Biblioteca Brasiliana e seu papel em minha formação e na dos vestibulandos

Por Franklin Cordeiro Pontes, mestrando da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

 04/06/2025 - Publicado há 1 ano
Franklin Cordeiro Pontes – Foto: Arquivo pessoal

 

Desde o dia 16 de abril, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP retornou com o BBM no Vestibular, projeto que existe desde 2017. Ele apresenta aulas gratuitas sobre os livros de leitura obrigatória da Fuvest, ministradas por professores da USP ou especialistas de outras universidades. Além de promover aulas de qualidade sobre as obras literárias, a iniciativa também visa aproximar os vestibulandos dos espaços da USP, em especial, do Espaço Brasiliana. Mas para aqueles que não podem vir presencialmente, as aulas também são transmitidas pelo canal do YouTube da BBM e permanecem disponíveis para acesso assíncrono. Desde 2023, ele passou por uma reconfiguração que aqui vim relatar, já que fui um dos responsáveis pela execução do projeto em 2023 e 2024.

Assim que Alexandre Macchione Saes, professor de História Econômica da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA), assumiu a direção da BBM, em 2022, ele tinha como desafios produzir novos projetos e eventos que trabalhassem com a história, memória e cultura brasileiras, mas também retornar com aqueles que tiveram boa resposta do público, que era o caso do BBM no Vestibular. Este, durante a pandemia da covid-19, teve aulas unicamente on-line. Em uma reunião interna com a equipe da biblioteca, o professor Alexandre me falou sobre seu interesse em que o projeto retornasse presencialmente. Eu só respondi: “Bom, professor, só bora. Acho que não deve ser tão difícil”.

Entre um trabalho e outro que meus amigos e eu realizávamos com o Projeto 3×22 (2017-2022), antes de eu me tornar estagiário na instituição, nós víamos os espaços da Biblioteca Brasiliana sendo preenchidos por estudantes de diferentes cursinhos, públicos e privados, de diferentes bairros de São Paulo e região. Esta memória me animou, pois se encontrou com um dos discursos que me perpassa desde a minha primeira formação e que, de certa forma, me motiva minimamente: a de que a educação é a chave do desenvolvimento do País, proporcionada pela colheita dos frutos das liberdades individuais definidas pela Constituição de 1988. Bom, sendo isto historicamente concreto ou não (vendo o que experienciamos entre 2019-2022), sinto que às vezes precisamos comprar algumas utopias para continuar caminhando.

Sobre a facilidade com a organização do projeto, o quanto estava enganado! O primeiro foi encontrar um formato para ela. O segundo foi saber o quanto de apoio técnico teríamos das competências universitárias para proporcionar uma boa experiência. O terceiro desafio foi encontrar professores dispostos a participarem da aula. Quem respondeu a tudo isso foi o tempo.

Na nossa primeira aula de 2023, sobre Quincas Borba, ministrada pelo professor da área de Literatura Brasileira da Faculdade Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e vice-diretor da BBM, Hélio de Seixas Guimarães, tivemos mais de 400 alunos em nossos espaços! Tínhamos reservado a Sala Villa-Lobos da BBM para o evento, mas nesta cabiam, no máximo, 120 pessoas sentadas e mais umas 70 em pé. Ou seja: não deu certo. Falhamos miseravelmente… No entanto, durante a bagunça, algumas frases soltadas pelos estudantes provocaram meu coração: “Nossa, nunca tinha vindo até a USP”, “não sabia que tinha este prédio bonito aqui”, “caramba! ia gostar de estudar nesta sala”… Mas a frase que mais me mostrou o papel social do projeto foi esta: “Moço, minha filha não pôde vir e por isso eu vim no lugar para fazer anotações. Vai ter transmissão ou gravação da aula?”. “Eu não sei, moço. Mas faremos o possível para que tenhamos…”.

A ação desse pai me provocou profundamente e nos permitiu a preocupação: como ficariam os vestibulandos que não podiam ser acompanhados por um cursinho preparatório, tanto público quanto privado, para a Fuvest? Portanto, precisávamos de transmissão ao vivo das aulas mais a permanência delas no canal da BBM no YouTube.

Para a segunda aula, sobre Alguma Poesia, do mineiro Carlos Drummond de Andrade, ministrada pelo professor Ivan Marques, também da área de Literatura Brasileira da FFLCH, conseguimos reservar o Auditório István Jancsó e tivemos mais de 500 pessoas, que, além de ocuparem todos os assentos, também ficaram algumas sentadas no chão ou em pé pelo auditório. Para esta aula começamos a contar com o apoio técnico da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU), responsável pelo auditório, para transmissão e gravação da aula.

Devido ao número extrapolado de pessoas que tivemos nessa aula, para a próxima, sobre Angústia, de Graciliano Ramos, ministrada pelo professor Fabio Cesar Alves, da mesma área que os outros professores, nós tivemos que restringir o acesso ao Auditório István Jancsó e levamos os outros estudantes para a Sala Villa-Lobos, onde seria transmitida a aula. Tivemos mais de 700 pessoas; problemas técnicos com a transmissão; estudantes decepcionados por termos que pedir para que eles se retirassem… Foi um dos dias mais contraditórios que vivi na vida. Primeiro, porque eu vi o interesse dos vestibulandos pelo projeto. Segundo, vi o quanto a universidade pública no Brasil sofre com profundas contradições materiais. E, por último, naquele dia, diante dos estudantes que não conseguiram entrar no auditório, percebi que soube lidar com esse contratempo desafiador. Isso me tornou confiante em meu trabalho, pois alguns alunos comentaram que gostavam das aulas, dos professores e que era para continuarmos, mesmo com os desafios que a universidade pública enfrentava.

A partir de então, começamos a pedir inscrição dos alunos, para quem era entregue uma ficha numerada, que também passou a ser usada no sorteio de livros das aulas ministradas, que conseguimos receber de doação das editoras. Aqui conseguimos encontrar um formato de aula, um formato de evento que deu certo pelos dois anos em que estive à frente dele. Deu certo porque também um profissional foi encaminhado para cuidar da parte técnica dos eventos noturnos no Auditório István Jancsó e os professores divulgaram internamente entre si de modo a não termos nenhum problema com a falta deles.

Uma das coisas que sinto com a vivência na Brasiliana, sendo o coordenador executivo do BBM no Vestibular, foi a possibilidade de conversar sem receio, num certo nível de coloquialismo, com professores que, para mim, eram referências. E eu posso dizer que todos os professores que passaram pelo projeto não apenas me deram aulas sobre as obras, mas também sobre como dar aula, como analisar uma obra literária e como se portar diante do público. Sinto que hoje sou um mestrando em Estudos Comparados porque tive a oportunidade de estar inserido em um ambiente que promovia pesquisa e cultura.

A BBM é um centro de memória. Uma memória que deve continuar viva para que possamos aprender com ela. E só aprendemos com a memória quando trabalhamos com sua matéria: a vida viva das pessoas que permitiram que estivéssemos onde estamos. Meu desejo para a BBM, entre agradecimentos e felicitações, é de que seu trabalho fure as bolhas dos públicos especializados e chegue àqueles além-muros, àqueles que permitem que estejamos ali.

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