo isolado e rigidamente definido.

Em tempos de revalorização das origens e de reconstrução de pertencimentos, essa é uma lembrança oportuna. Afinal, se há algo que a história das línguas nos ensina, é que nenhuma nasce pura, nenhuma nasce sozinha – e quase sempre nasce das margens. Assumir essa origem galega do português não significa reduzir sua história, mas ampliá-la. Significa aceitar que viemos também – e talvez sobretudo – do lado de lá do Minho.

Língua em travessia: com sotaque galego e alma de encruzilhada

Em tempos de fronteiras tão rígidas e identidades tão disputadas, lembrar que o português nasceu no vaivém entre margens – geográficas, históricas e linguísticas – é, no mínimo, um belo exercício de humildade intelectual. E talvez também um convite: o de olharmos para nossa língua, não como produto acabado de uma história única, mas como encruzilhada de falas, influências e continuidades.

É aí que reside, afinal, a força do argumento de Fernando Venâncio. Ao devolver ao galego seu papel de protagonista no enredo da formação do português, ele não nega o latim, mas o faz ecoar por meio de outra linhagem, menos romanizada do que se costuma admitir, e bem mais matizada. Em lugar da linha reta, a curva; no lugar do mito heroico de fundação, a memória dos deslocamentos.

Ao homenagear Venâncio e seu trabalho preciso e corajoso, reafirmamos esse convite – e celebramos, com gosto de Galícia e voz de Brasil, a travessia de uma língua que, afinal, renasce a cada dia.

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